Felicidade como requisito de empregabilidade. Por Vitoria Peluso.

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Em tempos em que as empresas estão em busca de estratégias para tornar o ambiente de trabalho mais leve e agradável, preservando o clima organizacional, a novidade é investir na felicidade. Ou seja, colaborar para que os funcionários sejam mais felizes e, consequentemente, produzam mais e melhor, não é de se espantar que as vagas de emprego passem a incluir a felicidade em seus requisitos de contratação. Você deve estar se perguntando: como assim felicidade como requisito?

No início deste ano, a rede de mercado Multi Gula, de Curitiba (PR), fixou um cartaz em uma de suas lojas espalhadas pela capital paranaense com o seguinte anúncio: ‘Estamos contratando pessoas felizes’. Apenas isso. O anúncio foi notícia em diversos veículos locais e nacionais, que contaram a história por trás do requisito inusitado. Segundo Cid Becker, gerente de treinamento de pessoas, a ideia surgiu após perceber falhas no atendimento. Seu objetivo foi buscar profissionais com energia positiva, que possam atender melhor os clientes. Em pouco tempo, o novo modelo de trabalho fez o empreendimento dobrar o faturamento e receber muitos elogios pela gestão do negócio, de acordo com Denis Araújo, proprietário da rede.

No Facebook do Multi Gula, muitos interessados manifestaram-se alegando possuir o requisito para preencher uma das vagas e clientes apoiaram a ideia em prol do melhor atendimento nos estabelecimentos. Os comentários dos potenciais candidatos mostram que as pessoas até gostam da proposta. No entanto, surge a dúvida: será que isto realmente funciona no ambiente corporativo? Até que ponto?

Transferir ao colaborador a missão de estar feliz no trabalho, sem proporcionar meios para isso, pode ser um ‘tiro no pé’ para algumas empresas. Olhando para a realidade, sabemos que nem sempre o ambiente de trabalho é o lugar mais agradável e confortável, logo, de maior felicidade para os profissionais. Há uma tendência de busca pela felicidade e satisfação dos colaboradores, porém esse esforço deve partir em grande parte das organizações.

Primeiro, é preciso pensar o que é felicidade? O que é ser feliz para mim pode não ser para você. Trazendo para o meio corporativo, o artigo ‘Felicidade no trabalho: as pesquisas que ignoramos’, publicado na Harvard Business Review, com autoria dos professores em comportamento organizacional André Spicer e Carl Cederström, aponta que há muitas definições de felicidade e mensurá-la não é uma tarefa tão fácil. Além disso, a busca excessiva pela felicidade pode trazer resultados negativos. ‘Desde o século 18, tem-se destacado como reivindicar felicidade traz um grande peso, um dever que nunca poderá ser perfeitamente cumprido. Aliás, focar na felicidade pode nos tornar menos felizes’, indicam os autores.

Vale lembrar que, antes de funcionários, as empresas lidam diariamente com seres humanos. Pessoas providas de emoções, sonhos, ambições e diferentes personalidades. A regra de deixar os problemas e anseios pessoais do portão para fora ao entrar no universo corporativo há tempos vem perdendo força. As novas gerações estão entrando no mercado de trabalho com a cabeça voltada para benefícios que vão muito além de plano de saúde e remuneração, estão em busca de propósito. Ou seja, um trabalho que alinhe vida pessoal e carreira.

Por outro lado, as empresas requerem de seus colaboradores muito mais do que sua força de trabalho. Para Analise de Medeiros Brum, autora de livros na área da comunicação interna, querem que se envolvam emocionalmente, olhando para o engajamento com a organização. Contudo, ela acredita que a felicidade ainda é: ‘(…) o lado menos visível da sustentabilidade e talvez ainda uma utopia para o ambiente corporativo’.

Diante disso concluímos que, para reter talentos, as organizações precisam mover esforços para também fazer os colaboradores ‘felizes’ em um sentido mais amplo da palavra. Afinal, até a pessoa mais feliz do mundo não ficaria 100% satisfeita em um ambiente desmotivador. Como fazer isso? Essa e outras discussões sobre o mundo corporativo levantaremos por aqui.

Vitoria Peluso é jornalista e especialista em assessoria e gestão de comunicação. Atua há três anos com comunicação empresarial, comunicação interna e tem experiência como repórter e produtora de conteúdo.