Economia em números e palavras. Por Adalberto Piotto.

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A economia teve uma queda recorde no segundo trimestre deste ano, segundo divulgação do IBGE desta terça-feira, 1o. de setembro. É tão fato como era previsível, dada a crise sanitária que vivemos e a política do para tudo, fecha e arrebenta adotada desde a segunda quinzena de março, por governadores e prefeitos, que ainda está sendo lentamente revertida.

Mas vamos aos detalhes do título abaixo do G1 de hoje, por exemplo:

‘PIB tem tombo recorde de 9,7% no 2o. trimestre e Brasil entra de novo em recessão’.

Título longo. Não é um problema. As coisas precisam ser ditas. Mas e se o título fosse algo assim: ‘Pandemia provoca queda recorde de 9,7% do PIB no 2o. trimestre e leva o país a nova recessão’, não seria mais justo?

Um mais curtinho, em titulês: ‘PIB desaba 9,7% no 2o. tri. Pandemia empurra Brasil para recessão’.

Invertido com o nome ‘Brasil’: ‘Pandemia empurra Brasil para nova recessão. PIB do 2o. tri: – 9,7%’.

Nas minhas sugestões de título não diminuí o ‘rombo’, não passei pano para a queda do PIB nem deixei de noticiar a gravidade do momento. Mas expliquei já no início o porquê da queda recorde da economia, a ‘pandemia’.

O título, como está, não é mentiroso, mas é enviesado para a lógica da tragédia brasileira que persiste na cabeça de parte dos brasileiros de ver o copo meio-cheio como uma profissão de fé.

Esta queda presente do PIB tem nome: pandemia do novo Coronavírus, Covid-19, ou seja lá a variação da crise sanitária e econômica que prefira usar.

Do jeito que está o título, muito semelhante em outras publicações, parece que fizemos – de novo – coisa errada na condução econômica. E não fizemos. Não desta vez!

Ao contrário, estávamos consolidando uma recuperação. Lenta, ainda difícil, com o natural desafio da retomada mais célere, mas baseada em uma política de redução de gastos públicos, desburocratização, facilitação ao investimento, concessões ao setor privado, redução do Estado, atração de capital estrangeiro de investimento direto etc.

Daí, que defendo que o título deveria ser ‘de referência’ com a citação de uma das palavras mais faladas no primeiro semestre deste ano: ‘pandemia’. A queda da economia não poderia ser tratada de forma genérica, por mais que tenhamos exemplos recentes de erros na condução da política econômica.

Na luta dos brasileiros que querem romper com este estigma estúpido de que o Brasil não vai dar certo nunca, a forma como se dá uma notícia faz toda a diferença.

É ciência pura a forma como ocorre a percepção das pessoas de algo noticiado, dependendo das palavras usadas, o tom da voz ou as imagens de apoio. Nada altera o conteúdo real, os números reais, mas forma importa. E muito!

Não sei o que levou o editor a criar este título enviesado p’ra baixo, de jogar a toalha. Poderia estar no automático, ter um padrão negativista (muito questionável), imperícia, recebido ordem (que deveria questionar, se não concorda), ser um legítimo representante do estilo ‘Oh, vida… Oh, azar’, enfim, impossível dizer o motivo.

Mas colocar a pandemia no título seria verdadeiro, mais justo e muito mais jornalístico.

Adalberto Piotto é jornalista e documentarista. Especializado em economia, é ancora de notícias em rádio e TV, articulista de realidade brasileira e produtor e diretor do filme ‘Orgulho de Ser Brasileiro’ e da série de webTV ‘Pensando o Brasil’.