O triste limbo da PJ. Por Bárbara Villa.

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No mercado desde 2003, ainda aspirante na nobre carreira de jornalista, experimentei a precarização das relações de trabalho mesmo antes dos “pacotes de maldades” que terminaram de demolir os direitos trabalhistas e instrumentos de seguridade social a partir de 2016.

Estágios não-remunerados eram comuns, tanto em jornalismo impresso quanto em rádio e TV. Fui conseguir estágio remunerado no último período da faculdade, em uma instituição pública federal. Por conta disso, fiz uma segunda habilitação com a esperança de não conseguir terminar por ter conseguido um emprego.

Como a desejada contratação nunca aconteceu, eu saí da UFF com duas habilitações dentro da Comunicação Social, alguma demanda como tradutora freelancer, mas nenhuma habilidade em “cultura corporativa”.

Depois de fazer as contas (hoje defasadas) comecei a contribuir para o INSS na expectativa de ter uma aposentadoria e só fui considerar me formalizar como MEI cinco anos depois, porque a alíquota era menor e eu estava grávida. Eu não me sentia empreendedora, só queria trabalhar. Graças ao modelo MEI eu pude formalizar-me como uma “nunca-empregada”.

A minha dinâmica profissional se alterou pouco com a formalização: home office, atendimento remoto, rendimentos instáveis e muitas vezes inexistentes eram (são) parte da minha rotina profissional. Mas tem uma coisa com a qual eu nunca me acostumei: ausência de feedback.

Transparência Ativa

Como MEI, eu passei a ter mais acesso a clientes-empresa, o que eu ainda não sei se é bom, principalmente depois que passou a ser permitida a terceirização de atividades-fim (vocês também acham isso um absurdo?). É complicado negociar preços, prazos; tudo já vem pronto e o acerto é na base do “pegar ou largar”. Eu quase sempre pego.

Até aí, apesar de não ser um acordo exatamente equitativo, há transparência. O escopo é esse, o orçamento é esse, o prazo é tal. A gente faz, se precisar, corrige, se tudo correr bem, recebe e pronto. Será?

Como profissional, feedback é um alimento para mim. Eu preciso saber o que vai ser feito do meu trabalho, como foi a impressão do cliente, do usuário/consumidor/leitor final, e, muito importante, receber uma perspectiva do volume e constância das futuras demandas. Tive a ilusão de que trabalhando com empresas o retorno seria mais constante e as demandas mais regulares. Assim, mesmo sem a CLT, eu poderia ter um “certo” no final do mês.

Muitas vezes eu recebi uma proposta com orçamento bem modesto, com a justificativa de que aquela seria uma colaboração de longo prazo. Mas não foi, foi pontual, e fica claro que isso era sabido desde o início.

Não foi porque o trabalho não foi satisfatório (e se isso aconteceu, eu gostaria de saber). Não foi porque “houve uma mudança de planos”. Foi porque isso era tudo, e você não é da empresa, então ninguém te deve qualquer satisfação.

O que eu estou tentando sugerir é que as empresas que contratam PJs tomem a iniciativa cortês de não sonegar informações sobre o projeto ao colaborador, permitindo que ele se organize e possa estabelecer suas próprias prioridades e definir seu grau de comprometimento em cima das informações disponíveis.

“O escopo é esse, o orçamento é esse, o prazo é tal” poderia ser seguido por: o controle de qualidade vai te oferecer um feedback a cada tanto tempo, a previsão inicial é de “x” unidades/meses/etc. Informar bem o seu colaborador vai ajudá-lo a oferecer um serviço mais adequado à sua empresa.

Dentro do O.C.I., a causa da Transparência Ativa foi aquela com que eu primeiro me identifiquei. As organizações precisam tomar a iniciativa de informar. Transparência não é só para o conselho, os clientes ou o público. Prestadores de serviço merecem Transparência Ativa também.

Nós, PJs, trabalhamos noites adentro, sábados, domingos e feriados, mas nem por isso as empresas devem enviar direct pelo LinkedIn às nove da noite. Sim, nós participamos de treinamentos para conhecer todos os pacotes de software em nuvem e nos adaptamos às variadas plataformas de workflow, mas gostaríamos de saber com uma certa antecedência quando nossos serviços não serão mais necessários. As empresas precisam adquirir o hábito de “dar uma posição” não só ao cliente, mas também ao colaborador terceirizado.

O processo de precarização já nos retira vários direitos, mas não precisa nos fazer sentir tão descartáveis.

Bárbara Villa é jornalista (UFF), tradutora (UGF) e pedagoga (UBC).