SOBRE SUSTENTABILIDADE - Sustentabilidade e desigualdade. Por Joema Carvalho.

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Desigualdade

A desigualdade está crescendo para mais de 70% da população global. O Relatório Social Mundial, publicado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, mostra que a desigualdade de rendimentos aumentou nos países mais desenvolvidos e em algumas nações de renda média. Pessoas que ocupam o 1% no topo da pirâmide de rendimentos são as mais beneficiadas. No outro extremo, as pessoas que ocupam os 40% mais baixos, ganham menos de 25% de toda a riqueza produzida anualmente, aumentando a desigualdade a cada ano. Esta problemática torna o crescimento econômico mais lento. Nas sociedades mais desiguais, com grandes disparidades em áreas como saúde e educação, as pessoas têm maior probabilidade de viver em pobreza durante várias gerações. O estudo considera que a mudança climática está tornando os países mais pobres do mundo ainda mais pobres e pode reverter o progresso feito na redução da desigualdade (1).

O IBGE, com base nos dados do Banco Mundial, mostrou que o Brasil é um dos primeiros países em desigualdade do mundo (2).

Vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS – relacionam-se direta e indiretamente a esta questão (2):

ODS  1: “Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”.
ODS  2: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”.
ODS  3: “Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades”.
ODS  4: “Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”.
ODS 10: Reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles.
ODS 11: Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

Espécies invasoras

Em função da falta de limite, o comportamento humano tornou-se típico de exóticas invasoras, como a tiririca, ratos, mosquitos, pinus, bactérias e vírus. Espécies que se adaptam, colonizam diferentes ambientes, e são mais competitivas que as nativas. A espécie humana é capaz de habitar altitudes elevadas, como regiões do Patagônia, Himalaia e Alpes; regiões abaixo do nível médio dos mares, como Holanda e Veneza. Ocorre em desertos áridos e congelados e em locais chuvosos. Sobrevive em megalópoles como Nova Iorque e Tóquio e em locais inóspitos, como nas florestas ombrófilas da Amazônia e da África. O comum na natureza são espécies típicas de determinadas regiões e ecossistemas.

São consumidos por uma única espécie, 75% dos recursos naturais, dentre os aproximados 8,7 milhões existentes. Praticamente, tudo o que dependemos, provém da natureza. O uso destes recursos deveria ser adequado, dentro de padrões de sustentabilidade, visando a sua repartição equitativa dentro da nossa espécie, com respeito as demais.

Visão diferente

Leonardo Boff considera que a visão sustentável é a sociedade ou planeta que produz o suficiente para si e para os seres dos ecossistemas onde ela se situa; que toma da natureza somente o que ela pode repor; que mostra um sentido de solidariedade geracional, ao preservar para as sociedades futuras os recursos naturais de que elas precisarão. Na prática, a sociedade deve mostrar-se capaz de assumir novos hábitos e de projetar um tipo de desenvolvimento que cultive o cuidado com os equilíbrios ecológicos e funcione dentro dos limites impostos pela natureza. Significa um novo enfoque, visando o consumo responsavelmente (3).

Neste sentido, ethos – em grego -, significa a toca do animal ou casa humana, referindo-se à porção de mundo que reservamos para organizar, cuidar e fazer nosso habitat. Completa que temos que reconstruir esta morada comum onde todos caibam e tenham “sustentabilidade para alimentar um novo sonho civilizacional”. Este ethos ganhará corpo em morais concretas (valores, atitudes e comportamentos práticos) consoante as várias tradições culturais e espirituais, tendo como objetivo “salvaguardar o planeta e assegurar as condições de desenvolvimento e de coevolução do ser humano rumo a formas cada vez mais coletivas, mais interiorizadas e espiritualizadas de realização da essência humana” (3).

Ludwig von Bertalanffy, biólogo austríaco, integrante do Círculo de Viena, considerou a visão dos fenômenos biológicos sob o aspecto do “todo” e não do “particular”. O seu olhar para os organismos vivos direcionava-se às relações entre as partes que se interconectam e interagem, percebendo sua totalidade. Desenvolveu a Teoria Geral dos Sistemas, propondo uma perspectiva global, de forma a envolver e compreender todas as suas interdependências. Cada um dos elementos, ao serem reunidos para constituir uma unidade funcional maior, desenvolvem qualidades que não se encontram em seus componentes isolados. Esta visão sistêmica influenciou diversos campos do conhecimento, tais como a Sociologia, História, Educação e Gestão (4).

Limite

A desigualdade não se limita apenas à má distribuição de renda entre os humanos, mas a um conjunto de relações que focam em uma única espécie com direitos irrestritos, o que desencadeia um planeta desarmônico e insustentável. A visão sistêmica considera o global. O conjunto que se encontra conectado por elos de dependência. Para um ambiente melhor é necessário limite que reflete na sustentabilidade e na divisão equitativa de recursos entre os da nossa espécie, em respeito as demais. Conforme Leonardo Boff considerou, envolve mudanças de tradições culturais e espirituais, onde não somos mais o centro, mas parte de relações intra e interespecíficas, onde considera-se aspectos do “todo”, como dito por Ludwig von Bertalanffy, visões que nortearam os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Referências

(1) ONU. Desigualdade sobe para mais de 70% da população global, mas pode ser combatida. Disponível em – https://news.un.org/pt/story/2020/01/1701331. Acesso: 27/01/2021.
(2) EXAME. Brasil é nono país mais desigual do mundo, diz IBGE. Disponível em – https://exame.com/economia/brasil-e-nono-pais-mais-desigual-do-mundo-diz-ibge/. Acesso: 25/01/2021.
(3) BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Editora Vozes.
(4) MOTTA, F. C. P. A teoria geral dos sistemas na teoria das organizações. Rev. Adm. Emp. Rio de Janeiro, 11(1): 17-33, 1971.