A mulher e a ponte. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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De segunda a sexta era sempre a mesma rotina; dona Antônia, uma senhora de 60 e poucos anos, saía de casa às 7 da manhã e esperava o ônibus no ponto perto de um pequeno mercado, no bairro onde morava. Levantava por volta das 5 horas, varria seu pequeno barraco; arrumava a marmita; tomava um rápido banho e seguia para a casa de seu Juvenal, no outro lado da cidade.

Com 98 anos, o ancião estava preso a uma cadeira de rodas devido a um AVC. O trabalho, durante a semana, era para complementar a aposentadoria e assim ter um pouquinho mais de conforto. Sábado era reservado para o culto na igreja e o domingo era dia de almoço e bate-papo com as amigas.

A mulher tinha a sorte de usar apenas uma condução que lhe economizava dinheiro e tempo, por isso havia uns 10 anos que o motorista, Damião, a conhecia.

Homem alegre e divertido, ele era muito educado e cumprimentava todas as pessoas que entravam no coletivo. Parecia até aqueles motoristas de cidade do interior que sabem quantos entram ou saem em cada parada na estrada. Gentileza e alegria no trabalho faziam tanta diferença nas viagens que, certa vez, ele recebeu uma placa de agradecimento da prefeitura pelo excelente trabalho realizado na linha.

Damião gostava de “brincar” com João Pedro, um menino que estudava na escola do bairro. Conversava muito com Analice, vendedora de salgados na porta da escola. Uma vez por semana, comprava salgado para os filhos. Com dona Antônia não era diferente; eles batiam muito papo durante o trajeto e até fizeram amizade. Às vezes, ela fazia um bolo e levava para o motorista comer no café da tarde com a família.

Tonha, como Damião gostava de chamá-la, era muito medrosa e, por várias vezes, quando o ônibus passava sobre a velha ponte que atravessava o córrego do bairro, dizia:

– Eu não gosto dessa ponte! Damião, já viu que lá embaixo os “ferro tão apareceno”?

Ao contrário, as crianças e adolescentes gritavam quase que juntos:

– Uhhhh, vai motor! Passa depressa, porque se vem outro carro, vai bater! “Chuta o balde aí, vai!”.

Damião, sempre cuidadoso, seguia no volante.

Um dia, parece que o motorista levantou meio “com a vó atrás do toco”, mas foi trabalhar como se estivesse tudo bem. Quando cada passageiro entrava, ele fazia piadas como de costume e todos riam dentro do ônibus, mas havia algo estranho ali. Dona Antônia entrou, sentou no mesmo banco, o segundo do lado da porta. E a ponte “chegou”. Ela, tremendo dos pés à cabeça, falou diferente:

– Olha Damião, toda vez que eu passo nessa ponte, eu fecho os olhos.

E o motorista virou-se rapidamente para ela, com uma risadinha maldosa, e disse:

– Eu também.

O silêncio pairou dentro do coletivo. Dona Antônia arregalou os olhos, deu sinal e ficou imóvel no banco. A porta abriu, ela nem se despediu e desceu um ponto depois da ponte.

Damião achou estranho, mas continuou o seu trajeto, rindo por dentro. Afinal, ele já estava meio “cansado” de ouvir todos os dias: “eu morro de medo dessa ponte”. “Ah, mas foi só uma brincadeira e Tonha levou a sério? Não pode ser…”.

No dia seguinte, ela não chegou ao ponto no mesmo horário. Na semana seguinte, também não; no outro mês, nada de notícias. Alguns meses depois, o motorista ficou sabendo que, por medo da ponte ruir, a mulher colocou a casa à venda e se mandou para o norte de Minas Gerais e nunca mais quis saber de andar de ônibus, muito menos passar em cima de ponte.

Moral da história: Jamais brinque com coisa séria. As pessoas podem acreditar, mesmo por inocência, e isso pode lhes transformar a vida para sempre.

Imagem: GruenAp por Pixabay [https://pixabay.com/pt/photos/metal-ponte-arquitetura-urbano-a%c3%a7o-2417664/].

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.