MARKETING PÚBLICO - Inove, pense fora da caixa….da tecnologia. Por Andréa Back.

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Falar em “inovação” está na moda. E sempre que se toca no assunto, imediatamente ele vem associado a termos como “aplicativo”, startup, “ transformação digital” etc.

Mas pensar em inovação somente como tecnologia é reduzir sua relevância. Tecnologia é uma das possibilidades. E um meio, não um fim. Inovação é resolver problemas. Problemas reais das pessoas, da sociedade. Empresas inovadoras encontram soluções para questões do dia a dia. Perdemos excelentes contribuições porque muitos acham que precisam ser extremamente criativos ou dominar ferramentas tecnológicas, inventar algo que não existe.

Então, as primeiras habilidades a serem trabalhadas não precisam ser programação ou operação de drones. O foco deve ser a capacidade de observação e de se colocar no lugar de outras pessoas. A curiosidade em conhecer realidades distintas e a sensibilidade para perceber o que não está funcionando ali. Foco no contexto, antes da ideia.

Na gestão pública, o tema da inovação também está na agenda do momento, e novamente o senso comum a associa sobretudo com inovação tecnológica. É preciso ir além da ideia de que inovar na gestão pública é digitalizar serviços.

Além disso, é importante observar que não se pode tratar o conceito no setor público exatamente da forma como é aplicado no setor privado. São lógicas distintas. A dimensão de análise para inovar na gestão pública é criar valor público para a sociedade com, por exemplo, melhoria nas políticas públicas, no acesso aos serviços, na sustentabilidade, transparência, equidade etc.

Se entendemos inovação como encontrar outra forma de olhar o que já existe (que pode ir do papo no cafezinho às grandes obras), percebe-se que sim, o setor público tem potencial e oportunidades, mesmo sem altos investimentos ou grandes revoluções. Contribui para os resultados quando a inovação deixa de ser colocada como uma área específica dentro da administração pública, e passa a ser reconhecida como um conceito que perpassa distintos órgãos, cargos, processos e competências, para se transformar em uma prática.

Tomo como exemplo uma iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre que, durante a pandemia, contratou “mediadores interculturais”, uma experiência inédita no SUS. A ação evitou que a barreira do idioma impedisse o atendimento dos imigrantes na rede de saúde pública e ainda gerou postos de trabalho a este mesmo público.

Claro que é impossível ignorar a importância da tecnologia em mudanças estruturais que impactam toda a sociedade. Existe o mundo A. I. e D. I.; antes da internet e depois da internet, por exemplo. Inclusive, aproveito para lembrar que a internet não foi criada por Steve Jobs ou pelo Google mas, sim, pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, um órgão de estado.

Talvez a revolução mais necessária para a implantação de uma cultura de inovação no serviço público seja a descentralização. Garantir que todos os indivíduos de uma organização estejam motivados para buscar as respostas mais criativas, funcionais e resolutivas. Horizontalizar a tomada de decisões permite que todos nas equipes se percebam como agentes de inovação. E dá aos gestores um repertório muito maior de diagnósticos e possibilidades de melhoria.

Encerro levantando uma última questão: assim como a tecnologia, tampouco a contemporaneidade detém o monopólio da inovação. Prova disso é um trecho da biografia de Leonardo da Vinci (1452 – 1519) escrita por Walter Isaacson: “As habilidades excepcionais em se dedicar ao diálogo entre teoria e prática fizeram dele um exemplo fundamental de como a observação intensa, a curiosidade fanática, a realização de experimentos, a disposição para questionar os dogmas, e o talento para identificar padrões entre disciplinas, podem levar a grandes saltos no conhecimento humano”.

Imagem: Pixabay.

Andréa Back é jornalista e publicitária com especialização em Marketing e em Cooperação Iberoamericana pela Universitat de Barcelona. Trabalha na Prefeitura de Porto Alegre, onde já ocupou cargos de planner de Comunicação, gerente de projetos e gerente de marketing. Atualmente é assessora de comunicação da Procuradoria-Geral do Município de Porto Alegre. Foi colunista da Revista Bá por três anos.