- Isto é 'bigodagem', exfelizmente.

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O Observatório da Comunicação Institucional é apartidário e não exerce viés político-ideológico. Assim, é um lugar que emula a Atenas do quarto século antes de Cristo, especificamente sob a aura da Academia de Platão, locus onde eram discutidas as coisas mesmas, sua essência (eidos) – o mais longe possível de paixões pré-estabelecidas, vontades pessoais e pulsões político-partidárias.

Nas “nossas páginas” – e já são mais de 50, com 90 matérias em cada uma – ou seja, mais de 4.500 “conteúdos” disponíveis e abertos a todos no portal, gratuitamente -, você não vai se deparar com um FLA X FLU, um GRE X NAL, ou um BA X VI eterno, como se ficasse cativo naquele salão de cabeleireiro em que o canal de futebol nunca sai do monitor de TV.

O que o O.C.I. perpetrou no campo político – nas eleições de 2014, 2016, 2018 e 2020 – foi um estudo muito afim ao propósito da entidade: uma análise do discurso institucional dos partidos políticos brasileiros.

Nossos achados: (1) os partidos políticos, todos, comunicam-se mal com a cidadania; (2) os partidos políticos não se diferenciam uns dos outros perante o eleitorado.

Se naqueles pleitos estudados as coisas já pareciam desastrosas em termos de comunicação institucional, nos próximos parece que ainda vão piorar, pois, além das ilógicas “coligações” partidárias, a criatividade infinita de nossos parlamentares foi capaz de criar uma nova instância – para ainda mais confundir o pobre eleitor brasileiro: “federações de partidos”. Por essa razão, aliás, o O.C.I. não fará mais o seu tradicional estudo.

O sistema eleitoral brasileiro precisa ser inteiramente reformado – o que, em tese, jamais acontecerá. Por que? Porque tal reforma depende da vontade política justamente daqueles que se beneficiam de seus (cada vez mais “turbinados”) vícios: deputados federais e senadores.

O maior vício do nosso sistema eleitoral

Se em eleições majoritárias (para presidente, governadores, prefeitos e senadores) quem tem mais votos vence, nas proporcionais (para deputados estaduais e federais e vereadores), quem decide são os caciques das siglas (hoje, 33) – em malfadadas “listas” partidárias. Vota-se em Enéas Carneiro e elege-se Senhorita Suely. (De quebra, ainda há a sinistra figura do suplente – nunca nominado e detentor, sempre, de zero votos).

O eleitor compreende quando candidatos mais votados se elegem, mas deixa de entender “o jogo” quando seu voto nunca ou quase nunca coloca seu candidato naquelas cadeiras legislativas. Pior: por índole preguiçosa, mal educada ou mal informada, nesses casos frustrantes, o eleitor “deixa p’ra lá”. E decreta: “É tudo igual”(*).

No accountability

Portanto, se para eleger deputados e vereadores – que são os políticos que mais influência exercem em nossas vidas no longo prazo (porque fazem as leis) -, o eleitor aperta a tecla CONFIRMA para aquele número que consta do “santinho” que acabou de receber a caminho da seção eleitoral, terá usado seu poder de voto sem a responsabilidade devida – o que caracteriza típica “bigodagem”(**).

(*) Um dos nossos entrevistados expressou-se assim em nossa pesquisa de 2014. Veja AQUI.

(**) Termo cunhado pelo Rasta e, como explicado em seu livro “O mínimo sobre bigodagem“, pode ser resumido na expressão “exercício de poder sem a responsabilidade correspondente”. (O advérbio “exfelizmente” é, também, da lavra rastônica).

O Rasta é João Nogueira.