O papel da mídia nas fraudes corporativas: o caso de Elizabeth Holmes e da Theranos. Por Chris Santos.

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O ano de 2022 começou com a divulgação da condenação por fraude da empresária Elizabeth Holmes, fundadora de uma empresa que prometeu uma revolução tecnologia na área da saúde a partir do desenvolvimento de uma máquina que faria mais de 200 exames a partir de uma gota de sangue.

Até chegar a esse final e ao desmascaramento de seu golpe, Elizabeth atraiu vultosos investimentos e, conforme matéria do Valor Econômico (09/01/2022), a “história de como uma jovem bonita e bem falante conseguiu enganar quase todo mundo por mais de dez anos” chegou a ser capa de várias revistas internacionais e comparada com o fundador da Apple, Steve Jobs.

Essa história pode ser analisada de diferentes perspectivas, mas a que quero abordar aqui é exatamente o papel da imprensa na construção da imagem de Elizabeth como “revolucionária” e tratada como a “queridinha” do Vale do Silício e dos meios de comunicação, sendo destaque nas capas de revistas como Fortune, Forbes e Inc., com abordagens que promoviam de forma exagerada os méritos e qualidades da startup Theranos e de sua fundadora.

Criou-se um ciclo favorável à empresa que, quanto mais era notícia e associada aos investidores de peso, entre eles a família fundadora da rede global de varejo WalMart, mais se via seu valor de mercado crescer. Qual a ética desta cobertura jornalística e das ações de Elizabeth que mascararam a realidade por anos? Onde estava o jornalismo investigativo? Até que ponto a imprensa pode ser “seduzida” por fortes estratégias de autopromoção?

Foi apenas em 2015, quando um grupo de ex-funcionários da empresa Theranos entrou em contato com o Wall Street Journal e relatou ao jornalista John Carreyrou sobre as fraudes e os problemas com os resultados dos exames, que a investigação jornalística começou – e levou 10 meses para a matéria ser publicada.

O tal equipamento “revolucionário”, chamado “Edison”, na realidade estava sendo utilizado em menos de 10% dos testes efetivados pela Theranos. Por outro lado, a maioria dos testes foi realizada em analisadores adquiridos de outras empresas do segmento, como a Siemens AG. Todo esse trabalho investigativo deu origem ao livro “Bad blood: fraude bilionária no Vale do Silício”, lançado no Brasil em 2019 pela Editora Alta Book. O autor explica que entrevistou mais de 150 pessoas.

Este um caso ocorreu nos Estados Unidos, mas podemos encontrar similares no mercado brasileiro. É possível fazer referência às matérias sobre o “bilionário” Eike Batista.

Podemos refletir a respeito do espaço que a imprensa proporcionou ao discurso exagerado e à ambição de Elizabeth Holmes. Devemos refletir ainda sobre a relevância que o jornalismo investigativo desempenha na descoberta dos dados e informações que são mantidas sob sigilo quando se recebem denúncias graves vindas de fontes confiáveis.

A fraudadora, termo que posso usar a partir de sua condenação, se cercou de executivos de grande reputação e usou de seu carisma para “enganar” o mundo (podemos refletir também sobre o quanto era melhor para os investidores acreditar nas “promessas” da garota-prodígio do Vale do Silício).

Esta é uma cobertura jornalística que oportuniza à imprensa uma autocrítica.

Chris Santos é profissional com 30 anos de experiência em agências de comunicação, relações públicas, assessoria de imprensa, eventos e marketing digital. Clientes atendidos: Associação Brasileira das Empresas de Software, Unilever, Avon, Lojas Renner, Karsten, Mahogany, Adcos, entre outras. Graduada em Relações Públicas (1990) e em Ciências Sociais (1997) pela USP, com especialização em Gestão de Processos Comunicacionais (USP), MBA em Gestão de Marcas (Branding), pela Anhembi-Morumbi, e mestre em Comunicação e Política pela UNIP. Tem se dedicado ao estudo de tendências nas áreas de marketing digital, comunicação e política e tecnologias da comunicação e informação.