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Pautando a imprensa (página 21, de Opinião, d’O Globo, 20/03/2013)

É da natureza da imprensa correr atrás dos fatos, mas há fatos que correm atrás da imprensa. São assuntos, personagens e acontecimentos que, por seu interesse e importância, se impõem como notícia e assim permanecem por mais tempo em destaque. Nesses casos, diz-se que eles “pautam” os jornalistas, como está acontecendo agora com Francisco, o mais simpático, comunicativo e carismático Sumo Pontífice dos últimos tempos. Em uma semana, tudo o que ele disse ou fez foi correndo para os jornais, rádios e TVs. Há quem não se conforme: “É um marqueteiro”, já me escreveram, jogando sobre nós a culpa. Sobra sempre para a mídia: “Vocês não resistem à sedução dele”.

Será isso? Sabe-se que são insondáveis os mecanismos do sucesso (se estivessem à mão de qualquer um, todo mundo usaria), mas, se tivesse que tentar explicar esse fenômeno de comunicação e marketing, abandonaria as teorias sofisticadas, inclusive as conspiratórias, e prestaria atenção no uso que o novo Papa faz da maior fonte de notícia que existe: a surpresa ou seus equivalentes, a novidade e o improviso. Tudo nele e em torno tem sido inesperado, a começar pela humildade (alguém já tinha visto um argentino humilde?) e sem falar na eleição. Quando se esperava qualquer outro, veio ele. Depois foi a “revolução da simplicidade”: as quebras de protocolo, as pequenas mudanças nas cerimônias, nos ritos e na tradição. Em vez dos trajes alegóricos, a batina branca, o crucifixo de prata e não de ouro, o sapato preto em lugar do chamativo vermelho do seu antecessor, o despojamento e não a pompa e a opulência. Por fim, talvez não precisasse exagerar, o beijo no rosto de Cristina, que até há pouco não era flor que ele cheirasse.

A dúvida é se tudo isso é gratuito, espontâneo ou se disfarça e esconde uma intenção programada e uma orquestração. Há teólogos e especialistas que acreditam que os gestos de Francisco “vão além das aparências” e são um “recado” de que ele vai ser bem diferente de Bento XVI, e não apenas na cor dos sapatos. Como já foi dito, ainda é cedo para santificar o novo Francisco, e é possível que ele decepcione a direita e a esquerda. Ao contrário do que muitos gostariam, como, por exemplo, a própria presidente Dilma, ele não vai contemplar as “opções diferenciadas do indivíduo”, se isso significa mexer em dogmas como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas, por outro lado, os que acham que ele é apenas um factoide, uma passageira “criação da mídia”, também não perdem por esperar.

Zuenir Ventura

COMENTÁRIO DO OCI – Marcondes Neto

Ora, imprensa sempre foi movida pelos fatos, pela novidade. Não é à toa que os patrícios chamam as notícias de “novas”, ou que no idioma falado nas ilhas Falklands, sejam chamadas de news.

Mas não é de novas notícias que trata o case em tela, tela plana, do Papa. E, sim, de relações públicas – essa terceira profissão mais antiga do mundo (a segunda é a de jornalista). Como ensinou – mesmo sem querer – Rubens Ricúpero, “coisas boas a gente mostra, as ruins a gente esconde”. E isso é assim desde que o mundo é mundo. É da natureza humana.

Cabe ao jornalismo desvendar o que as “assessorias de imprensa” talvez omitam – ou no caso do marketing – edulcoram. Nas biografias, nos memoriais, nos press releases.

Só que o mundo dos releases tende a desaparecer, embora as parrudas assessorias de imprensa (outro dia visitei uma delas que tinha a “redação” maior que a de muito veículo de comunicação que se preza) não acreditem nisso e continuem a produzir o que lemos, vemos, ouvimos, diariamente.

Explico: é que tais “assessorias de imprensa” são conduzidas por… jornalistas! Perfis desviados de seu ofício por alguma razão misteriosa que se situa entre a má gestão crônica no ramo (está para fechar mais um diário; o Jornal do Commercio, de 185 anos), a incapacidade de empreender veículos e a subserviência ao poder – males da mídia que atingem de morte a verdade factual, a cidadania e a democracia.

Seria atentar contra a inteligência das gentes – e pior, do Papa – não acreditar que ele aja como age naturalmente, sem assessores de RP ou “marqueteiros” (para repisar o termo pejorativo usado no texto acima).

Trata-se, o que o autor quis expressar acima sem conseguir, do exercício de plenas relações públicas, feitas por quem estudou e entende do assunto – e não por jornalistas em desvio de função. Errepês profissionais aprendem que fabricações, cedo ou tarde, são descobertas por uma imprensa atenta (e menos preguiçosa que a mídia nativa atual).

Se Jorge Mario Bergoglio é argentino, é jesuíta, conviveu com e sobreviveu à ditadura, anda de ônibus e dispensa mâitres e garçons, essas foram características intrínsecas à sua escolha, e não o contrário. Se os cardeais o elegeram, acataram inteiramente a mensagem deixada por Bento XVI de que a Igreja ou muda, nos modos, ou perece.

O texto acima, um editorial, dá a nítida impressão de que um bom banho de loja, de RP, de marketing, ou de sei-lá-o-quê, “resolve”. Mas o viés verdadeiramente novo, eminentemente substantivo – em que a atitude real do assessorado, de verdade, molda o que se diz dele sobre “a” ou “b” que é ou fará -, é o que subjaz no texto que, infelizmente, mirou no que viu mas acertou no mais vil do jornalismo, a insinceridade.

Jornalista por jornalista, prefiro o “post”, também de hoje, de Florestan Fernandes Jr., sobre o mesmo Chico:

“Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder… Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos palácios e dos símbolos do poder. Normalmente os Papas, e Ratzinger principalmente, punham sobre os ombros a mozeta, aquela capinha, cheia de brocados e ouro, que só os imperadores podiam usar. O papa Francisco veio simplesmente vestido de branco”. [Trecho de artigo de Leonardo Boff, um dos mais importantes teólogos da Teologia da Libertação[. É alentador saber que o ex-frei esteja tão confiante no Papa Francisco. Muito se especulou sobre as posições conservadoras de Jorge Mario Bergoglio, inclusive de que ele teria colaborado com a ditadura argentina. Leonardo Boff, que é amigo do Papa Francisco, diz o oposto, e se ele – que foi perseguido pelo Vaticano – acredita em Francisco, quem somos nós para discordar dele?