Quem ousa ser jornalista? Por Amanda Hamermüller.

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A cada ano nós, jornalistas, temos sido surpreendidos com o abrandamento de uma realidade que já esperávamos, apesar de ainda termos uma parcela mínima de esperança em futuro digno para a nossa profissão. Este futuro ainda é distante. O que presenciamos, atualmente, é um cenário onde profissionais se graduam para NÃO serem jornalistas. Em um primeiro momento, pode não fazer sentido, mas quando paramos para refletir sobre o que o mercado nos oferece, percebemos que, na verdade, foi neste abismo que nos atiramos.

Pouco antes do término da minha graduação, comecei a ler e ouvir com mais frequência histórias e relatos de jornalistas motoristas de aplicativo, jornalistas vendedores de doces na sinaleira, jornalistas auxiliares administrativos, jornalistas recepcionistas, jornalistas vendedores, a lista é imensurável. Nada contra essas profissões, que são dignas de muita valorização e respeito, mas temos que concordar que o jornalista não chegou até elas por ser jornalista. Não passamos por isso por falta de experiência ou por um currículo insuficiente. Estamos submetidos a uma profissão cuja lógica de mercado abraça o ápice do capitalismo: falta de oportunidades e desigualdade.

Este é um cenário. Agora, olhemos para dentro da caixinha limitada que segue fazendo jornalismo. Vagas com salários menores que a metade do piso estabelecido para a categoria, sobrecarga de tarefas, desrespeito e constante ameaça à liberdade de expressão. Não temos para onde fugir. Onde vamos, há um contexto de sofrimento.

Mas, então, insistimos nos nossos ideais, princípios e valores. E nos deparamos com uma pandemia. Um momento histórico e perigoso. Estamos na linha de frente, como um serviço essencial que precisa garantir a difusão de informações à população, além de, é claro, cumprir o seu papel constitucional de acompanhar e publicitar os atos praticados pelo governo.

Por um lado, é uma oportunidade única, de produzir hard news de verdade. Por outro, um compromisso possivelmente fatal. De acordo com um levantamento preliminar divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), até o momento, cinco profissionais foram vitimados pela Covid-19, sendo dois no Rio de Janeiro, um no Maranhão, um em São Paulo e um no Ceará. Assim como profissionais da saúde e de outros serviços da linha de frente, na produção da informação e orientação à sociedade, os relatos de contaminação de jornalistas já são muitos no país. Por isso, a entidade iniciou uma pesquisa, buscando monitorar o real quadro de contaminação e, desta forma, readequar a ação sindical em favor dos profissionais.

A nossa rotina mudou, a nossa vida mudou. Precisamos estar constantemente atentos a cada atualização, a cada nova informação, a cada ação de combate, em um fluxo absurdamente maior. Se antes já estávamos sobrecarregados, hoje beiramos à exaustão. E como reviravoltas positivas ultimamente só vemos em romances, é evidente que o cenário poderia piorar. Uma série de profissionais da área de jornalismo demitidos no meio de uma pandemia, graças à insustentabilidade do mercado jornalístico, que segue a lógica empresarial e ‘não lucra o suficiente’ para manter seus profissionais – coloco entre aspas para destacar, primeiro, que não deveria ser uma profissão que visa lucro; segundo, que sim, gera lucro, mas para grupos específicos e nós, nitidamente, não fazemos parte dele. Onde buscar um novo emprego durante a quarentena? E então, retornamos ao primeiro cenário deste artigo: jornalistas que precisam sair da área para sobreviver.
Estamos cansados. Mas precisamos mostrar para o mundo que por trás do ‘glamour’ das câmeras, dos microfones, dos jornais, dos portais, há uma realidade agonizante, que precisa ser objeto de reflexão, ou então falhamos como sociedade.
Imagem: Reporter-New-Africa-shutterstock.
Amanda Hamermüller é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com experiência em jornalismo impresso (revista), rádio, assessoria de imprensa, design gráfico e mídias digitais.