Feminismo(s) na mídia. Por Évilin Matos.

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Pinto (2003) detectou inúmeros jornais militantes feministas no Brasil, mas que com o tempo, por diversos motivos, foram extintos de circulação. Atualmente, não há periódicos impressos deste teor no país, mas on-line é possível se deparar com páginas, blogs, vlogs e sites que se intitulam feministas, o que se caracteriza na quarta onda do movimento feminista, o ciberfeminismo, que ampliou e fragmentou a militância para a internet.

No jornalismo diário, Fonseca (2008) identifica que a categoria ‘mulheres’ fica sujeita a uma editoria específica, ao lado de outros públicos não alcançados, como ‘empresários, jovens, vestibulandos, desportistas, crianças etc.’ (FONSECA, 2008, p. 110). É possível observar a inexistência da categoria ‘homens’, mas devido à conjugação masculina dos termos é vista a fragmentação do grupo. Enquanto isso, as ‘mulheres’ aparecem representadas por uma única esfera. Específico para o público feminino há revistas. No entanto, Antonio (2009) destaca não serem de cunho feminista, uma vez que enxergam a leitora como consumidora.

Para Morigi (2004) o senso ético, moral e social é construído na coletividade e a comunicação de massas tem um papel significativo em seu desenvolvimento. Por tanto, a errônea reprodução do movimento de mulheres pode acarretar em sua percepção deturpada por parte dos leitores.

Klein (1999) identifica na publicidade veiculada entre os anos 1980 e 1990 a apropriação do discurso de diversidade, que na época ganhava espaço. Segundo ela, antes do bombardeio midiático, os militantes pediam por representatividade na busca de um mundo mais justo. Porém, ‘as políticas de identidade não estavam combatendo o sistema, ou mesmo subvertendo-o’. ‘Quando isso chegou à grande nova indústria do branding corporativo, serviu como alimento para ela’ (KLEIN, 1999, p. 90, grifo dela). A autora encara as ações publicitárias como apropriações de lutas políticas. Em sua visão, as organizações capitalistas construíram um mantra em cima de debates sociais, causando uma crise de identidade na identidade.

Fonseca (2008) esclarece que tais características estão de acordo com a indústria cultural que sujeita a ‘atividade social à lógica capitalista, situação que se instala em detrimento do interesse público e com prejuízos à formação de uma esfera pública democrática e plural’ (FONSECA, 2008, p. 97). Para Porto (2006), a representação tem um peso importante na construção de crenças e pré-conceitos.

Baudrillard (1981), ao criticar a sociedade midiatizada, aponta que as revoluções já estão subvertidas ao sistema capitalista. Para o filósofo, as manifestações revolucionárias servem de material para manter estruturas opressoras atualizadas. Já Shirky (2011), que pesquisa militâncias na contemporaneidade, mais especificamente no meio digital, observa que os movimentos não se sustentariam apenas no período de maior visibilidade midiática, é necessária alguma motivação intrínseca para se debruçar sobre lutas sociais.

Kunzru (2000) adiciona ideias aos apontamentos de Shirky (2011) ao destacar que em relação ao feminismo, iniciativas independentes fomentam debates aprofundados do movimento, geralmente, oriundo de meios digitais, o que, para a autora, mostra o quanto a internet auxiliou na independência do feminismo, criando um ambiente livre de regras e imposições.

Portanto, entender as representações é importante para compreender de qual maneira os veículos de comunicação retratam a mulher e o movimento feminista, pois, em um período, como admite Pinto (2003), em que todos opinam sobre feminismo, o jornalismo influencia na concepção de militante feminista.

Para Lemos (2006), o ciberespaço auxiliou na construção de vertentes, pois nele ‘a manifestação feminista foi deslocada, expandida e fragmentada pelas tecnologias da comunicação’ (LEMOS, 2006, p. 20).

Ciberfeminismo é um termo cunhado, em 1991, pelo grupo virtual australiano VNS Matrix em homenagem ao manifesto ciborgue da biologia Donna Haraway, cujo trabalho evidencia que a relação de seres humanos e máquinas está tão híbrida que a parte natural e a artificial não podem mais ser distinguidas. Publicada em 1985, a teoria de Haraway foi produzida após a disseminação da rede de computadores.

Kunzru (2000) ressalta que o movimento feminista aproveitou desse mundo de redes entrelaçadas para construir identidades livres de impedimentos sociais. A autora acredita que temas inerentes às mulheres passaram a ser debatidos livremente no ciberespaço. ‘Em contraste com o feminismo baseado na proibição, do assim chamado movimento da correção política, que se concentra em tentar policiar a sexualidade e em legislar contra comportamentos inapropriados, as ciberfeministas deleitam-se em uma perversidade polimorfa’ (KUNZRU, 2000, p. 26).

Para Shirky (2011), os meios de comunicação disponíveis potencializaram a participação entre as pessoas, uma vez que a internet proporcionou espaço para debates, reuniões, disponibilidade de informações, arrecadação de doações e qualquer outro material necessário, sinalizando a remoção da barreira física. O autor esclarece que para manter um projeto são necessários dois tipos de motivação: extrínseca e intrínseca.

Évilin Matos e graduada em Jornalismo pela UniRitter.

Bibliografia

ANTONIO, Celso Agostinho. Revistas Femininas e a Plasticidade do Corpo: a progressiva modelagem comunicativa. 2009. Dissertação (Mestrado em Comunicação na Contemporaneidade). Faculdade Cásper Líbero, São Paulo.

BAUDRILLARD. Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa. Editora Relógio D’Água.1891.

FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de Notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo. Porto Alegre. Editora da Universidade/UFRGS, 2008.

KLEIN, Naomi. Sem Logo: A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido. Editora Record. 1999.

LEMOS, Marina Gazire. Ciberfeminismo: novos discursos do feminismo em redes eletrônicas. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica). São Paulo. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009. Disponível em <https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/5260/1/Marina%20Gazire%20Lemos.pdf> acessado em 20 de setembro de 2017.

MORIGI, José Valdir. Teoria Social e Comunicação: representações sociais, produção de sentidos e construção dos imaginários midiáticos. Revista eletrônica e-compós, No. 1. Dezembro de 2004.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do Feminismo no Brasil. São Paulo.

SHIRKY, Clay. A Cultura da Participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2011.

HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte. Editora Autêntica Editora, 2009.

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