Nós construímos os influenciadores. A culpa é nossa. Por Flávia Ferreira.

Share Button

Vocês devem estar acompanhando a novela que se formou sobre a festinha que a blogueira Gabriela Pugliesi ofereceu em sua casa, em meio a pandemia, para alguns convidados Vips, contrariando completamente todas as indicações da Organização Mundial da Saúde e dos órgãos de competência sanitária, pois bem, que esta postura é errada todos nós sabemos e ela já foi criticada por centenas de pessoas e perdeu milhares de seguidores, tirando-a até do Instagram (em pesquisa feita em 28 de abril, não encontro o resultado por seu perfil antigo). Mas o que esta atitude diz sobre a liberdade que damos aos influenciadores e sobre o suposto poder sem regras que eles têm em nossa sociedade?

É fato que a blogueira, que contraiu o vírus durante a festa de casamento de sua irmã, evento que infectou outras pessoas famosas e convidados, sabia que estava cometendo um erro ao organizar essa festa, da mesma forma que os seus convidados estavam fazendo-o ao aceitarem ir e, muito pior, poderiam influenciar negativamente os seguidores a fazerem o mesmo, colocando em risco a vida de muitas pessoas.

Durante os Stories publicados, ninguém parecia muito preocupado com a situação do vírus, com a crise econômica e com qualquer outra coisa além de seus narcisismos, então me parece muito estranho o arrependimento posterior que, notavelmente, teve pura conotação comercial por conta dos reflexos negativos de sua atitude.

Mas entenda que você, querido leitor deste O.C.I., grupo no qual me incluo, muito embora eu não tenha nenhuma afeição por ela, tem uma parcela de culpa nessa história… Nós criamos um Olimpo para os influenciadores, verdadeiras divindades pós-modernas impregnadas pelo narcisismo, hedonismo e consumismo, e pela banalização dos valores. A eles, autorizamos ditar como devemos nos vestir, o que devemos comer, como nos comportar, mudar nosso estilo de vida e, em alguns casos, contrair dívidas para poder fazer o que eles fazem, estar onde estão e ser um pouco igual a eles.

Não me interpretem mal, não estou demonizando todos os influenciadores, mas se for para seguir algum influenciador que pelo menos seja alguém real; pesquise a história desta pessoa antes de deixá-la fazer parte da sua família. Assim como não deixamos qualquer pessoa entrar em nosso círculo de amigos e não abrimos a porta da nossa casa para estranhos, por que o nosso comportamento nas redes sociais tem que ser diferente? Reflita um pouco sobre isso.

Para aqueles que gostam da Pugliesi, aqui vai um pouco da história. Em fevereiro de 2017 ela foi indiciada pelo Conselho Regional de Educação Física do Rio de Janeiro por exercício ilegal da profissão, ou seja, ela atuava orientando treinos mesmo sem possuir o registro obrigatório, mesmo ela jurando que não o fazia, o que é uma completa mentira e, infelizmente, os seguidores ficaram ao lado dela, mesmo que isso representasse um risco real à sua saúde.

O que é muito triste, pois não colocamos nossa vida na mão de qualquer médico, não comemos em qualquer restaurante antes de analisar muito bem o local, fazemos juízo de valor das favelas e comunidades, mas dos influenciadores, não. Neles confiamos, pois são como nós… Santa ingenuidade.

Ainda bem que algumas marcas já estão entendendo o real sentido do influenciador e investindo nos nichos e nos micro e nano influencers, pessoas que têm uma real conexão com quem falam. Para quem não conhece bem este universo, indico procurar as referências de Isabela Pimentel – que tem um trabalho incrível neste sentido -, e também acessar o artigo que publiquei aqui no O.C.I. (https://observatoriodacomunicacao.org.br/colunas/o-consumidor-contemporaneo-por-flavia-ferreira/).

Mas, acima de tudo, acho importante paramos de ser ingênuos… Entendam, a vida na rede social é e sempre será maravilhosa, mas ela nunca – ou quase nunca – vai refletir a realidade.

Desculpem-me os fãs desta influenciadora, mas é apenas a minha opinião.

Flávia Ferreira é jornalista pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação. Com mais de 10 anos de atuação profissional, já navegou pelo terceiro setor, o setor público e o privado, sempre trazendo o viés social para o trabalho cotidiano, seja com comunicação corporativa, gestão de marcas ou reportagens de campo.