PENSANDO ALTO - Solidão na pandemia.

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Durante toda a vida, precisamos aprender a conviver com decisões individuais e normas coletivas. E não só a ética intuitiva do ‘minha liberdade acaba quando a do outro começa’, mas com o passar dos anos, aprendemos também a tomar decisões individuais levando em conta premissas coletivas, que não necessariamente têm a ver com nós mesmos. Explico melhor: a pandemia, assim como fez com todas as nossas bases, sentimentos e hábitos, também chacoalha a intersecção dos campos coletivos e individuais: com bares e comércios abertos, como tomar a decisão de ir ou não? Se já passei 4 meses completamente isolada, ver um amigo é um risco grande à minha saúde e à dele? E de mais alguém? Ir correr na rua para melhorar minha sanidade mental é egoísmo? – É claro que aqui estamos falando das pessoas com o privilégio da escolha, e não de quem está saindo de casa porque precisa.

E aí, dentro dessa ponderação, somado a fatores como falta de orientação do governo, incerteza quanto às fontes de informação e número de mortes e o Brasil como segundo país com mais casos da doença, entramos no maior dos pesos individuais nessa balança versus o coletivo: a solidão na pandemia. Solidão que nos faz perceber que sem afeto, sem cuidado, sem o outro, não há vida. Comunidades são necessidades humanas , e foi preciso aprender a lidar com isso quando nos foi pedido o isolamento.

No entanto, como falar de necessidade individual em um país que contabiliza quase 100 mil mortes? Como falar de amor, de afeto, quando as pessoas que estão morrendo têm classe social e têm cor? Como dar a corridinha p’ra espairecer onde não há saneamento básico para lavar as mãos a alguns bairros de distância? Mais do nunca, esse texto não trará respostas, leitor. Somente e cada vez mais perguntas, e dessa vez todas em volta de: até que ponto as minhas decisões englobam situações coletivas, e até que ponto posso carregar essa responsabilidade, ou deixá-la de lado?

Pois é, eu também não sei. Com poucas certezas me deixaram a pandemia. Mas discutir é sempre o caminho.

E falando em solidão, esse sentimento tem ficado cada vez mais recorrente. A fase de viajar p’ra dentro já passou. A fase de buscar autoconhecimento também já se foi. Agora estamos loucos para contar aos outros tudo o que descobrimos. E sabemos também que as redes sociais não estão mais cumprindo com esse papel de interação. Já cansamos da estrutura de jogo que o Instagram nos convida a participar. É exaustivo gritar (postar) o tempo todo.

No começo vivíamos para ver quem era o mais produtivo. Quem fazia mais cursos, quem trabalhava mais horas, que descobria um hábito novo. Agora cansamos um pouco de nós mesmos. Mas, se precisamos tanto assim de companhia, porque continuamos falando tanto de nós? A gente quer companhia, ou a gente que espectador? Aprovação e validação do que somos?

Por isso, cansamos da competição de quem tem mais likes e engajamento – queremos mensagens privadas. E até mesmo nas mensagens privadas é difícil construir e sustentar uma narrativa por tanto tempo, em uma realidade tão diferente.

Como conclusão, não deixo de pensar na linha tênue entre os limites do ‘meu’ e do ‘nosso’ e da necessidade de validação de muitos para a existência de um. O campo individual e o coletivo se fundem porque o ‘eu’ depende do outro.

Giulia Romanelli é publicitária de formação. Leitora e escritora de essência, é atriz amadora, fascinada por reflexões humanas, Filosofia, e pelas relações sociais.