RELAÇÕES PÚBLICAS INTERSECCIONAIS - Uma nova coluna - Por Nicole Kollross.

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A área de relações públicas tem, por vezes, algumas dificuldades em estabelecer um domínio próprio. Reconhecida por seus modos de atuação e benefícios a longo prazo, ainda não há ampla aderência – junto à opinião pública, por exemplo – sobre a sua importância e, assim, presença institucionalizada dentro das organizações.

O que são as relações públicas? De modo didático, a partir do próprio nome da área: relações públicas, as relações com e entre os públicos.

OK, mas o que afinal é um ‘público’? Talvez possamos o entender como um grupo de pessoas, que foram ‘agrupadas’ tanto a partir de suas características e hábitos de consumo, quanto por suas experiências e níveis de interdependência em relação a uma organização.

Qual seria a proposta, a partir de então, das relações públicas interseccionais?

A interseccionalidade é um conceito relacionado originalmente aos estudos de gênero, que desenvolve a ideia de que ‘somos’ a sobreposição de diferentes modos de silenciamento e, até mesmo, de invisibilização; noutras palavras, de inclusão e exclusão, a partir de características e vivências compartilhadas (reais ou, por vezes, idealizadas).

Tal conceito é um legado importante da teoria ‘queer’ (em tradução livre do inglês para o português, a teoria do ‘estranho’); a qual, desde a década de 1980, aborda a importância da orientação sexual para os processos de construção identitária.

Processo de construção identitária? É o entendimento de que ‘o quê’ se é, a identidade, é construída dentro de dada conjuntura sociocultural, histórica e política. Talvez, mais importante ainda, sejam as implicações de que a identidade é processual: ‘o quê’ se é não é um dado a priori – anterior e independente da experiência ou do exercício do livre arbítrio –, predeterminado ou essencialmente ‘justificado’.

‘Somos’ em processo, a partir da sobreposição de diferentes grupos de pertencimento: raça, classe, sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual etc. Tais grupos, a partir dos quais nós nos reconhecemos como iguais a uns e diferentes de outros, são políticos: manifestam relações de poder, disputas por lugares de fala e recursos.

A proposta das relações públicas interseccionais (ou ainda, do ‘RP intersec’) é, justamente, o reconhecimento de que nas relações com e entre os públicos, sendo cada um deles um grupo de pessoas com sobreposições de diferentes exclusões, devemos basear quaisquer políticas e estratégias comunicacionais em efetivamente ouvir e ver as diferenças.

Qualquer atuação é política e está ideologicamente posicionada; a questão é, entendemos o potencial da comunicação como inclusiva?

Nicole Kollross tem doutorado em Comunicação e Linguagens (UTP), mestrado em Sociologia (UFPR), graduação em Publicidade & Propaganda e em Relações Públicas (UFPR). Professora integrante do projeto de extensão vinculado ao Setor de Artes, Comunicação e Design da UFPR – Sinapse Laboratório de Mídia, Consumo e Cultura. Pesquisas nas áreas de comunicação, filosofia, sociologia e estudos de gênero.

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