Comunicação e conhecimento na era da curadoria. Por Manoel Marcondes Neto.

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Aos estudantes de Jornalismo, Radialismo, Propaganda e RP – conteúdo por mim apresentado em palestras havidas em outubro deste ano na Universidade de Uberaba (UniUbe) e na Faculdade da Serra Gaúcha (FSG).

Referencio, neste conteúdo, principalmente dois autores: um, clássico, Norbert Wiener, pai da Cibernética, e, outro, contemporâneo, Jaron Lanier, autor de quem acabei de ler seu polêmico livro ‘10 argumentos para você deletar agora as suas redes sociais’ (LINK).

Deixamos uma era de ignorância – em que não saber era uma contingência de não acesso, não letramento ou não vontade. Com a internet como a conhecemos hoje – já com 25 anos de idade, esta era acabou. Agora – estamos na ‘Era da Curadoria’.

Não trago verdades ou memes… prefiro falar em ‘dicas’, conselhos de um professor:

1 – Leia o que puder, mas escolha suas fontes recorrendo aos seus mentores, professores ou não.

Todo profissional de comunicação deve terminar sua formação básica e iniciar no mercado de trabalho contando com um referencial básico. Serão os seus paradigmas. Imprensa não é fonte de conhecimento. Literatura, sim. Como professor de Fundamentos Científicos da Comunicação, além dos dois autores mencionados, vou citar mais alguns – que são minhas referências.

2 – Elabore – e execute – a partir do conhecimento adquirido.

Compreenda que tudo o que produzimos; uma campanha publicitária, um programa de rádio ou TV, e o noticiário na internet – é sempre algo feito de escolhas. Pense que num determinado momento você será a pessoa a fazer essas escolhas. Não se restrinja a acompanhar o noticiário e as campanhas. Isso é pouco, insuficiente. Recorra à literatura. Nunca foi tão fácil ler os clássicos.

3 – Respeite a alteridade. E seja responsável.

Procure, na medida do possível, raciocinar sem viés opinativo, permitindo que o outro construa sua opinião e faça suas escolhas. Jornalistas, radialistas, publicitários e errepês são, por definição, formadores de opinião – o que traz uma grande responsabilidade. E a linguagem audiovisual (diversos artigos científicos pontificam: ‘internet é vídeo’) é a mais forte – o que aumenta ainda mais a responsabilidade.

Olhando para a Filosofia clássica – cito, rapidamente, três pensadores fundamentais para a Comunicação: Sócrates, Platão e Aristóteles:

Sócrates – que não deixou obra escrita – só oral (imaginem-no como um precursor dos podcasts) – formou pensadores (como Platão) e sua contribuição metodológica, a ‘maiêutica socrática’, privilegiava a lógica argumentativa e um certo ‘saber inato’ transcendental.

Platão, por sua vez, provocou-nos com um mundo ideal – fora do sensorial – um mundo das ideias (‘Topos Uranus’), onde estariam as ‘coisas mesmas’, a verdade, sendo a nossa vida quotidiana falaciosa em tudo, mera representação desse ideal.

Aristóteles trouxe-nos a Dialética. Pai do processo educativo para mim, ensinou-nos a propor teses, discutir antíteses e buscar ciência, consciência, conhecimento e sabedoria. Não sínteses.

Em livro de 2018, ‘Auditoria Funcional da Comunicação Organizacional’, inicio o prefácio assim: ‘Por uma revolução analógica…’.

Na verdade, faço um chamado ao fator humano. Uma virada para a real transparência, a sustentabilidade, decisões colegiadas e condutas éticas – os quatro pilares de uma governança mais justa, feita por gente, não máquinas. Peter Drucker é a referência aqui. Qualquer coisa deste autor – que no obituário, de 2005, foi elevado à condição de filósofo – vale a pena ler.

Somos cientistas sociais. Ponto. Não opero com o conceito de Ciências Sociais ‘aplicadas’, rótulo atribuído à Comunicação e à Administração (área em que milito desde 2009). Esse termo ‘aplicadas’ vem para rebaixar a nossa contribuição intelectual – coisa indevida em minha opinião.

Somos operadores da comunicação, mas a nós cabe, também, refletir a par de operar a comunicação. E apreciar a arte, para além dos conteúdos da cultura de massa em todos os tempos, para fomentar a nossa própria cultura e prover melhores escolhas – tanto éticas quanto estéticas.

Roberto Porto Simões, saudoso professor gaúcho, chamava a atenção – criticamente – quanto ao perfil ‘tarefeiro’ que assumimos quando somos chamados para cumprir etapas ‘picadas’ sem a compreensão do todo. Há que fugir disso. Claro que em começo de carreira é o que aparece para todos nós… mas deve ser um norte fugir deste esquema. E empreender pode ser uma saída.

Bom senso e discernimento são necessários, pois quando a mídia torce a verdade distorce.

Devemos muito aos grandes veículos de imprensa… mas com a perda do eixo central da informação para a internet… tornaram-se menos utilidade pública e mais instrumentos a serviço do capital – tanto de acionistas como de anunciantes.

Vejo, triste, o destino de alguns profissionais da comunicação. Pessoas colocando-se a serviço de máquinas. Não satisfeitas com o uso de programas, portam-se como algoritmos. E querem dicas ‘passo-a-passo’ para segui-las roboticamente.

Herdeiros de uma tradição humanista na academia, agora renegam o fator humano. Reforçam uma inteligência artificial que rouba espaço de trabalho à inteligência natural.

Desumanizam apesar do discurso de humanização. Complicam, apesar da defesa da conveniência. Atrasam enquanto prometem agilidade. Desservem.

Peço a você: reflita.