Gabriel García Márquez, o relato de um náufrago e o jornalismo. Por Karina Sgarbi.

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Custou cinco mil pesos colombianos uma edição em espanhol datada de 1980 do livro ‘Relato de um náufrago’, adquirida em Cartagena num sebo do Parque del Centenario, em 2016. São 88 páginas amareladas  —  algumas amassadas  —  que contam uma história que só poderia ter se passado aqui, na América Latina, terra em que o absurdo é apenas parte do cotidiano e onde, mesmo após mais de cinco séculos, ainda perdura nossa condição de colônia. Claro, isso também só poderia virar notícia por meio das mãos do mestre Gabriel García Márquez (aqui, doravante chamado apenas de Gabo). Antes de ser um livro ou mesmo um souvenir, a escrita dele é também uma lição que não cabe preço ao que se chama jornalismo  —  sim, este duro ofício que nos mata de amor da mesma forma que nos deixa sem esperanças. E vice-versa, todos os dias.

A história da história

Acontece que em 28 de fevereiro de 1955, no mar do Caribe, oito tripulantes do ARC Caldas, um navio da Marinha de Guerra da Colômbia, caíram na água durante uma viagem que tinha Mobile, nos Estados Unidos, como ponto de partida, e Cartagena como destino. O governo do general Gustavo Rojas Pinilla, que, segundo Gabo, exercia uma ditadura ‘militar e folclórica’ com façanhas como matar estudantes a tiros no centro de Bogotá durante o que seria a dispersão de uma manifestação, disse que uma tormenta havia provocado a queda e impedido o resgate. Balela, é claro.

Com o que não contava o governo é que um dos homens, o marinheiro Luis Alejandro Velasco, conseguiria sobreviver. Dez dias em uma balsa, sem comida, bebida ou qualquer tipo de proteção do Sol. Um grande feito. Quando chegou à terra, uma missa em memória de sua morte já havia sido rezada e chorada, e a notícia do suposto naufrágio, antes manchete, agora ocupava apenas notas de rodapé.

Estava faminto, machucado, desidratado. Foi levado ao hospital naval e seu contato com a imprensa era limitado. O governo sustentava a versão da intempérie, replicada nos veículos que apoiavam a ditadura, incontestada nos opositores por pura falta de informação. Como questionar o que não se sabe?

Velasco foi recebido como herói. Deu entrevistas contando como sobreviveu ao mar e não sobre como foi parar lá: a ditadura havia determinado muito bem o que poderia ou não dizer. Apareceu em propagandas, ganhou algum dinheiro. Foi até promovido na Marinha. Mas, quando a poeira baixou, sentiu-se inquieto. Foi então até a sede do jornal El Espectador, em Bogotá, para oferecer a história completa. Lá, segundo Gabo, o receberam como o que era: ‘uma notícia requentada’. Ao jornal, que vivia a dificuldade de encontrar notícias que passassem pelos censores e fossem atraentes aos leitores, não interessava contar mais do mesmo.

Porém, num impulso, o diretor do jornal, Guillermo Cano (que anos depois viria ser morto por narcotraficantes), recuou e aceitou pagar pela história, em sua versão completa. Gabo, então o repórter de 27 anos que deveria entrevistar o homem, recebeu a tarefa como se fosse uma bomba. Qualquer um que tivesse que requentar notícia sentiria o mesmo.

Foram 20 sessões de seis horas diárias em que o então futuro Prêmio Nobel de Literatura perguntou, por vezes de maneira ardilosa, sobre cada momento de Velasco do mar. Meticuloso, queria ter certeza de que não estava sendo enganado. O relato foi publicado em uma série de 14 dias e assinado pelo dono da história e não pelo repórter, responsável por reconstruir a aventura em primeira pessoa com maestria. Bem, era Gabo e isso dispensa qualquer comentário sobre a qualidade da escrita.

Quando da publicação da primeira parte, até o governo estava feliz em ver seu herói ganhando mais espaço. Porém — e felizmente sempre há um porém — com a narrativa completa veio também a denúncia: não houve tempestade no mar. A verdade é que o navio apenas sofreu uma inclinação por conta do vento em alto mar e parte da carga, que estava mal amarrada, se soltou e levou consigo os oito homens. Com o peso da embarcação, foi impossível manobrar para o resgate — se limitaram apenas a atirar balsas na água. Por sorte, Velasco conseguiu chegar a uma delas. Os outros sete morreram tentando, ou nem isso.

Além da mentira sobre o mau tempo, o governo também escondia outras duas coisas graves: levava carga em um navio da Marinha de Guerra, o que era proibido, e essa carga era material de contrabando. Televisores, eletrodomésticos e rádios trazidos dos EUA para as terras latinas. Muamba. Estava claro que o relato, como o navio, levava também mal amarrada uma carga política e moral que não havíamos previsto, ponderou Gabo no epílogo da primeira edição da reportagem em sua versão para livro, em 1970, quando também foi a primeira vez que seu nome apareceu ligado ao texto.

Ainda segundo Gabo, a ditadura, em uma ‘tradição muito própria dos governos colombianos’, apenas desmentiu a história em um comunicado solene. E, como não é difícil de prever, a pressão e a censura sobre o jornal El Espectador aumentaram. Assim como sua tiragem, que durante a publicação da série chegou a dobrar — as pessoas queriam colecionar os exemplares para ter a narrativa completa.

Para provar a verdade, uma semana após o último dia de publicação da série, foi veiculado um especial com a história completa, acompanhada de fotos feitas pelos marinheiros sobreviventes que mostravam a muamba amarrada sobre o casco da embarcação. Os registros eram recordações de viagem que, felizmente, acabavam por mostrar a irregularidade. Com isso, o relato se tornou incontestável.

Velasco teve de sair da Marinha e caiu no esquecimento da vida comum. El Espectador, que hoje é um dos maiores jornais do país, acabou fechado pela ditadura. Gabo foi mandado a Paris para viver como exilado. Menos de dois anos depois, o governo caiu, sendo trocado por um regime ‘melhor vestido mas não muito mais justo’.

Pois, o jornalismo é isso

O desfecho acima é clássico especialmente na América Latina, quando se remonta ao não muito distante tempo de ditaduras e sua relação com a imprensa opositora. Hoje, diz-se que vivemos democracias, mas há que questionar muita coisa. De todo o modo, o relato de Velasco transcrito pelos dois dedos hábeis de Gabo a partir de suas anotações (sim, ele dizia que só usava dois para bater à máquina e era contra gravadores), é uma aula sobre o básico do básico do jornalismo: apuração. Afinal, foram 20 sessões diárias de seis horas cada. Hoje, a menos que seja um caso muito, mas muito especial, isso é impraticável, infelizmente. Nem nos restam as horas para apurar os fatos: tudo tem de ser feito agora para que nos 30 segundos seguintes esteja pronto e publicado.

Vale ainda destacar que o grande ponto da história não saiu de imediato:

‘A segunda surpresa, que foi a melhor, tive ao quarto dia de trabalho, quando pedi a Luis Alejandro Velasco que me descrevesse a tormenta que ocasionou o desastre’. Consciente de que a declaração valia seu peso em ouro, me respondeu, com um sorriso: ‘É que não havia tormenta’ — descreve Gabo ainda no epílogo do livro, depois de dizer que sua primeira surpresa havia sido a capacidade do sobrevivente em narrar de modo detalhado e apaixonado toda a sua aventura no mar.

E se Gabo tivesse colhido a história em ‘apenas’ três dias? E se tivesse sido pautado estritamente para escrever sobre a maneira com que o homem sobreviveu a dez dias sem comida e se mantivesse fiel à ordem? E se o editor cortasse a história para não incomodar o governo? Bem, aí não seria Gabo, é claro. Talvez seria algum de nós, os repórteres multitarefa (me soa mais honesto que ‘multimídia’).

Mas a culpa não está na falta de tempo, no excesso de demanda, na pauta fechada, na subordinação das empresas de comunicação aos governos, apenas. Quem não pergunta muito, bom repórter não é. Quem não duvida, também.

Em Medellín, na edição de 2016 do Festival Gabriel García Márquez de Periodismo, quatro jornalistas (Maruja Pachón, María Jimena Duzán, Luzángela Arteaga e Juan Cruz) que tiveram a honra de trabalhar com Gabo responderam em uníssono quando perguntei sobre o que de mais importante haviam aprendido como o mestre: ‘apurar e checar a informação, apurar de novo, checar uma vez mais, e então apurar novamente e checar outra vez. E nunca parar de apurar e de checar’. Jornalismo é isso, caso alguém tenha esquecido.

Sim, não somos nem seremos Gabo. Quiçá, teremos emprego no próximo mês ou ano. Mas independente do caminho, o método dele deve ser mantido a todo custo. Que tenhamos fôlego para correr, ainda mais, contra as horas, que busquemos a fundo a informação (dentro dos limites éticos, é claro), que a inquietação seja rotina e oxalá os jornalecos e jornalões voltem a fazer — ou façam pela primeira vez — um jornalismo de verdade, onde o conteúdo em si tenha mais importância do que o número de cliques de uma publicação sobre memes. Parece estúpido falar, refletir ou escrever sobre isso, mas é algo que falta desde a redação pequeninha do interior até as mais estruturadas. O jornalista e escritor argentino Martin Caparrós, também no Festival Gabo, foi quem cravou essa:

— O bom jornalismo se faz para poucos.

Que sejam poucos, então, mas que não se deixe de fazer bom jornalismo. Até porque, como o próprio Gabo disse um dia:

— A boa exclusiva não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor.

Antes que o papel de jornal acabe, quem sabe se consiga colocar isso em prática.

Karina Sgarbi é jornalista brasileira, atualmente baseada em Lisboa, com mais de seis anos de experiência como repórter e cinco premiações jornalísticas nacionais e internacionais no currículo.

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