Crise que crise... agora? E depois? Por Patrícia Vieira.

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Nunca fui muito fã de montanha-russa. Sempre me incomodou aquela sensação de que não tenho domínio, para alguns maravilhosa adrenalina, desconforto. Eu não, gosto muito de planejar e de alguma forma saber onde piso. A montanha-russa aqui me serve de comparação com a situação econômica brasileira e com a minha própria.

Sou de uma época, pelo menos de onde consigo ter lembranças, em que o monstro da inflação rondava nossas vidas, e parecia ser indestrutível, a divida externa impagável, e os preços nos supermercados a todo momento remarcados, o que era ‘imutável’ e não parecia fazer parte do meu cotidiano – mas o que mudava sempre era algo tangível na minha rotina, ir ao mercado com minha mãe e somar valores para saber o que dava para levar, além de sair sempre com a cesta vazia, carrinho? Isso nem pegava, só comprávamos o básico; arroz, feijão e, se possível, uma carne bem dura, conhecida como ‘sola de sapato’, minha mãe ainda usava sua arte de fazer o ‘bife’ ficar bem fininho, quase transparente, e nós felizes pois nem sempre tinha bife, degustávamos aquela refeição gourmet.

Vivíamos assim, sem lamentos, pois todo nosso entorno era assim, estado normal, todos iguais e em raras situações acontecia algo diferente e ganhávamos uma bala, um suco de saquinho ou outra guloseima ‘baratinha’ – normalmente, meu pai havia acertado um ‘bicho na cabeça’.

Em outros momentos, era também a montanha-russa da economia que podia trazer uma sacudida rápida nas nossas vidas e de uma hora para outra ou devo dizer de um plano econômico para o outro lá estávamos em uma melhora de vida, melhora de poder de compra. Passamos de moeda em moeda, vi meu pai com grandes quantidades de notas comprar um quilo de feijão e em outro momento com poucas notas ir à feira e poder comprar frutas que não eram aquelas que pegávamos no quintal do vizinho, frutas boas, de qualidade, podia comer maçã, comer maçã era sinal de ‘riqueza’, uva também, morango? Eu nem sabia que existia, só descobri muitos anos depois, se me falassem que existia kiwi eu nem ia acreditar.

Esse negócio de plano econômico era tão bom que comprávamos todas as brigas e acreditávamos firmemente que o país iria melhorar para os pobres, minha mãe pegava uma tabela de preços, dava guarda-chuvada no cara da remarcação, arranjava quizumba no mercadinho, tudo porque o presidente mandou. Mas o pior é que, depois, tudo voltava a ser como antes, a triste sina de contar moedas e decidir o que levar e o que deixar nas compras… ah… outra coisa que só descobri muito tempo depois; iogurte, só quando já estava quase adulta.

Me equilibrei nesse desafio, de plano em plano, cresci, estudei, consegui fugir da sina de contar moedas e anos depois com meu trabalho e um plano econômico que parecia trazer de vez a tão sonhada estabilidade eu, enfim, podia entrar no supermercado – que mercadinho que nada -, e comprar artigos que a minha face menina nem desconfiava que existia. Foram anos com muito poder de compra, possibilitados pela faculdade, a pós-graduação que como uma fatia privilegiada desta população eu consegui fazer – ainda sou uma exceção na minha família também.

Mas agora surge um fenômeno que eu nunca vivenciei. Até o comparo com aqueles filmes loucos onde algo aterrorizante acomete a Terra, um vírus, e todos têm que ficar isolados, mas o filme nunca mostra o depois, ninguém no filme está preocupado com o depois e sim com o momento e ter sobrevivido a tudo aquilo, aqui na vida real vem o depois e como vamos nos preparar para o depois?

Estou novamente na montanha-russa, passamos da estabilidade para uma queda, muitos perderam empregos, outros seus negócios e nem estou aqui para falar nas perdas humanas – isso é incontestável.

Como disse antes, gosto de planejar, saber onde estou pisando e sempre fiz o controle dos meus gastos, tentando manter ainda uns investimentos. Se ouvisse a voz do passado seria só a poupança, mas o plano Collor conseguiu aterrorizar esse investimento, então, tento sempre diversificar e fugir de alguma forma das instabilidades em que os cenários econômicos nos colocam.

Todo esse passado me mostrou que a montanha-russa sempre vai existir e a única forma de frear as descidas é controlando os gastos, não fazendo compras sem antes pensar muito, olhar para o futuro, pensar como garantir uma vida sem muitas decidas e colocar meu cérebro para trabalhar a meu favor.

Você se prepara para as crises? Faz uma contabilidade mental na hora de adquirir algum bem? Pensa nos gastos extras que aquele bem pode acarretar? Ou você segue o rebanho? Faz compras por que algo está na moda, troca produtos ainda novos por outros só pelo fato de ter algo mais recente? Compra por impulso?

Meu histórico e meus estudos me levaram a entender que o controle dos meus gastos podem frear os impactos que eu possa sofrer com as instabilidades econômicas, podem garantir um futuro mais sereno, mas tudo isso só acontece com uma mudança de hábitos. Mudar não é fácil, na escola não me deram educação financeira, na verdade aprendemos que gastar é uma forma de se presentear, se adular por todo esforço que a vida nos obriga. Queremos no recompensar e isso é feito sem medir as consequências, não pensando no futuro.

As crises sempre existirão, mas se você mudar seus hábitos, lembrar sempre que investir parte do que ganha pode te garantir numa crise, não viverá numa montanha-russa.

Pequenas atitudes já podem fazer parte da mudança, eu utilizo algumas no meu dia a dia, como avisos para lembrar de registrar meus gastos, planilhas simples para controlar meu orçamento, tento sempre não comprar por impulso, avalio a necessidade real de aquisição de um bem e todos os gastos que ele pode acarretar. Essas são atitudes que podem nos favorecer. Sei que é muito mais chato fazer isso do que comprar algo para me recompensar mas, nesse caso, a recompensa é dormir todo dia sem atropelos de uma dívida que não foi paga ou necessidade real de uma compra que não tenho como fazer ou mesmo está endividada no cheque especial.

A tranquilidade financeira não tem preço, então? Vamos mudar nossos hábitos?

Patricia Vieira é contadora, professora, escritora, conteudista, designer instrucional, mãe, mulher, voluntária. Pós-graduada em Gestão Empresarial, Logística e Ensino à Distância, e Licenciada em História.