NO CORAÇÃO DAS COISAS - A inutilidade da arte. Por Mariana Machado de Freitas.

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Hoje te convido para entrarmos no coração de uma questão: o sentimento de injustiça que os artistas apresentam com relação à incompreensão social da utilidade da arte. Mas não vou engrossar o coro. Vou, pelo contrário, tentar desmistificar alguns jargões e narrativas que julgo superficiais.
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Na introdução da obra ‘A utilidade do inútil’, Nuccio Ordine condena a lógica do lucro e acusa esta mesma lógica pelo desvalor que a sociedade acaba por atribuir à arte. Diz ele que a sociedade está conformada de modo a atribuir mais valor àquilo que tem sua utilidade prática imediatamente reconhecida. Já a arte, cuja função não é utilitária, é tratada como atividade marginal, não essencial.
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Ele não parece errado na observação do fato, mas é bastante apressado na interpretação, motivado pelo ronco visceral de sua ânsia militante. No desejo de encontrar culpados na esfera social e não na própria condição humana, que é absolutamente heterogênea, Nuccio repete a eterna insatisfação dos intelectuais com relação àqueles que detêm os meios de produção e que atuam como motores do progresso material.
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Porém, me parece pueril desconsiderarmos que, dada a natureza humana, não fosse o interesse no lucro como motivador do trabalho, não estaríamos aqui, com luz elétrica disponível a um toque, livros na estante, banho quente no chuveiro, vôo para qualquer parte do mundo em algumas horas, comunicação sem fronteiras etc. Vivemos num mundo de pequenos milagres inimagináveis há poucos séculos. Tratamos com desprezo esses milagres, como se não fosse mais do que a obrigação do mundo para conosco, e ignoramos que a instalação de todas essas coisas na realidade exigiram sacrifício de muitas vidas, mentes brilhantes, pessoas de negócios. Hoje pagamos a conta de luz e acreditamos que nossa conta está paga. Mas temos uma conta com todos que vieram antes de nós e tornaram os sistemas disponíveis.
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Voltando à dicotomia proposta por Ordine: ele afirma que existem utilidades inúteis e inutilidades úteis. É interessante, mas é uma frase mais bonita do que verdadeira. Veja, quando Ordine insinua que existem coisas que as pessoas consideram úteis e não passam de quinquilharias inúteis, atacando o comércio de mercadorias, ele o faz com base num julgamento muito particular. Tais coisas não têm utilidade para ele. Imagino que ele nunca foi dono de casa à procura de um mísero Tupperware para guardar feijão para a semana, a fim de economizar tempo nas próximas refeições. O Tupperware é símbolo de alguma futilidade? Para alguns intelectuais que habitam torres de marfim além-mar, pode ser que sim. Mas não foi a busca por mercadorias que fez com que se descobrissem continentes, possibilitando, a partir disso, todas as trocas imateriais, culturais, artísticas entre os povos? Porém eu entendo Ordine. Apesar de fazer a provocação que fiz, entendo quando ele parece se sentir atacado nos brios pela indiferença social àquilo que ele tem por mais precioso. E, de fato, ele está certo: a arte é materialmente inútil, porém, psiquicamente, animicamente, espiritualmente é ‘útil’. Usei ‘útil’ para concordar com a frase de Ordine, mas acho que caberia mais o adjetivo ‘poderosa’.
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Toda arte que se conforma ao lucro, perde em qualidade. Porque perde a liberdade. Torna-se escrava da opinião e do desejo do público e, com isso, deixa de buscar o desconhecido. É bem difundida a ideia de que a exposição de algo que se encontrava oculto pode gerar inicialmente rejeição, retaliação, censura, negação para, só muito adiante, ser aceita como algo valioso. ‘Há homens que nascem póstumos’ (Nietzsche). Também assim, uma obra de arte cujo cerne está muito acima da compreensão intelectual do seu tempo, pode ser um total fracasso. E, me diga honestamente, quem irá financiar algo no qual não acredita? Entende-se, assim, que o problema da arte reside na heterogeneidade humana. Há amplitudes diferentes em cada ser humano. A única coisa que, como efeito colateral, pode ir alargando a amplitude intelectual coletiva é o movimento individual em busca do saber. Alguém, de tempo em tempo, acende a luz.
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Voltando ao dinheiro. Na Idade Média, por exemplo, houve o financiamento de algumas das obras de maior valor cultural, cujas imagens, inclusive, trazemos hoje como souvenirs em canecas e chaveirinhos. Imagens que ainda hoje movimentam a economia dos países através do turismo. Mas naquela época o financiamento não era indiscriminado. O artista, artífice, artesão necessitava provar seu valor antes de ser financiado.
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Atualmente, há uma quantidade enorme de dinheiro injetado em cultura pelos governos mundo afora com muito pouco retorno em produção artística poderosa, não-datada, capaz de atravessar os séculos e ajudar o ser humano a compreender a condição humana. Isso sim é descaso: investir em qualquer coisa e depois dar publicidade ao produzido, independente da qualidade, para dizer que se investe em arte. Isso faz com que a arte seja cada vez menos apreciada, pois, se arte é só uma catarse, uma birra, essa confusão que nos entra pelos sentidos, o povo enxerga que o rei está nu. Só não fala, coitado. O ruim disso tudo é que o povo fica cada vez mais alheio à arte exuberante, profunda, simbólica, que amplia sua visão de mundo, que ensina a gozar da contemplação estética.
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O artista precisa ser financiado, afinal, ele não pode comer a arte que produz. Ele precisa de materiais, alimento, abrigo etc. E a forma de financiamento do artista está direta ou indiretamente ligada ao lucro de outrem. É através do lucro de outrem que se consegue financiar bens intangíveis e imateriais. É através do lucro que existem os patrocinadores privados. É através do imposto sobre o lucro que existe o patrocínio público. E ainda que existam artistas que não precisem de dinheiro e vivam de renda de heranças, isso só foi possível porque alguém, no passado, buscou obter o lucro e acumular patrimônio. Então, por exemplo, atacar a ‘burguesia’ porque esta se dedica mais ao cultivo de bens materiais do que bens espirituais, é esquecer que toda a sociedade (incluindo religiosos, artistas, filósofos, cientistas…) embarca na sua carona e se beneficia dos seus progressos.
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A incompreensão sobre a inutilidade útil da arte não reside em sistemas sociais e políticos. Reside na condição humana e na desigualdade natural de interesse e força vital dos seres humanos, para dar alguns exemplos. E é também natural que aqueles que utilizam sua força vital na obtenção de conhecimento, acabem por apresentar oportunidades de conhecimento aos demais.
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Mesmo Ordine tendo escrito seu texto atacando a inutilidade do útil e enaltecendo a utilidade do inútil, seu texto chegou aos corações daqueles que já sabiam do valor da arte, independente de sua utilidade. Talvez possa ter munido de argumentos alguém para discutir com quem pergunta: ‘Qual a serventia da arte?’. Mas, a pessoa que pergunta isso, e está no seu direito, pode muito bem, ao final de toda a explicação, ainda concluir: não me serve e não acho que se deva investir nisso. Não tem como semear a compreensão do valor da arte em solo árido para a mesma. A arte não é um elemento ordinário no mundo. É extraordinária. Como tal, é certo que encontre dificuldade e resistência. Grandes artistas que produziram grandes obras enfrentaram grandes resistências, sociais ou materiais. Será que algum elemento pode ser excluído dessa equação? É uma boa questão para refletir.
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Bom domingo e boa semana!
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Imagem: Florim de ouro de Florença de 1340. Fonte: Wikipedia.

Mariana Machado de Freitas é gaúcha, Mestre em Artes Visuais, poetisa, escritora e buscadora da essência e do coração das coisas.

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