PENSANDO ALTO - De onde vem a valorização do individualismo?

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Estamos acostumados à mentalidade de que os tempos em que vivemos agora nos fizeram mais individualistas, e que isso tende a ser cada vez mais comum. Não nos chocamos mais com o egoísmo, busca exclusiva por crescimento próprio e a valorização do eu, características da Modernidade Líquida. Esse conceito é de Bauman, assim como o da relação direta da valorização da individualidade e do surgimento e desenvolvimento do capitalismo.

Para que funcione, o capitalismo tem como essência fundamental o individualismo. É importante diferenciá-lo da individualidade, esta que nos faz seres humanos únicos, enquanto o individualismo faz com que os interesses pessoais sejam os mais importantes. É isso o que nos leva ao consumo hedônico, um conceito também do autor, que faz com que busquemos a realização de nossas necessidades sociais, que na verdade têm origem nas individuais, no consumo. Além disso, quando a sociedade é um conjunto de interesses próprios, temos uma abertura para que as desigualdades sociais aconteçam, pois a justiça torna-se utópica e distante.

Mas o sistema capitalista não foi sempre assim. Bauman divide esse acontecimento em dois modelos: o pesado e o leve. O primeiro retratava um mundo estritamente controlado, e se passava durante o período da Revolução Industrial. Nessa época, a liberdade individual era reduzida e rejeitada, e a classe dominada era explicitamente alienada. Esse tipo de capitalismo viveu por pelo menos 200 anos, nos quais a mecanização era prioridade e os aspectos intelectuais eram deixados de lado. Hoje em dia, vivemos o ‘capitalismo leve’ – que se difere do pesado por ser amigável com o consumidor. A alienação do capitalismo leve é muito mais discreta, pois a insatisfação está disfarçada e escondida nas compras, na sedução, na busca pelo prazer, nas sensações de segurança e na autoconfiança que o consumo aparenta trazer.

O individualismo está sempre presente em todo esse pensamento. A sociedade passa a não ser mais importante para o indivíduo. Consome-se em busca da autoexpressão, da identidade, que é uma tentativa de solidificar e ser, frente à sociedade, uma personalidade com ideais individuais, e ter uma vida baseada na própria imagem.

Assim, o capitalismo promove o individualismo, já que um de seus pilares é a liberdade individual somada à autonomia alcançada pelo consumo. No entanto, esse sistema também nos rendeu várias coisas que poderiam diminuir a alienação. A globalização nos presenteou com a disponibilidade e democratização da comunicação. Ainda não temos o acesso à informação por todas as classes, mas 51% da população mundial já têm acesso à internet. Há, sim, um longo caminha a percorrer para que esse acesso seja cada vez maior, e mais pessoas deixem de ser passivas em seus pensamentos e reflexões, mas a evolução e a transformação de tantos em comunicadores e difamadores de conteúdos é algo impressionante.

Por isso, acredito que devamos utilizar essa ferramenta poderosíssima que é a comunicação, uma das únicas capazes de combater o individualismo e promover interações, a favor de tornar a maior quantidade de seres humanos possível unida sob ideais igualitários. Foi ela, a comunicação, quem nos tirou do ‘capitalismo pesado’.

Devemos entender que nossas posses e bens já não são mais tão valiosos. O consumismo causa danos irreparáveis à sociedade e ao meio ambiente, isto não é mais segredo para ninguém. Vamos valorizar a informação. O acesso ao pensamento e ao desenvolvimento de reflexões. A comunicação não foi feita para uma sociedade individualista. Ela serve para criar conexões, o que é justamente o contrário.

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