DIVERSIDADE E INCLUSÃO NAS EMPRESAS - Nós já estamos prontos para falar sobre um aumento na licença paternidade. Por Jovanka de Genova.

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Uma conversa sobre licença paternidade há 15 anos seria muito diferente das que podemos ter hoje em dia. Pouco se falava sobre a sua importância. Aliás, pouco ainda se fala, mas vem melhorando. Por isso é que, hoje, quero trazer esse tema e tratar de alguns pontos que mostram o porquê de insistir para que os homens possam ter o direito de passar mais tempo com seus filhos nos primeiros dias de vida.

Mas… então… quero falar para os pais ficarem em casa? O que eles vão fazer lá? Atrapalhar a mãe? Apesar de não ser isso o que quero dizer, esses são alguns questionamentos que podem surgir diante de uma conversa sobre o papel dos pais no cuidado de recém-nascidos, já que essa é uma tarefa vista como feminina em nossa sociedade.

Apesar disso, o mundo tem mudado e já é possível perceber que o discurso está indo para outro lado, para um cenário em que os homens são vistos, como as mulheres o são, como peças fundamentais no cuidado e na criação de seus filhos. E que, portanto, deveriam ter o direito a uma licença paternidade no trabalho maior do que os cinco dias previstos na lei brasileira, atualmente.

Quem tem bebê em casa sabe como a chegada de um novo membro na família pode ser complexo, mudando completamente a rotina da casa e trazendo novos desafios para o dia a dia. A mãe, logo após o parto, dispõe de quatro meses de licença maternidade para se dedicar a esse cuidado inicial com a criança. O mesmo é válido para mães adotivas que não tenham passado pelo processo de parto. Esse é um momento importantíssimo para o desenvolvimento do filho e a criação dos laços familiares. Então por que deixar os pais fora disso?

Muitos podem entender que não é um papel masculino cuidar de criança, seja em seus primeiros dias ou durante toda sua fase de crescimento. Mas estão enganados. É claro que a mãe tem uma forte conexão com seu bebê logo após o nascimento, afinal, ela o carregou por meses e é a responsável pela amamentação. O pai, neste contexto, chega para dar suporte à mãe nesses primeiros dias, e, em seguida, também pode se tornar responsável pelos demais cuidados com a criança. Ela, por sua vez, acaba enxergando-o como uma referência de aprendizado e de apoio, o que é muito importante para o seu desenvolvimento.

Isso me lembra uma conversa que tive com uma amiga que brigou com a família depois que seus avós não deixaram que o neto de três anos brincasse com uma boneca. Ela diz que é aí que começa o distanciamento – e quase uma proibição – de meninos com bonecas. Isso, na vida adulta, resulta numa falta de proximidade dos homens com seus próprios bebês. É como se, desde a infância, eles fossem repelidos dessas situações, dessa ideia de cuidado que eles também poderiam ter, porque isso é visto como “algo de mulher”.

A minha amiga acredita que essa é uma criação baseada na crença de que não é papel do homem se responsabilizar pelos cuidados diários com os filhos e que o ideal é que ele fique distante, apenas observando as mulheres, um coadjuvante dentro da família. E ela está correta.

Quando a gente fala sobre licença paternidade estendida, a ideia é quebrar esse ciclo de pensamento que não faz mais sentido. Pais que têm tempo para se dedicar aos filhos, à sua criação e aos seus cuidados, podem contribuir e muito para uma sociedade mais justa e mais respeitosa com as pessoas. Principalmente nos dias de hoje – em que as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e trabalham fora de casa tanto quanto os homens. É injusto que ainda se defenda a dupla jornada para elas. E uma forma de mudar isso é mudar esse pensamento desde o começo, quando chegam as crianças.

Para que tudo isso seja possível, é preciso que as empresas estejam de acordo com essa licença paternidade estendida. Algumas já vêm aderindo a essa prática e a tendência é que cada vez mais empresas assumam uma postura diferente. Isso porque, hoje, há um programa do governo chamado Empresa Cidadã que oferece dedução do imposto de renda para as empresas que aderirem. De acordo com o texto, é possível estender por mais 15 dias a licença paternidade e 60 dias a maternidade de funcionários que trabalham em locais que fazem parte deste programa.

Há ainda outros benefícios quando uma empresa oferece a seus funcionários mais tempo com seus filhos. Quando uma empresa reconhece a importância do pai neste início de criação do recém-nascido, ela colabora para que as diferenças entre gêneros, também no ambiente de trabalho, sejam reduzidas. Estamos falando de diversidade!

Além disso, ao estender a licença paternidade, a empresa incentiva um pensamento de que tanto homens como mulheres são responsáveis pelo cuidado com os filhos e que, portanto, as mulheres não devem sofrer nenhum tipo de discriminação ou retaliação quando ficam grávidas ou no pós-parto. Uma vez que a responsabilidade é dos dois, acabam os motivos para acreditar que somente mulheres irão se ausentar quando tiverem filhos. Os pais também podem – e devem – ter momentos em que precisarão pedir dispensa do trabalho para algum compromisso com as crianças.

Essa é uma conversa longa e que apresenta vários pontos de vista. Cada caso é um caso, mas o mais importante é que os pais possam ter a possibilidade e o direito de estenderem sua licença paternidade, se assim desejarem. O bom é que hoje é possível perceber mais nitidamente os seus benefícios e fazer com que essa discussão seja mais proveitosa do que seria há alguns anos atrás.

Imagem: Freepik.

Jovanka de Genova é educadora e gerente de educação, com mestrado em Educação, Arte e História da Cultura, e com mais de 17 anos de atuação na área de comunicação organizacional e educação corporativa, em especial na gestão de cursos e soluções educacionais. No LinkedIn: www.linkedin.com/in/jovankadegenova.