A mídia independente vai salvar o jornalismo? Por Heloísa dos Santos.

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Durante os protestos de junho e julho de 2013 ouvia-se frequentemente gritos contra emissoras de televisão e imprensa, que eram justificados por uma desconfiança generalizada, escancarada na cobertura que incriminava participantes dos protestos inicialmente e, posteriormente, sensação de que havia uma distorção entre o que acontecia nas ruas e o que passava na TV. Houve repórteres agredidos, tanto por manifestantes quanto pela polícia. E pedidos de boicote.

Vamos para 2018: a desconfiança com a imprensa é tamanha que mesmo agências de checagens de fatos são questionadas. A linguagem jornalística em textos opinativos ou mentirosos é bem usada para confundir quem acredita e provar aos desconfiados que eles têm razão.

Além disso, a crise financeira, mais uma vez, chega às grandes empresas de mídia, com demissões em massa e organizações com décadas de mercado fechando as portas. Mas, mesmo assim, iniciativas de jornalismo independente seguem crescendo, muitas vezes com apoio do próprio público e de doações. O que ainda salva esse jornalismo?

Qual o problema das mídias comerciais?

O modelo financeiro que torna a imprensa comercial tão excelente em seus produtos e alavanca sua visibilidade é o mesmo que limita a atividade de seus jornalistas. Sendo pagos por propaganda e vendas de produtos adjacentes, os donos e funcionários vivem em um jogo de agrados e desagrados com seus financiadores. Apesar de ter respaldo legal em certo nível e das mais diversas cláusulas contratuais, a ameaça de perder receita paira.

A autocensura se torna mais forte nesses meios, e soma-se à decadência da credibilidade da imprensa e às dificuldades do mercado de trabalho. É uma combinação desesperançosa, e que vem se repetindo em ciclos ao longo do tempo.

Em outro aspecto, as rotinas de redação nas mídias comerciais maiores podem ser consideradas engessadas, especialmente agora, passada a transição digital, quando modelos de empresas e trabalho se modificam para aproveitar ao máximo os recursos disponíveis, ou criar outros.

Novos modelos de jornalismo

A mídia independente não apenas rompe com a lógica de financiamento comercial dos meios de comunicação, ela também tem mais liberdade de experimentação, podendo inovar em formatos e modelos de conteúdo e formas de trabalho. A prática de abrir os direitos autorais para a republicação, utilizada pelo The Intercept Brasil, pela Revista AzMina e Agência Pública, por exemplo, facilitam a circulação das informações e ajudam a aumentar a visibilidade das iniciativas.

A colaboração, como já falei aqui, também ocorre na imprensa independente como forma de otimizar os custos de produção e também atingir a mais públicos. Por sua fragilidade econômica e propostas que algumas vezes desafiam o poder político e econômico, as rotinas de checagem e de colaboração passam a ser muito mais importantes do que em uma grande redação.

O cuidado com a informação torna o ritmo de trabalho mais lento, mas mais específico. A alta segmentação de conteúdo também é uma prática que se adequa bem a algumas dinâmicas do jornalismo online que têm-se observado e ao próprio jornalismo independente, que tem como proposta visceral a cobertura de temas e aspectos de fatos que não recebem tanta atenção da mídia comercial.

A dificuldade do financiamento

As constantes demissões em massa nas empresas de mídia colocam em dúvida qual o futuro do modelo de negócios para os produtores de conteúdo. A lógica comercial atual não é sustentável, algo que se escuta nas escolas de jornalismo há décadas. Apesar de parecer utópico, o jornalismo sem fins lucrativos, sustentado pela sociedade (organizações, doações, assinaturas), é um modelo que tem um certo potencial.

A história do jornalismo independente, porém, é longa, e não seria a primeira (nem última) vez que surgem e morrem iniciativas do tipo. O fator que pode mudar esse jogo é justamente a internet. O modelo de startups digitais já domina boa parte dos negócios e parece um bom meio para que novas empresas de mídia floresçam.

Fora do eixo São Paulo – Rio o financiamento é um desafio ainda maior. Os projetos desenvolvidos são frequentemente voluntários ou pagos com recursos dos próprios jornalistas. No entanto, há iniciativas que são bem sucedidas, como o Portal Catarinas, que produz jornalismo feminista em Santa Catarina e cobre, além de temas generalistas, questões locais.

Por que é tão atraente a ideia de que a mídia independente salvará o jornalismo?

A ideia de uma empresa de mídia sem fins lucrativos – compromissada com o serviço público e que pague as contas de seus funcionários – parece bem utópica e um pouco sonhadora, fruto de uma geração millennial (na qual me incluo) educada para casar paixões e trabalho, mas que vê seus empregos se precarizar e escaparem entre seus dedos. Por outro lado, as iniciativas do tipo que se tem hoje são fruto desse mesmo cenário, em que profissionais sentem a necessidade de tocar seus próprios projetos, já que o mercado de trabalho parece travado por dentro e por fora.

A ideia de que o jornalismo precisa ser ‘salvo’ por alguma fórmula insuspeita é compartilhada há tempos entre estudantes e profissionais, não importa o quão desiludidos se encontrem. As dinâmicas do mercado de trabalho e das rotinas profissionais, cada dia menos claras, porém, me leva à máxima repetida por todos os bons jornalistas: ‘só o jornalismo vai salvar o jornalismo’.

Se é que há necessidade de salvação, se é que há fórmula, sabemos que não há mágica, só necessidade de inovação e teimosia em apurar o máximo possível. E nisso, o jornalismo independente tem, sim, algumas vantagens.

Para conhecer mais o jornalismo independente:

Agência Pública: O mapa do jornalismo independente

IJNet: Previsões para a mídia digital independente em 2018

Knight Center: Jornalismo independente na internet depende cada vez mais de colaboração e investigação

Formas de fazer jornalismo investigativo: grande mídia x mídia independente

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