Ativismo muito além das fronteiras. Por Júlia Fernandes.

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Algumas conversas são cíclicas. Em meu primeiro artigo publicado aqui no OCI, perguntei aos leitores ‘onde a vida deles havia parado quando o isolamento começou’. A verdade é que o mundo não parou. Quase um mês depois de o texto ir ao ar, a gente vê que o preconceito racial continua, que a falta de empatia pelo próximo está presente em todos os lugares e que o ‘ativismo de sofá’, por si só, não foi suficiente. Foi preciso que houvesse manifestações mundo afora. A pandemia ‘congelou’, em parte, o ir e vir das pessoas, mas não o sentimento latente sobre o que a indiferença provoca entre elas.

George Floyd é o estopim de uma luta irrepreensível no mundo todo. Um grito de igualdade guardado no âmago da sociedade. A falta de humanidade com o homem que dizia não conseguir respirar parecia inaudível para o policial, no último dia 25 de maio. Antes dele, também nos Estados Unidos, pessoas pediram justiça por Ahmaud Arbery, que levou um tiro enquanto fazia a sua corrida na rua em fevereiro. A violência não se justifica em nenhum dos dois casos. E muito menos o racismo. Não seria preciso citar isso, mas os crimes cometidos também estão ligados a esse fato, infelizmente.

Os Estados Unidos recebem ‘os olhos e ouvidos’ do mundo e os seus casos recentes fizeram as pessoas se chocarem. No Brasil há preconceito racial dia sim, dia também ou todos os dias, depende de quem vê ou absorve a cena. Mas foi preciso que o caso de Floyd emergisse para que a reflexão sobre o tema viesse à tona, para que marcas nacionais pudessem expressar em seus posicionamentos que ‘vidas negras importam’, que participassem do movimento para valorização da diversidade entre os seus colaboradores com hashtag nos posts e tudo.

Até que no dia 3 de junho, o menino Miguel (cinco anos), lá de Pernambuco, caiu do nono andar de um prédio. E por quê? A patroa de sua mãe (Sari Corte Real, que é também esposa do prefeito da cidade Tamandaré, Sérgio Hacker) o colocou em um elevador sozinho, sem supervisão. A empregada doméstica Mirtes trabalhava durante a quarentena e levava os cães dos seus patrões para passear, enquanto o filho ficava no apartamento. O resultado da história foi trágico por reflexo do preconceito, da falta de paciência, do descaso. O país se estarrece.

Mas precisamos lembrar que cada vida é única? Será que as pessoas não sabem o que é reciprocidade?

Ao encontro das reivindicações mundiais a gente vê manifestações positivas na mídia brasileira. A rede Globo por meio de seu canal de notícias (Globo News) promoveu uma edição histórica do programa ‘Em pauta’ trazendo o lugar de fala de seus jornalistas negros e suas experiências profissionais. Da TV fechada para a aberta, os relatos deles foram reverberados também no Globo Repórter. O humorista Paulo Gustavo cedeu o seu perfil no instagram durante todo o mês de junho para que a professora Djamila Ribeiro possa explicar como se dá a desigualdade racial no Brasil e a sua estruturação. Vale acompanhar!

Mas, ao redor da Terra, as notícias estão pesadas, um verdadeiro 7×1. Tudo o que nos falta nos últimos meses é respirar. A frase de Floyd representa também o nosso planeta que luta por respiradores nos hospitais, que pede clemência diante de governantes displicentes com as suas populações, que – por meio de seus animais – reflete o quanto os seres humanos ocuparam os seus espaços, que demonstra que a qualidade do ar nas grandes metrópoles melhorou na ausência de carros em circulação. Mais do que qualquer outro contexto, o ser humano não aprendeu a ser efetivamente humano.

Não é possível seguir para um ‘novo normal’ se o ‘remanescente normal’ não é bem executado, seja no âmbito das questões sanitárias, ambientais ou das relações humanas. Usando a linguagem das startups, precisamos ‘pivotar’ o mundo e reprogramar algumas coisas. Já conseguimos ter amostras suficientes desse ‘mínimo produto viável’ de milhões de anos. E uma vez percebida a lacuna a ser preenchida é preciso ser ágil e corrigir a questão. Se for preciso, por que não pedir desculpas?

Júlia Fernandes é formada em Comunicação Social, pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), tem MBA em Marketing e Comunicação e especialização em Gestão Estratégica da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). A autora tem experiência profissional em âmbito público e privado, nos setores de comunicação institucional e marketing.