O que podemos aprender com a pandemia? Por Lucianna Golonni.

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Impossível desviar do assunto Coronavírus há poucos dias do isolamento decretado pelo governo e diante de toda a calamidade mundial por causa da doença. O cenário atual assemelha-se a uma história de ficção científica que, diga-se de passagem, foi ‘previsto’ no filme ‘Contágio’ – de 2011 –, do roteirista Scott Z. Burns.

As semelhanças entre o roteiro do filme e a nossa realidade são tão presentes que, de fato, fazem o filme parecer um presságio em vez de mera coincidência. Para começar, a infecção tem início a partir de um vírus – na China – e, também, em morcegos. Por conta da devastação de uma floresta chinesa, morcegos e porcos, que seriam usados para consumo humano, começam a conviver. A partir do consumo da carne de porco começa a transmissão.

A partir daí o vírus estabelece uma rota de contaminação que se espalha em nível mundial, levando à necessidade de isolamento e distanciamento social para a contenção do contágio. As cenas, que impactam pelo detalhe, mostram as mãos dos personagens contaminadas após as tossidas, tocando objetos que logo serão tocados por outras pessoas indistintamente, sem barreira de classe social e sem barreiras internacionais.

O paralelo entre o filme e a atualidade deveria parar por aí. O que se vê na história é o abandono, pela sociedade, de qualquer sentido de civilidade. Ocorrem saques devido a crises de desabastecimento e a venda de uma cura milagrosa que se apoia numa população fragilizada e paranoica. Porém, apesar do ímpeto de criar distância de um cenário tão assustador como o descrito no filme, é preciso perceber que ele é totalmente factível.

Infelizmente já se veem pessoas vendendo curas em cultos e até mesmo profissionais de saúde disponibilizando remédios on-line para aumentar a imunidade, sem nenhuma base científica. Além disso, o risco do desabastecimento é real, visto que, apesar dos pedidos dos governantes acerca de fazer compras no volume meramente necessário, a maioria das pessoas está comprando em grande quantidade para estocar.

O coronavírus pode ser um grande transformador da humanidade. Ele nos depara com um choque de realidade que escancara a nossa vulnerabilidade e o quanto a nossa saúde está acima de qualquer outra necessidade. Diante de um colapso na saúde da população, somos obrigados a parar e voltar a conviver com os nossos.

Saímos compulsoriamente do automatismo e da necessidade de produzir incessantemente para o recolhimento e a convivência com aqueles de quem nos distanciamos devido à rotina pesada do dia-a-dia. De forma abrupta nos vemos diante da urgência em reaprender a conviver debaixo do mesmo teto, sob novas regras de compartilhamento de tarefas e atividades.

São várias lições de compaixão e respeito mútuo que hoje precisamos tomar à força. Olhar com cuidado para os idosos, que têm mais fragilidade diante da doença; evitar não só se contaminar, mas o contrário, não sair às ruas cumprindo 14 dias de reclusão após alguma situação de exposição ao vírus; comprar sem exageros para que não falte para outros; preocupar-se com as pessoas que dependem da informalidade para viver; olhar para aqueles que vivem em condições precárias de habitação e que, por isso, são mais vulneráveis à contaminação em massa etc.

Toda essa preocupação é uma mudança de paradigma não só no campo individual como sistêmico, gerando reflexões em políticas públicas que acolham as populações mais pobres e trabalhadores que precisam ser protegidos pela paralisação inevitável da economia. A lógica de proteger somente os grandes empresários não nos permitirá sobreviver. A revisão de uma política com base individualista é o grande legado da pandemia que estamos enfrentando.

Há, ainda, uma reflexão que poucos têm comentado sobre o consumo de carne, que leva a um convívio muito próximo com animais em condições precárias. Animais confinados em grande quantidade, com desenvolvimento de diversas doenças que são sanadas com altas doses de antibióticos. Sabidamente estamos criando superbactérias que podem vir a comprometer nossa saúde, assim como criamos as condições necessárias para que os animais também sejam vetores de doenças que nos atingirão no futuro. Uma conversão para uma dieta vegetariana e uma preocupação maior com o meio ambiente, preservando os habitats de várias espécies, afastaria cada vez mais os riscos de pandemias.

Cada reflexão citada está baseada na empatia. Se tivermos empatia pelos mais vulneráveis, pelos animais, pelos que estão próximos, poderemos criar uma rede protetora para todos e mudar nosso padrão de comportamento, aproximando-nos da nossa vocação real que é de sermos colaboracionistas em vez de competidores. Essa é a nossa natureza – compassiva – que temos como exercitar num momento tão delicado, mas capaz de nos fazer chegar novamente até ela.

Lucianna Golonni é palestrante e consultora em Comunicação Empática. Professora do IDCE Escola de Negócios, é pós-graduada em Negócios Internacionais pela UERJ. https://www.linkedin.com/in/lucianna-golonni/