Quando calar não é o melhor remédio. Por Júlia Fernandes.

Share Button

Na semana em que comemoramos o ‘Dia Mundial da Liberdade de Imprensa’, celebrado no dia 3 de maio, os brasileiros presenciaram ofensas aos profissionais da área. A afronta maior, proferida no dia 5 de maio pelo presidente da república deste país, ocorreu em Brasília (DF) aos jornalistas posicionados à espera de uma resposta sobre as mudanças na Polícia Federal. E a frase foi ‘Cala a boca. Não te perguntei nada’.

A frase ecoou nos quatro cantos do mundo. Jornalistas não se calaram e ‘foram para cima’ da declaração mal sucedida com a arma que têm em comum: a voz. Ao contrário do Rei Juan Carlos da Espanha que disse ‘Por qué no te callas?’ ao presidente Hugo Chavez, que se posicionava com intransigência durante a cúpula Ibero-americana, no Chile, a palavra de ordem veio da maneira inversa, de forma inoportuna.

Os profissionais de comunicação comumente são execrados, desvalorizados. No mercado de trabalho nacional há uma discrepância de salários e nomes de cargos espantosos. A polêmica discussão da não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo foi até parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2009, quando me formei, os discursos da solenidade da colação de grau traziam o sentimento de todos sobre o tema e, entre nós, lembrávamos as frases de Gilmar Mendes em sua decisão.

Até que em 2020 uma pandemia assola o mundo e o medo do desconhecido é aplacado (em parte) por esses profissionais. Seja nos veículos tradicionais, trazendo os números diários da doença, as boas notícias em meio ao caos e tirando ‘leite de pedra’ para trazer pautas frescas contrastando ao que já é ‘batido’, seja nas diversas lives instrutivas e até por dentro das empresas, na medida em que trabalhar em casa é uma mudança interna das companhias e, ao mesmo tempo, informar aos funcionários, extremamente essenciais, que se deve sair de casa todos os dias, não é tarefa fácil, é preciso agir em diferentes fluxos.

Atuo na comunicação porque gosto de gente, de prosa, de história, de empatia e do trabalho social resultante de tudo isso. Quando fui estagiária na Embrapa, há mais de dez anos, ouvi de um colaborador do campo experimental da empresa em uma festa corporativa: ‘Tirei uma foto do milho para mostrar para a moça do jornal’. A moça do jornal interno era eu. Ver a satisfação dele em contribuir me fez brilhar os olhos e aí eu não parei mais.

É preciso valorizar e reconhecer o diferencial desses profissionais do dia a dia. Por isso, queria agradecer a alguns ícones nacionais por terem me inspirado no começo da caminhada e atualmente me fazem crer na resiliência da profissão. À Sônia Bridi, por sua inteligência, textos incríveis, qualidade narrativa e histórias bem contadas. A José Hamilton Ribeiro, minha admiração por todo o seu rico histórico profissional e por tanta humildade ao lidar com o campo e o produtor. À Genoveva Ruisdias, por me apresentar algumas histórias do jornalismo belo-horizontino. Leila Ferreira, Cris Guerra, Jorge Duarte, Astrid Fontenelle, Ana Dalla Pria, Lúcia Schmidt, Eduardo Barão, Luís Nachbin, os eternos Ricardo Boechat e Daniel Piza. Ao autor do podcast ‘Vida de jornalista’, Rodrigo Alves. Poderia ficar aqui dizendo nomes e a lista não acabaria.

Olhe ao redor e veja que há muita gente interessante oferecendo o que há de melhor em comunicação para você. Não os cale, valorize-os.

Júlia Fernandes é formada em Comunicação Social pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), tem MBA em Marketing e Comunicação e especialização em Gestão Estratégica da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). A autora tem experiência profissional em âmbito público e privado, nos setores de comunicação institucional e marketing.