PENSANDO ALTO - A era da transparência e o Instagram.

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Nesse tempo de reclusão – que foi todo o ano de 2020 – muito ouvimos dizer sobre o quão prejudicial podem ser as horas passadas nas redes sociais. O documentário do Netflix ‘O Dilema das Redes’ arromba as portas de grandes instituições que retém dados, e de grandes mentes por trás dessa estratégia. As redes sociais foram feitas para sugar a atenção do consumidor em um ambiente aparentemente descontraído, com a desculpa de unir pessoas e facilitar o contato. Vibram por engajamento, por ações, pela ansiedade de mostrar e de ser ouvido. No entanto, todo fenômeno que se intensifica no mundo Big Tech é embasado em fatos da realidade, em angústias humanas, e em tendências também humanas. Afinal, não foram robôs que inventaram todo esse esquema.

Byung-Chul Han, um filósofo coreano, abre nossos olhos para o que ele chama de ‘Imperativo da Transparência’. Em uma de suas obras, ‘O Enxame no Digital’, ele nos chama a atenção para essa grande chuva desnorteada de dados e de informações com as quais temos contato todos os dias. Não há mais tempo de processar tudo isso que chega até nós, como havia quando éramos impactados somente pela mídia offline. Não há mais um meio centralizador da informação, que filtra, direciona e ‘seta’ o tom. Hoje, todos somos receptores e transmissores no processo comunicacional, simultaneamente. E essa urgência do consumo e produção de informação, aliada a uma sociedade hiperpositiva, onde não é de bom tom o compartilhamento de fragilidades humanas, é justamente o que ocasiona a demanda por transparência de Han.

O universo digital utiliza esse discurso para incentivar a troca instantânea, e para criar recursos que auxiliam nisso, tais como os botões de curtir – que tangibilizam o desespero pela atenção alheia, tal qual os alertas de notificação. E, entregando essas sensações ilusórias, incentivam a transparência através do compartilhamento de mais e mais informações – fantasiadas de transparência – mas apenas porque deixaram o que é real para trás. O fenômeno da transparência se resume em um processo em que o indivíduo se descola de suas reais necessidades, fragilidades e fraquezas, para que possa revelar e relatar apenas o que é vantajoso para a sociedade consumir. A tristeza não vende, não inspira ao consumo, não aponta as faltas que podem ser supridas pela materialidade das compras.

No entanto, a única coisa totalmente transparente é o vazio. Com a possibilidade de revelar seus processos a todo momento nas redes sociais e acompanhar esse processo nos outros, o ser humano urge pela transparência… mas se esvazia de si. Assim, precisa preencher esse buraco, utilizando estratégias propositalmente estampadas em sua cara: o consumo.

Ainda citando Han, ‘Não existe nenhuma esfera no digital onde não sejamos uma imagem’. Lá todos podem ter voz, logo, ter presença. A psicanalista Maria Rita Khel faz um paralelo dessa urgência de compartilhamentos de mensagens em imagens com o desespero pela ‘sensação de que a vida está sendo vivida’. O Instagram é a rede social que, representado pelo ícone da câmera fotográfica, foi pensado para o compartilhamento de fotos e vídeos. Com a assinatura ‘capture and share the World’s Moments’ (‘capture e compartilhe os momentos do mundo’), faz um link direto entre o conteúdo e o enxame de experiências vividas. Surgiu em 2010, e em apenas um ano, já tinha dez milhões de usuários. Esse número cresceu 80.000% até hoje, e o Brasil ocupa posição de destaque em número de usuários desde 2015. Nesses 10 anos, inúmeros recursos foram criados para que a narrativa da felicidade pudesse ser contada de maneira intuitiva e comparativa. Os stories – compartilhamento de conteúdo durante 24 horas – no tempo necessário para que aquela história não seja mais interessante, as mensagens instantâneas, os efeitos e filtros de alteração da autoimagem, baseados em padrões de beleza irreais, pontos de venda virtuais e toda uma estrutura de influência de conteúdo, na qual pessoas são pagas para recomendar produtos e criar uma história de envolvimento com eles, no lugar das marcas.

O Instagram é o ambiente onde há mais trocas transparentes, mas que na verdade são quase turvas, para esconder tudo o que precisa ser escondido e separado da matéria orgânica humana. E é claro que o consumo material está a pouquíssimos cliques de distância, para suprir todas essas faltas, percebidas pela comparação com a vida alheia. É que essa comparação entre usuários não se dá necessariamente pelo que o outro tem, mas por coisas mais subjetivas e abrangentes que beiram a noção de felicidade, como estilo de vida, relacionamentos, sucesso no trabalho e afins. No entanto, esse processo dá sim vazão a faltas, que nada mais são do que o motor que move o consumo. São faltas que vão além da transparência e tocam a nossa fragilidade, mas como não há mais contato com isso, não sabemos identificar. Dessa maneira, o consumo representa um curativo frágil e momentâneo, distante da cura. E é isso o que permite que as faltas sejam reinventadas pela mídia, especialmente a digital, para que o desejo de consumo nunca cesse.

Giulia Romanelli é publicitária de formação. Leitora e escritora de essência, é atriz amadora, fascinada por reflexões humanas, Filosofia, e pelas relações sociais.