Um dia no elevador. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Betânia era uma diretora comercial com 12 anos de carreira na empresa. Ela teria um dia inteiro pela frente com uma reunião muito importante de rodada de negócios internacionais. Mas, antes, ela precisou buscar os resultados de exame da filha, Ana Clara.

Quando a menina tinha apenas um ano de idade, a mãe descobriu que Aninha também estava com leucemia. Durante quase 2 anos foi uma “batalha” atrás da outra até o transplante de medula. Ela passou por, pelo menos, 50 seções de quimio e radioterapia.

Era o dia “D”! A mulher sabia que ali, naquelas imagens e laudos, estaria a verdadeira mudança de vida das duas. Foram anos de espera para que a Ana Clara pudesse finalmente levar uma vida normal dali para frente.

A ansiedade era enorme. A menina já estava com 6 anos e entendia exatamente o que a mãe estava sentindo. No entanto, elas permaneciam fortes, atentas a qualquer mudança de saúde. Passavam os dias já fazendo planos para o futuro. Aquele resultado seria crucial para a vida de Ana Clara e Betânia.

A mulher entrou no elevador, com o resultado nas mãos. Entretanto, havia prometido à filha que elas abririam juntas aquele envelope. Betânia estava no 20o. andar do prédio e, em poucos segundos, desceu até o 15o., quando o elevador parou. Pensou que seria por pouco tempo, mas já havia se passado 1 hora e ele não saía do lugar.

Para não correr o risco da presidência da empresa pensar em boicote de Betânia, a mulher fez uma chamada de vídeo de dentro do elevador e mostrou o relógio.

– Doutor Carlos Eduardo, infelizmente, um imprevisto aconteceu. Veja! Estou presa no elevador da clínica onde vim pegar os exames da minha filha. Infelizmente eu não contava com isso. Tentei usar o telefone do elevador, para me resgatarem, mas não funciona. Tudo parado! Acredito que acabou a energia.

– Se quiser começar a reunião estou a postos por aqui e vamos fazendo as negociações. Meu material ficou no carro, mas tenho alguns arquivos no celular. Infelizmente, não eu não tenho o que fazer a não ser compartilhar algumas planilhas e relatórios por aqui.

– OK, Betânia. Vamos ver o que podemos fazer.

– Não! Vejo que eu só tenho uns 15 minutos de bateria. Ia deixar o celular carregando na minha sala durante a reunião, mas…

– Não tem problema, nós resolvemos aqui. Fique calma. Onde estão os arquivos principais no seu computador na empresa?

– Infelizmente, a maioria deles está no meu carro. Eu não consegui finalizar e, aí então trouxe comigo.

Eles iniciaram a reunião. Era uma tentativa de aquisição de uma das principais empresas de logística no Chile, mas a maioria do processo estava no computador dela, dentro do carro. E a chave, com ela no elevador. Para o motorista da empresa buscá-los, ainda seria preciso arrombar o carro. Pior, a distância entre a clínica e a sede de empresa era de mais de 10 km. Um contratempo atrás do outro.

– Doutor, procure no meu computador em minha sala. Lá tem quase tudo. A pasta está…

A bateria acabou antes do previsto, quando Betânia ia passar a localização correta de parte do material que estava no computador da empresa.

E ela estava no escuro! Já havia pelo menos 1 hora e meia que tudo estava parado. Era preciso esperar. Ali, percebeu que a única coisa a fazer era: refletir e fazer planos. Colocar a cabeça no lugar e pedir a Deus que saísse logo dali…

Betânia tinha certeza de que os exames estavam ótimos, mesmo no combinado com a filha de abrirem juntas o resultado. Então pensou no “e se?”.

“Se tiver tudo OK com você, minha Clarinha”, eu vou tirar umas férias de um mês e vamos viajar para a Disney, como você sempre quis. Eu quero muito que tudo esteja bem com você, filha. Vai dar tudo certo. Eu sei que vai dar certo! A M&Y vai conseguir fazer aquisição no Chile, vamos nos mudar p’ra lá em breve! Eu sei que vamos!”

Foram muitos pensamentos na cabeça de Betânia enquanto ela esperava sentada no elevador. Passava-lhe um filme na cabeça. A gravidez; a perda repentina do marido, Gustavo, também com leucemia. Ele não conseguiu esperar pelo transplante. Tanto tempo com a filha no hospital; o transplante dela; a quimio e a radioterapia, as quedas de cabelo. Ana Clara sempre foi forte, não deixava se abater.

Por outro lado, Betânia estava sobrecarregada no trabalho. Passava por tanto sofrimento calada, sozinha. A falta que o marido fazia…

Talvez tenha sido por isso que a doença de Ana Clara se tornou um calvário na vida das duas. A filha nunca soube que a doença do pai foi a mesma dela. Quem sabe um dia, Betânia pudesse se abrir…

Talvez aquela parada do elevador fosse o motivo para uma reflexão de uma vida inteira. No entanto, era preciso participar da reunião e entender o que seria feito na empresa. Muita pressão de todos os lados.

Mas de repente, a vida lhe colocava ali presa dentro de um elevador de 4 metros quadrados. Sozinha! Seria o local para colocar as suas ideias em ordem.

O que fazer naquelas alturas? Era preciso esperar e ver o que iria acontecer na empresa. Era tudo ou nada! Ela queria saber logo os resultados dos exames. Ver os laudos com a filha… Compartilhar futuras alegrias, dividir tristezas.

A sorte de Betânia é que tinha uma garrafa de água e 3 barra de cereais. Se precisasse ficar umas 4 a 5 horas, ela conseguiria suportar a fome e a sede naquele ambiente abafado. Talvez tenha sido melhor ficar sozinha a ouvir até mesmo “bobagens” de outras pessoas.

Era preciso ter calma. Não iria adiantar muita gritaria. No entanto, quando Betânia ouvia algum barulho externo, batia forte na porta:

– Oi, meu nome é Betânia. Estou presa no elevador. Aqui ainda é o 15o. andar? Preciso de ajuda!

Após a quinta tentativa, finalmente a mãe de Ana Clara foi atendida.

– Sou o Osvaldo, da manutenção dos elevadores. Há quanto tempo a senhora está aí?

– Que horas são? Eu entrei aqui às 8:30 h… Muito calor aqui dentro, gritei várias vezes, mas não me escutaram.

– Calma, vamos tirá-la daí.

– Estou calma, moço. Outro já teria surtado. Quantas horas, por favor?

– Vamos tirar você logo, certo? Está tudo bem?

– Sim. Quantas horas?

– Calma vai ficar tudo bem. Vamos abrir o elevador.

– OK, não quer me dizer as horas?

– Já estamos quase abrindo. Fica no fundo do elevador. Não fica na porta, senhora!

– Certo e as horas?

– Só responda o que pedirmos, OK, senhora?

– Betânia “se rendeu”. Talvez ela não precisasse mesmo saber as horas.

Depois de várias tentativas, a porta foi aberta, mas entre o 15o. e o 14o. andar.

– Espera! Os exames da minha filha. Peguem isso primeiro. É a vida dela que está aí.

Com muita dificuldade, Osvaldo e outro funcionário do prédio conseguiram tirar a mãe de Ana Clara do local. Betânia precisou se “espremer” em cerca de 50 centímetros entre o piso e o resto de espaço no que “sobrou” do elevador já chegando no 14o. andar. Passava das 15 horas.

Betânia estava exausta. Mais de 7 horas presa ali, não havia uma gota de água na garrafa. Foi ao carro, pegou o carregador do celular e o computador. Pediu um espaço para poder trabalhar na lanchonete do prédio e tentar colocar as coisas em ordem. Era preciso agir rápido.

Nova chamada de vídeo:

– Doutor Eduardo, este é Osvaldo quem me resgatou do elevador.

– Somente por volta das 14:40 que conseguimos localizar a senhora Betânia no elevador. O prédio ficou sem energia e ainda não temos gerador. O condomínio deve resolver esta situação em breve. Entramos em contato para registrar a infeliz prova deste imprevisto no prédio. Lamentamos o ocorrido e pedimos desculpas pelo transtorno.

– Doutor, seguem os arquivos. Eu não contava com essa…

– Lamentamos, Betânia, mas a negociação não andou por falta destes arquivos. A presidência e os advogados da RW Log não concordaram com o processo que não estava finalizado e pediram a retirada da nossa participação. Infelizmente perdemos uma grande oportunidade por falha de contato. Por isso, vamos ter que rever a sua posição na empresa. Esses arquivos… era para estarem conosco, hoje de manhã. Tudo pronto. Confiamos em você…

– Mas…

– Infelizmente, não há o que fazer. Amanhã você pode passar no RH. Não temos outra escolha.

Betânia não acreditava naquela situação. Como aquilo poderia ter acontecido com ela? Sempre tão correta no seu trabalho… Mas erros acontecem. Porém, muitas vezes, podem ser evitados…

– Vamos conversar, doutor? Foi um imprevisto. Eu não tive culpa no elevador.

– Mas você levou o material para casa. Ele não poderia ter saído daqui… Não é possível voltar no tempo. Eu fui voto vencido. Você sabe, eu não sou o único sócio.

– Tudo bem, amanhã no RH, deixo tudo da empresa em HD externo. Obrigada pela oportunidade de trabalhar por 15 anos na M&Y… Um erro que nunca mais vou me esquecer. Peço a sua licença, mas a vida da minha filha está aqui na minha mão e prometi abrir este resultado com ela. Não tenho mais nada a fazer no cargo, não é mesmo?

– Boa sorte, Betânia. Que ela esteja curada. Isso é o que eu mais te desejo! O que você precisar de mim fora da M&Y, eu farei de tudo para te ajudar.

– Sim, agradeço muito por tudo o que aprendi na empresa…

Betânia saiu do prédio, lamentando a perda do emprego, entretanto, sem um grande peso nas costas. Estava ansiosa para encontrar a filha e as duas lerem o resultado do tão aguardado exame.

Ela chegou em casa. A menina não acreditou quando viu a mãe fora do horário do trabalho. E já se desesperou:

– O que aconteceu, mamãe? Você não está nada bem. Vou te fazer um chá de camomila…

– Não filha, aqui está o resultado dos seus exames!

– Então vamos abrir logo, mamãe. Depois você me conta porque parece tão triste…

– Filha!!! Você está curada! Eu não acredito, meu amor! Deu tudo certo. Deus ouviu minhas orações!

– Eu sabia, mamãe. Eu sabia! Papai me dizia que o Papai do Céu ia me ajudar. Que eu ia ficar boa…

– “Gustavo, quanta saudade de você… Como eu te amo e sinto a sua falta” – pensava Betânia enquanto chorava abraçada à filha.

– Viu mamãe, papai Gustavo falava a verdade… Eu sempre falei isso, você nunca acreditou que eu conversava com ele depois que ele morreu…

– E então, filha, no mês que vem vamos para a Disney? Eu quero muito tirar as minhas férias com você.

– Mas e o trabalho? Não vamos mais morar no Chile?

– Não… Estou assim toda bagunçada, porque fiquei presa no elevador da clínica por mais de 7 horas, e não participei da reunião. Estou tão cansada, mas muito feliz por ter você comigo, curada!

– Como assim, mamãe? Mas por quê? Não deu certo aquilo que ia fazer hoje na empresa?

– Não filha! Não deu! Um dia você vai entender… Você vai entender! O que importa agora é você está curada, somente que você está curada! Obrigada, meu Deus! Aninha, cadê meu abraço forte? Amo você, mais que tudo na minha vida!

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.