O OUTRO LADO DAS MARCAS - Musealização das marcas: como uma alternativa para a sustentabilidade econômica das empresas.

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Nas últimas décadas observa-se uma crescente ‘musealização das marcas’, principalmente as de luxo, que buscam se institucionalizar, pautadas em suas trajetórias. A Cartier pode ser considerada uma das pioneiras dessa onda por ter criado uma Fundação no ano de 1984, na França. A Gucci fundada em 2011, o Gucci Museo. A perfumaria Fragonard que em 2014 inaugurou o Museu do Perfume na França. Como é possível perceber, estes espaços foram criados na terra natal das marcas e, por esse motivo, passaram a fazer parte dos roteiros turísticos, como aconteceu com o Museu de pedras preciosas da carioca HStern, passeio muito indicado em diversos sites e blogs sobre turismo no Brasil. Curiosamente, a empresa não criou um site específico para o museu como é de costume entre as marcas estrangeiras. Associados a estes espaços, em geral, há lojas e algum café ou restaurante. De forma mais ousada, as marcas de luxo investido em hotéis, como o Palazzo Fendi, na Itália, criado em 2016.

Para exemplificar o valor dado à história das marcas, vale a pena comentar sobre o museu criado pela Gucci que ocupa um prédio histórico de três andares em uma praça em Florença, na Itália. No térreo há uma loja e um café, ambos abertos ao público. Já o restante da construção é ocupada por um museu com salas temáticas: uma para exibir as malas de viagem icônicas, outra para exibir os vestidos de festa usados por celebridades, além de um espaço dedicado a mostrar a evolução do monograma do duplo ‘G’. Enfim, tão logo seja possível voltar a viajar após a pandemia, este museu é, com certeza, parada obrigatória, especificamente para designers, qualquer que seja a sua área de atuação, não somente os que atuam com moda. Os designers gráficos vão observar como a marca foi aplicada ao longo do tempo. Já os de produto vão se ater aos materiais e acabamentos das frasqueiras e malas. Por fim, os designers de superfície vão apreciar as estampas.

Cumpre assinalar que, embora esteja tendo um crescimento do setor, a ideia não é exatamente uma novidade. Ainda no contexto têxtil, vale a pena destacar a relevância do Museu da Manufatura de Gobelins, na França. O prédio histórico onde funcionava a manufatura de tapeçarias reais abriu suas portas para a visitação pelas instalações ainda em funcionamento, sendo possível ver os tecelões, hoje funcionários públicos, trabalhando na criação de peças gigantescas, preservando não só a história passada, mas não deixando morrer a técnica.

De modo geral, a criação de museus tem a vantagem de ser uma oportunidade de as marcas fortalecerem suas identidades, uma vez que selecionam casos de sucesso que as auxiliam a serem lembradas, transformando o ciclo vicioso em ciclo virtuoso. Neste mesmo rol vieram a criação de hotéis e espaços de convivência como alternativas para a sustentabilidade econômica das empresas, o que vai além da produção. E não são só as marcas muito luxuosas que perceberam essa oportunidade. Recentemente, em janeiro de 2020, a carioca Farm teve uma iniciativa de valorizar a marca para seu público que não envolvesse somente a produção de roupas. Assim, inaugurou a Casa Farm, uma casa de quatro andares no bairro de Ipanema, um espaço que atende ao estilo de vida de sua clientela jovem feminina que aprecia comida saudável, frequenta workshops, shows, festas. Iniciativas como esta podem se multiplicar se as marcas acertarem na medida do gosto dos seus clientes.

Imagem: fotografia de uma sala do Gucci Museo.

Gisela Pinheiro Monteiro é mestre e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Design da ESDI/UERJ, na linha de pesquisa ‘História do Design Brasileiro’. É também graduada pela mesma instituição com habilitação em ‘Projeto de Produto e Programação Visual’. Possui formação técnica em Design Gráfico pelo Senai Artes Gráficas do Rio de Janeiro e experiência na prática do Design, tendo sido responsável por diversos projetos para empresas. Atua como docente em diversas instituições do Rio de Janeiro.