Segunda onda...

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History-telling.

Ben Bagdikian, jornalista que fez história na Redação do Washington Post, produziu um livro que muito impressionou a todos que então vivíamos o mundo da Comunicação; “O monopólio da mídia”. Estávamos em 1983 [eu cursava o mestrado da ECO-UFRJ] e o controle da informação jornalística concentrado em poucas mãos já era uma realidade. No mundo e também no Brasil. Em 1987, a obra ganhou uma segunda edição e o “monopólio” [na verdade um oligopólio] já ainda mais se concentrara. [A internet comercial não existia].

O número varia, mas é sempre diminuto quando se responde à pergunta “Quantas famílias controlam a mídia?”. Um aspecto que Bagdikian iluminou com seu livro foi o fato de que os conglomerados de Comunicação – que eram grandes, sim – estavam sendo “adquiridos” por conglomerados outros, muito maiores, tais como os da mineração, da energia e da telefonia (apesar das barreiras regulatórias – que, infelizmente, só fazem desmanchar, ano após ano, ao redor do mundo).

De lá para cá, muitos fatores modificaram completamente o universo da comunicação de massa [ao jargão “meios de comunicação de massa”, os frankfurtianos preferiam “indústria cultural”, mas esta é outra história]. Talvez o mais relevante deles seja o surgimento da internet comercial circa 1995.

Naquele ano, o meio Rádio e o meio Cinema já eram centenários, e a TV uma cinquentona. E não é que a WWW – no vigor de seus 25 anos – veio bagunçar tudo?

Esta é a história resumida da primeira onda da era da Comunicação. Seu dístico é a expressão cunhada por Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”.

A primeira década (1995-2004).

Nesse período a mídia foi se hibridizando, com “edições digitais”. A TV na web, webTV; o Rádio na web, webRádio; jornais e revistas passaram também a ter versões digitais com o mesmo conteúdo das edições impressas. Surgiram portais web “puros”, tais como Aol, Yahoo!, Uol e Terra.

A segunda década (2005-2014).

Alguns veículos deixaram para trás os suportes não-digitais; a revista Bravo e o Jornal do Brasil são nossos exemplos marcantes desse período. Outros evoluíram mais e passaram a oferecer “produtos” digitais diferenciados, ou seja, jornais como O Globo e a Folha de S. Paulo, e revistas como a Veja, passaram a ter edições digitais que não mais eram “versões” idênticas das edições impressas. Tais veículos “puros” digitais ganharam a vida própria que têm hoje. As notícias, além de data, passaram a ter hora, minuto e segundo.

Hoje (pós-2015). A fonte é a mensagem.

Aí, então, chegaram os xodós atuais; as redes sociais. As pessoas, físicas e jurídicas, aderiram com força – muito por conta da gratuidade (hoje, a “cultura de gratuidade” é um tanto nefasta na opinião deste escriba), e os anunciantes ficaram [e ainda estão] perdidos. Tiros para todo lado vêm sendo tentados. Ninguém tem a resposta exata para a pergunta “Algo é viral ou se torna viral?”. Um tal de “marketing digital” (que, em minha visão, é hoje, ainda, uma disciplina em construção) chegou para abalar. E abalou. A chamada “mídia programática” (sic) – inteiramente baseada no aspecto randômico da web – ainda é desafio para media planners e programadores de algoritmos. Isto sem falar no fenômeno Sleeping Giants – de “chantagem digital” – que apareceu para complicar mais ainda a vida da propaganda.

Eu, mídia.

“Produtores de conteúdo” – das pessoas jurídicas gigantes ao cidadão comum que quer vender seu carro usado ou “emplacar” seu invento genial via YouTube – todos têm texto, voz, imagem e “mídia” próprias para difundir-se. [Importante ressaltar que, nas redes sociais, o termo “próprias” é só força de expressão. Trata-se, sempre, de “casas alugadas”, algo muito diferente de um domínio (aí, sim, próprio) na internet – como o são um aplicativo, um website ou um portal.

Só que jóias da coroa da indústria criativa, as redes sociais, cresceram como veículos – sempre sem regulação – como players-meios de comunicação [a ponto de ter surgido o termo “mídia social” – uma imperfeita denominação que prefiro não utilizar], como locus de lazer e entretenimento [o maior segmento da indústria criativa na web é a dos games], e tais “veículos” se tornaram gigantes – também estes vítimas das sempre presentes fusões e aquisições do mundo dos negócios –, e ideias bacanas como as do YouTube (broadcast yourself) e Instagram foram adquiridas por Google (Alphabet) e Facebook, respectivamente. O aplicativo de troca de mensagens WhatsApp [que deveria ter sido colhido por uma regulação que protegesse as empresas do setor de telecomunicações – outra história] também foi engolido pelo Facebook. O escândalo da Cambridge Analytica bem traduz o problema regulatório que ainda samba diante de nós – mas esta também é uma outra história.

O triunfo de Gramsci – ou quando as próprias pessoas tornam-se algozes de sua própria liberdade.

Na ditadura do politicamente correto, é como se assinássemos nosso próprio mandado de prisão. E a ideia é punir – mais que a si mesmo – toda a sua ascendência, responsável direta por sua existência “errada”.

Curioso que numa das leis – não a dos homens, mas a dos autômatos, na antevisão de Isaac Asimov – o organismo cibernético não pode destruir a si mesmo. Já o indivíduo humano, com seu livre-arbítrio – cantado em prosa e verso como virtude – está autorizado a destruir-se em nome de uma moral global.

Os estados-nação estabeleceram-se há séculos também com base na livre iniciativa de seus fundadores – essência da expressão [cada vez mais apagada] de “autodeterminação dos povos”. Cadê?

Triste sina do país da bota – onde floresceu a Roma Antiga, de belezas e vícios, onde se oficializou o cristianismo há 1.635 anos, donde saiu a nossa língua portuguesa, “inculta e bela” (como escreveu Olavo Bilac) – ter gerado Antonio Gramsci, de legado bem mais nefasto e perene que o da dupla de “parsas” totalitários, Karl Marx e Adolf Hitler.

Perdoa-me por te traíres.

A simples recusa dos parlamentares norte-americanos em analisar os indícios de fraude nas eleições presidenciais de 2020 – que são muitos – frustrou o mundo livre.

Vale a pena agir mal. Fraudar compensa.

As cortes superiores (estaduais e federal) recusaram-se sequer a ouvir alegações de quem se sentiu traído. Não consideraram o testemunho de cidadãos que, sob risco de serem presos se cometido perjúrio, atestaram que houve fraudes às quais testemunharam. Um escândalo.

Eleitores mortos votando; votos de mais eleitores que moradores em vários condados; eleitores registrando-se para votar fora de seus estados de domicílio; cédulas eleitorais recebidas em casa quando não solicitadas – como define a lei; e o uso maciço de votação pelo correio (escancarado em alguns estados sob a égide da pandemia), são falhas muito graves no sistema que simbolizava a plena democracia dos Estados Unidos.

O Congresso deliberadamente não querer perscrutar porque sete estados chegaram a enviar duas listas de eleitores, aceitando as encaminhadas por governadores e secretários de estado ao invés das encaminhadas pelo Poder Legislativo estadual – como estabelece a Constituição -, foi, também, algo grave demais.

Triste começo de um novo ciclo.

Tudo isso é mau exemplo e mau presságio para um mundo que, aliás, sempre aceitou – de modo canhestro – irregularidades eleitorais. Em países da Federação Russa, na África do Sul, na Turquia, na Nicarágua, na Bolívia e na Venezuela.

– E do Brasil, o que será?

“A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”. Winston Churchill. Talvez um “era” deva passar a substituir o “é” na famosa e enigmática frase. Em tempos orwellianos como os que hoje vivemos, reescrever a história deve ser normal.

A não regulação e a cultura de gratuidade geraram monstros piores que a mídia oligopolística da primeira onda.

Esta é a história resumida da segunda onda da era da Comunicação. Seu dístico é a expressão cunhada por Jaron Lanier: “delete seus perfis das redes sociais já”.