PAPO ABERTO - Às vezes, o que eu vejo quase ninguém vê. E você? Uma reflexão sobre a tela, a imagem e as redes.

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Se uma imagem vale mais do que mil palavras, a visão tornou-se mais do que nunca a porta de entrada para o mundo. Mas, é preciso olhar mais com os olhos do coração. Vamos nos esforçar mais na prática da empatia?

Era de encher os olhos! Pedro chegou a sentir a brisa batendo em seu rosto e viajou no tempo, quando ainda era criança e mergulhava com o pai na lagoa. Já João, sem dúvida trocaria aquele azul profundo e mal pintado por uma foto ultra-realística.

Mario nem notou a réplica de ‘A noite estrelada sobre o Ródano’, de Vincent van Gogh, exibida na recepção. Seus dedos corriam e os olhos sequer piscavam. Sua tela era outra e também de encher os olhos pela quantidade (e como!) de imagens e títulos que eram consumidos entre um clique e outro.

Moral da história? Cada um escolhe o que olha, mas mesmo olhando para a mesma coisa podemos ver coisas diferentes.

E quanta coisa a gente vê? Tudo aquilo que nossa mente nos permite e se esforça, conforme nossas crenças, valores, momento, experiências, de acordo com nossa consciência. É preciso também olhar com os olhos do coração. E isso significa praticar mais a empatia.

O que é bonito é para ser mostrado e olhar não é pecado. São inúmeros os trocadilhos – e vou mesmo abusar deles aqui – que podem ser citados e usados como subterfúgio ou mesmo afirmação para apreciar o que é belo. Queremos vê-lo, tê-lo e sê-lo, e tanto que, em algum momento no decorrer da história, colocamos a essência e a aparência em lados opostos da balança.

O ideal é que ambas andassem juntas em suas medidas. Mas, enquanto isso, estereótipos de que toda moça bonita não pode ser inteligente, dádiva que sobrou para as feinhas, perdurarão e ainda falaremos da inclusão das gordinhas, idosas e magricelas, ou do massacre das Pretas Gil, Suzanas Vieira e Brunas Marquezine respectivamente.

Porque se você acha, meu amigo, que ver o belo é colírio para os olhos, basta entrar nas redes sociais. Em grande e massificadora quantidade, lá está a alegria, a felicidade, a união, as viagens e suas belas paisagens. Nunca olhamos tanto para a grama do vizinho, aquela de dar depressão. Isso mesmo. O Instagram chegou a ser considerada a pior rede social para saúde mental dos jovens, segundo pesquisa do Reino Unido em 2017, como fator propulsor da aparente tristeza sem sentido.

E lá vamos nós: se uma imagem vale mais do que mil palavras, a visão tornou-se mais do que nunca a porta de entrada para o mundo. Já era para Aristóteles, ‘porque a visão é, dentre as percepções sensíveis, aquela que veicula o maior número de diferenças’.

Mas, que diferenças são essas? Principalmente com as redes sociais, em que todos tem a possibilidade de expressar suas opiniões, suas visões de mundo e de vida, temos a liberdade real de exprimir o que pensamos? Ou essa liberdade tem os limites do respeito, da empatia, da ofensa? Será que sabemos curtir apenas as opiniões iguais às nossas ou estamos construtivamente promovendo debates? Um pouco de tudo!

E é nessas redes que nossas crianças e adolescentes têm construindo sua visão de mundo. Afetando inclusive, sua própria visão física. Os olhos hoje são a principal porta de entrada para o mundo, até mesmo para as crianças na faixa etária de 8 a 11 anos – que têm passado mais de duas horas seguidas pregadas nas telinhas, o que pode afetar o desenvolvimento cognitivo delas.

Da época que as mães mandavam os filhos sentar-se longe da televisão para o mundo dos smartphones, o resultado é o aumento dos casos de miopia, que somente no Reino Unido chegou a 35%. Isso sem contar ainda a exposição às telas dos computadores. No Brasil, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia já apontou que dobrou – de 10% para 20% – o número de crianças que precisam da utilização de óculos.

No mundo das telas, estamos ficando cegos? Para José Saramago, já estamos há tempo. Em sua obra ‘Ensaio sobre a cegueira’, ele apresenta não uma doença ou castigo divino, mas uma condição da sociedade, como um mal que se alastra e não nos permite ver as mazelas de nossa vida, levantando várias questões e abordagens, nos apresentando que, na verdade, o pior cego é aquele que não quer ver.

De Saramago à Netflix, não poderia deixar de citar o filme ‘Bird Box’, que virou até meme na internet (como praticamente tudo), no qual a busca por um lugar seguro no mundo requer vendar os olhos para não se deparar com o fenômeno ou criatura que toma a forma do pior dos seus pesadelos ou medos – porque o que os olhos não veem, o coração não sente.

E lá vai o meu último trocadilho (eu juro!), agora da canção ‘Quase sem querer’, da banda Legião Urbana: ‘Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê’. E você?

Danit Furlan é jornalista e consultora de Marketing com mais de 15 anos de atuação. Escreve semanalmente sobre assuntos diversos no mundo da Comunicação.

Imagem: Steve Buissinne por Pixabay.

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