Viciados por uma arma de distração em massa. Por Alanis Hitomi I. Brito.

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Bem-vindo à era do titanismo, da dimensão iconofágica das imagens, na qual tudo se consome e se descarta rapidamente; onde a estética não predomina, ela é apelativa para, somente assim, conseguir despertar nossos mecanismos de reações online. À era da perda de foco, das mentes dispersas, das microconversas e das microatenções; de onde o dispositivo móvel nos obriga a vivermos sempre olhando para baixo e a nos curvarmos perante notificações.

Estamos vivenciando a fase do processo social que ocasiona transformações nas práticas sociais, na vivência do espaço urbano e na forma de produzir e consumir informação. É a chamada cibercultura, termo de Pierre Lévy que se tornou onipresente. Como o mundo hoje funciona na base de velocidade e das tecnologias digitais, a internet criou a sua própria forma comunitária, uma nova comunidade de super-conectados e de super-informados: todos se comunicam na base emissor-receptor – sendo possível que qualquer um se torne porta-voz.

Celular vicia

Ultimamente, é difícil você não perder o foco após um ordinário ‘beep’ que nossos celulares emitem após uma notificação (seja ela relevante ou não). Um caso recente na cultura pop que podemos citar é do episódio Smithereens, da última temporada da série Black Mirror. O enredo segue um motorista de aplicativo que sequestra um passageiro – funcionário de uma gigante tecnológica das redes sociais digitais – a empresa que dá o nome do episódio para, assim, entrar em contato com o criador da plataforma. Seria uma espécie de confissão: o protagonista revela que se distraiu com uma notificação da rede social e causou o acidente, matando a noiva e o motorista do outro veículo. A trama do episódio traça um paralelo com a nossa realidade, na qual se trata dos perigos do vício nas telas devido ao uso exacerbado das tecnologias.

E o ser humano está ‘configurado’ (como diz lá na página sobre interação entre o lóbulo frontal, o parietal e o cérebro emocional do manual de instruções do homo sapiens) a mudar sua atenção rapidamente. Aliás, é uma reação desenhada em sua natureza, o que garante sua luta por sobrevivência desde os primeiros tempos. Como antes passava-se tudo na forma lenta – a maçã que caía sob a árvore, o voo de uma mosca; os estímulos então eram baseados nesse formato. Hoje, com a era moderna, tudo acelerou drasticamente.

Mas a ideia do comodismo de estarmos hiper-conectados nas tecnologias, parte do aspecto automático em que não é preciso esforçar-se para recebermos uma recompensa em troca (um ‘like’ no Instagram, por exemplo). É muito mais simples checar as redes sociais digitais quando você se encontra em uma tarefa difícil no trabalho.

É preciso estar atento, tomar o controle sobre nossa atenção e tentar viver como ser humano nessa era de tecnologias. É um dos desafios levantados pelo Manifesto Onlife, o qual cobra que a atenção não seja considerada uma mercadoria. Fiquemos atentos.

Imagem: (Reprodução da mostra ‘Is This Tomorrow?’, da Whitechapel Gallery. Foto de Dan Weill.

Alanis Hitomi I. Brito é jornalista e pós-graduanda em Direção de Arte: Design e Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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