E a pandemia escancarou os abismos na educação. Por Patricia Vieira.

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Em um dado momento saí da minha rotina de sala de aula, deixei o quadro, o pilot e o computador da sala que, no máximo, me ajudava a passar vídeos, e me deparei com um universo que cabe dentro da sala da minha casa, sim, eu sou professora e estou em home office.

Em pouco tempo precisei entender de diversas ‘mídias’ e aplicativos para dinamizar as minhas aulas. Criei conteúdos em vídeos editados e com animações, quiz, games, slides interessantes, planilhas dinâmicas, podcasts divertidos, salas de aulas interativas, e outros tantos recursos que me fazem parecer um ser multimídia.

Eu, que por anos ensinei no ‘cuspe e giz’, agora, sou o ‘Alok’ do ensino e, a internet, a ferramenta poderosa que transforma minhas aulas numa rave.

Brincadeiras à parte, realmente existe um abismo entre os recursos que possuo aqui e o que dispomos em sala de aula. Isto sem falar no meu aluno que tem acesso a diversos vídeos e, em alguns casos, é produtor de conteúdo em ‘mídias sociais’ e, à sua disposição, tem o mais diverso streaming e postagens diversificadas.

Mas convivo também com meu aluno que não possui o menor recurso para assistir as aulas, não tem internet, nem computador, precisa da boa vontade dos outros – isso quando consegue – para acessar do celular.

Sou uma das exceções entre meus colegas. Alguns, por falta de trato com a tecnologia ou mesmo dos recursos, viram a vida cair num vendaval de emoções. Às vezes, a internet cai e usam seus dados móveis para continuar on line, noutras, pendura quadros, cria suportes para o celular, e assim ter como gravar aulas. Em alguns momentos têm que lidar com a desatenção dos seus alunos e outras com a comunicação ruim que atrapalha o entendimento.

E a cada dia tentamos driblar o cara da Kombi de ovos, o vizinho que resolveu fazer obra, ligando a furadeira na hora da aula, cachorro latindo, crianças chorando, as nossas e as dos vizinhos, família que esquece que você está trabalhando e aparece falando na sua ‘sala de aula’, situações que poderiam ser até engraçadas se não estivéssemos aqui falando de educação.

Outro dia, numa dessas inventivas ideias para trazer mais dinamismo para a aula, eu e um colega decidimos fazer um ótimo vídeo juntos, de tema maravilhoso, iria ficar fantástico e interessante; ele mora numa área mais distante e esquecemos de combinar com o galo que deve morar ali perto – na hora da gravação o galo quis participar. Tentei ao máximo ignorar o canto mas em determinado momento não aguentei e comecei a rir… sabe aquela crise de riso que é difícil parar? Então, atrapalhei nossa gravação que estava ficando ótima… imagine isso ao vivo?

Sofremos pelas dificuldades de transmissão, pela distância, mas sofremos principalmente pela desigualdade, nossas e dos nossos alunos, a cada vídeo que se abre e revela a precariedade de condições que meus queridos alunos ou mesmo que meus colegas vivem.

E estou aqui falando de uma população escolar dentro do Rio de Janeiro, imagine o que já era precário nas cidades pequenas e no interior, deve ter ficado muito pior.

Ainda sofremos com o planejamento das aulas, os formulários a preencher, o parecer de quem não consegue acompanhar o ritmo das aulas e a confecção de materiais para quem não pode estar on line.

São tantas as dificuldades que o ensino distante ou aulas on line já deram um panorama para tudo que precisamos discutir e resolver antes de voltar.

E quando as aulas voltarem para o ambiente convencional? Estamos preparados para essa nova realidade? Saberemos lidar com as diferenças entre quem acompanhou e quem nem conseguiu acessar? Esse abismo que deve levar muitos para um buraco negro, sem conhecimento, se nada for feito?

Acredito que toda essa experiência não tem só momentos difíceis e em muito também agregou para a educação – e o mais importante agora é debater, refletir e buscar soluções. Somos responsáveis por construir um novo momento, por buscar igualdade de condições ao acesso a educação, de pensar nas futuras gerações, numa educação forte e que possibilite um país melhor para todos.

Patricia Vieira é contadora, professora, escritora, conteudista, designer instrucional, mãe, mulher, voluntária. Pós-graduada em Gestão Empresarial, Logística e Ensino à Distância, e Licenciada em História.

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