O que devemos fazer com a raiva? Por Lucianna Golonni.

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A raiva é um grande mito no estudo do comportamento humano. Na maioria das vezes apontada como algo ruim que precisa ser combatido. Porém, esse discurso colide com uma pergunta que deve ser bastante realista:

– Afinal, é possível evitar sentir raiva?

Vivemos um momento ímpar da nossa história. Nos últimos anos criaram-se dois pólos de pensamento e com ele, dois grupos de pessoas. As ideologias políticas foram responsáveis por trazer à tona discussões que poderiam engrandecer muito o campo crítico, pois nunca nossa sociedade esteve tão envolvida em questões de segurança, educação, comportamento e política em geral.

No entanto, o que seria muito útil para o desenvolvimento de uma consciência política nos cidadãos acabou trazendo algo quase inevitável com a dicotomia: o abismo entre as pessoas. O termo ‘quase inevitável’ aplica-se porque é muito difícil não ver o outro como oposto e, portanto, como ‘inimigo’ que tem interesses divergentes.

Apesar de tamanha dificuldade, não seria impossível estarmos em outro patamar em nossa relação com quem pensa diferente. Mas isso somente seria viável caso conseguíssemos entender por que nos distanciamos da outra parte.

A resposta a essa pergunta é simples: ficamos com raiva de quem apresenta outra proposta. Falo de um cenário político, já que tem trazido inúmeros conflitos de ordem cultural, política, de convivência. Mas obviamente, vemos o mesmo quadro em relações menos amplas, como em uma equipe de trabalho, por exemplo, relações familiares ou amorosas.

O cerne da questão é entendermos o que gera a nossa raiva, o que acaba nos fazendo ver a outra parte como um inimigo a ser combatido. Tal animosidade, infelizmente, permeia todas as nossas relações e é extremamente danosa. Nela residem as maiores fontes de insatisfação humana.

Mas se a raiva compromete a qualidade das nossas relações e gera tantos conflitos em nossa sociedade, o ideal não seria que tentássemos, ao máximo, evitá-la? Ideal até poderia ser, porém é infactível. E isto deve-se ao fato do estímulo para que sintamos a raiva. E o estímulo reside em nossas insatisfações. Melhor dizendo e, já incorporando o linguajar da Comunicação Não-Violenta (CNV), reside em nossas necessidades não atendidas.

A CNV é capaz de auxiliar na resolução de conflitos exatamente por mostrar o caminho dos nossos sentimentos. E sabemos que o que baseia as desavenças são sentimentos como frustração, decepção, tristeza e, principalmente, raiva. É muito importante sermos capazes de distinguir o sentimento que temos diante de determinada situação, mas é imprescindível que identifiquemos a causa do mesmo. E a causa é uma necessidade não atendida.

Essa percepção muda totalmente o paradigma que temos diante dos conflitos que vivemos em nossas vidas. Ao nos darmos conta de que a causa do nosso desconforto é estarmos diante de necessidades não atendidas, percebemos que não é a outra parte que nos causa raiva e sim, algo que nós mesmos precisamos que seja acolhido, atendido.

Sendo assim, a raiva – esse sentimento tão temido e incompreendido – que nos leva a reflexões que questionam sua preservação, mostra-se extremamente útil, pois passa de causa a sintoma.  E, como todo sintoma, apresenta-se como fonte preciosa de compreensão do que nos leva a sentir tamanho desconforto.

Portanto, da próxima vez que você sentir raiva, não tente domá-la sem antes investigar a sua causa. Ao simplesmente fingirmos que ela não existe, estamos deixando de olhar para algo que nos é caro e perdemos a oportunidade de entender do que realmente precisamos. E, ao identificar como sanamos este desconforto, seremos capazes de conduzir nossas vidas mais capazes de resolver, seja sozinhos ou através da ajuda de outros, a acolher o que identificamos como sendo importante para o nosso bem-estar.

Lucianna Golonni é palestrante e consultora em Comunicação Empática. Professora do IDCE Escola de Negócios, é pós-graduada em Negócios Internacionais pela UERJ. https://www.linkedin.com/in/lucianna-golonni/