Por toda vida que couber nesse amor. Por Renata Quiroga.

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Árvore é um vegetal, permanentemente lenhoso, responsável por grande parte da produção de oxigênio e absorção de gás carbônico. O roubo de terras públicas, a ilícita exploração madeireira, a marcha invasora dos garimpeiros, entre outros fatores de  desmatamento, finalizam mais um ano com queimada criminosa de grande parte do bioma amazônico.

A tragédia ambiental que se repete anualmente, recebeu em 2020 o agravante do enfrentamento da pandemia de Covid-19, doença cujo foco de ataque é o sistema respiratório. A maior floresta tropical do mundo guarda uma extensa quantidade do dióxido de carbono produzido mundialmente, sendo este o gás que mais causa mudanças climáticas no planeta. Tais dados exibem a relevância da preservação deste patrimônio do ecossistema no combate ao aquecimento global.

A Amazônia em chamas e o mundo ardendo na luta contra o vírus. Algo temerário paira no ar.

O desmatamento amazônico remete à importância da salvaguarda das árvores, que em um giro epistemológico leva ao interesse pelo conhecimento das suas versões natalinas. As árvores de Natal, tradicionalmente decoradas com enfeites luminosos, são rodeadas de embrulhos a serem compartilhados entre as pessoas.

O mês de dezembro abre a temporada para compras de Natal, que captura inúmeras pessoas às lojas para cumprirem o extenso rol de presentes. As pressões sofridas em decorrência do excesso de tarefas, durante o período entre Natal e Ano Novo, muitas vezes geram sentimentos de tristeza e melancolia, chamados por alguns de Holiday Blues.

Tais sentimentos podem ser associados ao lugar da falta que se presentifica nas comemorações de fim de ano. As reuniões são muito valorizadas, também, por constituírem um papel sublimatório das culpas e desgastes relacionais que corroem sistemas familiares. Dessa forma, a ausência dessa união ou de membros do cenário natalino causa um sentimento de vazio nos demais participantes que concentram grande expectativa em tais encontros.

Em alusão ao nascimento de Jesus Cristo, a ideia da troca de presentes destina-se à construção de momentos de fratria, desde a escolha até a entrega. Geralmente, este rito ocorre ao badalar da meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro, ou como cada um ritualiza sua própria manjedoura.

No universo comercial que envolve o ato de presentear, tanto doador como receptor acabam sendo estrangeiros dos desejos um do outro, e o que era para simbolizar os afetos perdese nas materializações de sentimentos empacotados. O desencontro entre a expectativa de oferecer um presente adequado e a reação de descontentamento por parte de quem o ganhou pode gerar boas doses de frustração para os atores dessa cena.

Qual seria a razão da dificuldade da troca das lembranças? A flecha do cupido da fraternidade pode não acertar as aspirações do amigo velado ou desvelado. Se por um lado, o presente dado articula-se com gostos pessoais, por outro, objetiva atender aos supostos anseios de quem vai recebê-lo. Acertar esse alvo exige bastante mestria.

A expectativa criada por quem recebe o presente, por melhor que seja este, jamais será totalmente correspondida. Nenhum desejo consegue ter destino certo de realização que não seja sua tomada pelo avesso, às voltas entre suas cadeias de enunciado/enunciação. O presente de Natal passa a ser algo vivido na terceira dimensão, contendo o casamento dos desejos entre quem dá e quem recebe laços de vida.

Durante este ano, o assunto ‘sobre viver’ assumiu protagonismo nos debates a cerca de saúde no combate ao vírus, e da saúde mental abalada pelas mudanças de rotina. O imbricamento de ambas as discussões leva ao entendimento da vida como um processo de continuidade, no qual não há escolhas individuais, e sim o coletivo sempre interposto em ações em teia. O contingente populacional chega ao fim de 2020 com muitas baixas e desgastes físicos e emocionais dos que conseguiram permanecer escalados para as festas de fim de ano.

Qualquer extremo se faz desnecessário às formas de confraternização, que devem entender os limites impostos pela pandemia. Contudo, as celebrações de Natal não precisam ser subsumidas dos ritos familiares em 2020, mas devem reavaliar a dificuldade da aceitação de algo não eleito, mas imposto pelo mundo real. É necessário o adiamento da alocação desse prazer a mais e do excedente faltoso, de forma a aceitar o presente da realidade que se impõe em um momento de agravamento da crise da Covid-19. É possível marcamos um Natal fora de época, no qual a euforia e o charme de festas em datas não convencionais podem se juntar à segurança para realização de um evento responsável e protetivo com que se ama.

Na desambiguação do vocábulo presente, o que prevalece por importância e notoriedade é a forma verbal do termo, indicativa de aceitação do que se tem, que bane criações imagéticas apoiadas por teorias fictícias. O trágico evento pandêmico modificou a paisagem de todas as datas comemorativas, assim como exigiu nova leitura para as festas de fim de ano. Após contabilizar tantas mortes e sofrimentos, a poesia bissexta de 2020 aparece na lembrança da frase do escritor Machado de Assis: “Mudaria o Natal, ou eu mudei?”. A resposta simples ecoa que mudamos todos: os pulmões trocaram seus ares; as árvores caídas ao chão ainda sangram por suas raízes que hoje não mais existem, apenas são co-vidas entre suas sementes. Em meio às luzes semi-acesas dos pinheiros, famílias conferem suas listas de presentes em ordem de chamada: no fundo da sala, a mão trêmula e cansada se levanta e diz: eu? Ausente.

Nem o presente do Natal, nem o futuro mais que perfeito do Ano Novo são capazes de escolher, exatamente, o que cada um gostaria de ganhar. São apenas convenções gregorianas para as quais não há como remeter as apropriações de atos individuais. A capacidade de espera por amor faz o sujeito continuar desejante e elegível para receber o presente possível. A sabedoria da espera é o movimento primevo de anunciação vital. Gestar o outro, dentro de um ventre amoroso, também garante o próprio renascer.

A coluna deseja a todos um Natal conjugado no indicativo da realidade do presente desembrulhado em um 2021 munido de esperança!

Renata Quiroga é psicanalista, coordenadora de Serviço Social, Psicologia, Psicanálise e Psicopedagogia – PSFP.