NOVA ARTICULISTA: 'Nós, os Gremlins'. Por Kátya Desessards.

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A cada desastre de risco anunciado no Brasil, saem doutos de todas as especialidades para apontar culpados. Governos, imprensa, entidades e sociedade ficam por determinado tempo na mais eloquente dialética semântica. Coisa mais linda de se ouvir, cada defesa de tese, debates e a moda dos últimos tempos… coberturas críticas dos veículos de imprensa. Um e outro jornalista fazem – efetivamente – críticas ponderadas e lógicas… Eu – mesmo não concordando as vezes – gostava de ouvir as ponderações do jornalista Ricardo Boechat. Mas a grande maioria é só de retórica sensacionalista.

A mais recente; Brumadinho… mas já foram Mariana, Niterói, Kiss, Bateau Mouche, Ciclovia Tim Maia etc. etc. etc. Ufa! O que estas ‘tragédias’ e tantas outras pelo país a fora tem em comum? Pense. Reflita com amor no coração…

Três palavras centrais saltam rasgando meu peito… indulgência, relativização e impunidade. Três palavras que explicam nossa essência sociocultural.

Somos indulgentes com os atos criminosos. Somos ‘experts’ na relativização dos fatos criminosos. Nossa justiça não pune, pois tudo é visto como um ‘problema social’ e não de caráter. Somos cheios de razão, mas efetivamente tudo vai sendo esquecido na nossa memória de pouco alcance.

Uma premissa do jornalismo de respeito e de pensadores coerentes é que fato é fato. Quando argumentos buscam mudar cenários, alterar gravidades e omitir verdades desnudadas em imagens – ou seja – tem filme, tem fotos, tem testemunha, tem dinheiro na cueca, tem batom… etc. etc. etc… Mas a audácia da dúvida do rito processual brasileiro infinita é como um buraco negro sem fim… e isto se chama hipocrisia institucional, não justiça. Ponto. ‘Ah… mas é a lei’… Lei também pode ser burra, assim como quem a criou.

Se fôssemos estudar tudo que, nos últimos 20 anos, aconteceu de ‘tragédia’ no Brasil pelos aspectos antropológico, psicológico, político e ético-social para entender o modelo mental da sociedade brasileira… chegaríamos à triste revelação de que somos iguais como espelho aos países com pior IDH, com pior respeito ao direito individual, de pior respeito do poder público para com a sociedade. E muitos mais etc. etc. etc.

Somos cheios de qualificativos bons para nos exaltar: guerreiros, hospitaleiros, fraternos, cooperativos, alegres etc. etc. etc. Até somos tudo isso, mas no fundo somos pequenos ‘Gremlins’ (sim, aqueles do filme de 1984)… que, acionado o ‘gatilho’, tornamo-nos seres muito ruins. Este tipo de atitude social é o que nos define enquanto sociedade… é o lado obscuro da nossa ‘soft skill’.

Uma sociedade que se indigna com tragédias… mas no seu dia a dia acha ‘normal’ e se dá o direito de cometer pequenos ‘delitos’ (já) institucionalizados na raiz da ‘cultura social’… relativizando a gravidade dos fatos, sendo indulgente com pessoas próximas (com os outros não… daí ‘o pau tem que comer’), e sempre achando que punir severamente não é a melhor forma de ‘ressocializar’ (mesmo verbalizando o contrário)… O que pensar de uma sociedade assim?

O que você pensaria? Já se viu agindo em algum momento assim? Mas olhe bem no fundo dos seus olhos… você vai descobrir que já cometeu estes ‘pequenos’ delitos e sempre achou… ‘normal’.

Já ouvi pérolas como… ‘Ah… que chata, fica esperando a sinaleira (semáforo) abrir para atravessar a rua…’. ‘Só vou estacionar um pouquinho aqui…’ (e era numa vaga para idoso ou deficiente). É… se olharmos pelo lado da falta de consciência e ética… isso pode ser ‘visto’ mesmo como um tipo de ‘deficiência’… mental… É só o que me ocorre como explicação. Tipo… se liga… não força a barra… se olha no espelho.

Infelizmente, essa é a realidade de cidadãos pagadores de seus impostos, cheios de direitos e nenhum dever, cheios de verdades e nenhuma consciência social, cheios de todos os argumentos para apontar o erro do outro.

De um modo geral, somos uma sociedade bem hipócrita, formamos nossos cidadãos, profissionais, filhos etc… sem senso de comunidade, de colaboração, de pensar antes de agir… Um ato pode prejudicar pessoas… mas mesmo cientes disso… fazemos assim mesmo. E não temos nem vergonha de sermos assim. É normal (já sem aspas).

E o argumento de que mais ‘gosto’: ‘É assim mesmo. As coisas são assim, sempre foram assim’. Oi!… Assim, o quê… tonga da mironga!

Quando viajamos para outros países com senso social elevado… somos vistos como mal-educados, nada confiáveis e de baixo senso ético… Por quê? Pense novamente em viagens que fez… você vai lembrar de algum ato impróprio que fez, mesmo bem pequenino… É isso, somos assim…um bando que – mesmo com as mais altas qualificações intelectuais e profissionais – mesmo assim – somos como… ‘Gremlins’ adormecidos… integrantes desse coletivo social que se chama Brasil.

Mas como tudo na vida, sempre temos o poder individual e coletivo de mudar, de evoluir, de fazermos diferente e sermos – efetivamente – diferentes. Podemos ser servidores públicos que – realmente – servem a sociedade e não se colocam para ser servidos. Podemos ser negociadores que colocam no negócio o valor de ganha-ganha. Podemos ser diariamente fraternos com o próximo, acreditando que todos os nossos atos têm uma consequência para outra pessoa ou para um coletivo. Podemos ter menos perda de memória quando na eminência de tragédias anunciadas. Podemos ter mais respeito pela história, cultura, educação, convívio social (sim… porque se você ainda não sabe… não vive numa ilha, sozinho)… Existe a tua liberdade, a minha e por aí vai…

Enfim… podemos nos esforçar para sermos um pouco melhores enquanto pessoas, grupo social e país. Ou podemos assistir novos Brumadinhos, Marianas, Niteróis, Kisses, Bateau Mouches, Ciclovias Tim Maia etc. etc. etc… voltarem a acontecer, quando faremos exatamente as mesmas coisas, diremos as mesmas indignações, e seremos os mesmos cidadãos – acima de qualquer suspeita… de vida ilibada e auto-aclamados honestos… ou seja… bons brasileiros como sempre… indulgentes, relativistas e condescendentes com a impunidade. O famoso tipo…’bonitinho, mas ordinário’…

É muito fácil falar de positivismo, de coisas boas, de posturas do bem.

O desafio é ser realista e – mesmo assim – continuar a acreditar que há esperança. Ver o copo sempre meio cheio. E – realmente – educar seus filhos para não incomodarem no restaurante correndo entre as mesas… isso não é engraçado. É ai que tudo isso começa. Se liga… jacaré! Ai se um filho meu faz isso…

Kátya Desessards é jornalista e presta menthoring em Inteligência Colaborativa e Comunicação.