Empatia em nível sistêmico aplicado à visão moderna do Feminismo. Por Lucianna Golonni.

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A empatia é a base da Comunicação Não-Violenta, que tem como objetivo mapear as emoções de maneira que consigamos resolver e dirimir conflitos em vários níveis.

Muito se fala na Comunicação Não-Violenta em nível interpessoal, quando visualizamos conflitos relacionais, mas essa abordagem – tão útil em mediação de conflitos – é extremamente complexa e pode ser estendida também em nível intrapessoal e sistêmico.

No nível intrapessoal, entende-se como uma ferramenta capaz de ser aplicada como base de compreensão para questionamentos e padrões comportamentais do indivíduo. A própria capacidade de discernimento individual, por si só, já é capaz de trazer luz a várias questões importantes para cada um de nós, criando condições de melhorar incrivelmente nossa inteligência emocional.

Soma-se a essa gama de aplicações, a Comunicação Não-Violenta sistêmica, que compreende a visão de sentimentos e necessidades que permeiam os grupos. Esses sentimentos e necessidades são o cerne da compreensão de fenômenos de conflito na coletividade. Ao nos vermos diante de um conflito em nossa sociedade, como no caso de protestos, por exemplo, é importante decodificarmos a mensagem que está sendo pleiteada pelo grupo responsável pela manifestação. Quais são os sentimentos e necessidades desse grupo?

Quando somos capazes de entender as necessidades do grupo que não estão sendo atendidas, estamos exercendo a empatia em nível sistêmico. E é muito relevante no mundo conflituoso que estamos vivendo, com protestos em vários países e manifestações de ódio em redes sociais, que entendamos de forma empática o que está por trás das palavras desses grupos.

Nos últimos dias vimos manifestações – de um grupo feminista no Chile – que se espalharam por outros países da América Latina, chegaram à Europa e Estados Unidos e, inclusive, ao Brasil. É interessante fazer um exercício empático, nesse momento, para que consigamos entender o que essas mulheres têm a dizer.

Há um impulso, de quem não concorda com os movimentos feministas, de rotulá-los como ‘desnecessários’, ‘vitimistas’ e toda gama de reduções que são resultado de um exercício de julgamento. Por isso é tão importante a empatia em nível sistêmico e isso pode e deve ser aplicado para a compreensão de qualquer movimento, seja feminista, racial ou de qualquer grupo que procure chamar atenção à sua causa.

No caso em questão, o movimento no Chile foi resultado da intervenção de um grupo de quatro mulheres que – há pouco mais de um ano – formaram o coletivo feminista chamado ‘Las Tesis’. Esse nome traduz-se por ‘as teses’, e buscou reproduzir teses de autoras feministas em um formato performático para chegar a múltiplas audiências. Aqui já podemos identificar a necessidade de atenção, pois o importante era que a mensagem chegasse à sociedade.

As recentes performances receberam o nome – em português – de ‘Um estuprador em seu caminho’, e baseiam-se em textos da antropóloga Rita Segato. O grupo Las Tesis executou a primeira performance no dia 20 de novembro de 2019 em Valparaíso, no Chile. Depois, em 25 de novembro, Dia Internacional da Violência contra as Mulheres, aconteceu mais uma performance, dessa vez em Santiago do Chile.

Com o sucesso da manifestação, sobretudo através das redes sociais, as organizadoras convocaram mais mulheres para protestos. E, assim, em 29 de novembro, houve performances em outros países. Mas… voltando ao universo da empatia sistêmica, quais são as necessidades das mulheres que protestaram?

Além da atenção, que já foi listada, pois é necessário que a mensagem alcance mais pessoas, podemos listar outras, como segurança e respeito, como as mais importantes. Os versos do texto citam o feminicídio e os dados não mentem. Há 536 casos de violência contra mulheres por hora no Brasil. De fevereiro de 2018 a fevereiro de 2019, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas, enquanto 22 milhões sofreram assédio. São números alarmantes em nosso país, e isto acontece em outros países também. Portanto, o que se entende das manifestações é que as mulheres precisam que suas necessidades de segurança e respeito sejam atendidas.

Segue parte dos versos cantados para que possamos entender do que se trata:

O patriarcado é um juiz
que nos julga por nascer,
e nosso castigo
é a violência que você não vê

O patriarcado é um juiz
que nos julga por nascer,
e nosso castigo
é a violência que você já vê

É feminicídio.
Impunidade para meu assassino.
É o desaparecimento.
É o estupro.

E a culpa não era minha, nem onde estava, nem como me vestia.

A empatia é peça fundamental para que possamos entender os versos proferidos e a intenção por trás das manifestações. Somente empatizando com o grupo podemos nos abrir a compreender os objetivos das performances, estudar o caso para ter acesso a dados que corroboram as necessidades e, assim, pode-se começar um movimento de sensibilização da sociedade que poderá trazer uma nova consciência e, portanto, uma realidade mais justa, que é que o todos buscamos.

Lucianna Golonni é palestrante e consultora em Comunicação Empática. Professora do IDCE Escola de Negócios, é pós-graduada em Negócios Internacionais pela UERJ.