A falta de coerência do juízo absoluto. Por Ana Paula Arendt.

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”Se te fazes de vítima… jamais acontecerás, sim, para ‘descolonizar o desejo, não podemos culpabilizar ou acusar o colonizador’ porque a identidade, o moralismo, o ressentimento, o reactivo-vingativo e o poder sempre estiveram ao serviço dos fascismos, dos déspotas”. (Luís de Serguilha, poeta luso-brasileiro).

Algo que muito me interessa estudar algum dia é a linha do pensamento maniqueísta, denuncista e feminista. Há uma extensa área de pesquisas sobre o feminismo na Teoria das Relações Internacionais.

Como tais estudos se manifestam na vida das pessoas, no quotidiano? Deveria fazer parte da responsabilidade dos que produzem ideias conhecer, no campo, os efeitos dessas proposições. Na diplomacia é assim: fazemos a cama na qual dormimos. Se temos ideias demais na cabeça, vem o trabalho em demasiado. Esvaziar a mente às vezes é preciso, para que o circuito de si próprio não se sobrecarregue.

Contudo certos sentimentos são difíceis de ser esvaziados do corpo, e tenho observado mulheres para melhor compreender quem sou. Afinal, é difícil sair um pouco de seu próprio centro e se ver de fora; a visão que temos, muitas vezes, é aquela que temos por meio de outras pessoas.

As mulheres têm algo importante em particular; a capacidade de se abrir, de se esvaziar, e permitir que o outro se revele. Os homens precisam se asseverar e dizer quem são antes, encontrar suas posições em relação ao outro; dificilmente se abrem, suponho. Mas as mulheres fazem isso no automático, como se sua substância fosse a água: algo que preenche porque deixa preencher-se. Isto digo desde meu ponto de vista, feminino.

Por isso me preocupa quando vejo mulheres enfurecidas com outras mulheres, rotulando e perseguindo rótulos; atribuindo disposições e juízos definitivos, absolutos. Parecem pouco preenchidas. Algo contra a própria natureza feminina, presente tanto nas mulheres, quanto por vezes nos homens conscientes.

Penso ainda ser uma falta de sabedoria que mulheres busquem se confrontar diretamente, ainda que em discurso, contra homens que enxergam o feminismo como uma provocação, pois com isso se colocam em risco e às demais mulheres que participam do mesmo grupo, ou que partilham de certos consensos. Ainda que esses homens não tenham nenhuma disposição à violência contra mulheres, por vezes existem ainda, sim, aqueles que se espelham no passado e se tornam dominados por um juízo absoluto, ensandecidamente presos a atavismos, a um espectro de uma discussão unicamente entre uma possibilidade e a possibilidade contrária. A violência da brutalidade inconsciente recai sobre aquelas pessoas que se encontram mais vulneráveis, se bem isso felizmente pode ser revertido pelo bom senso de quem partilha de uma ética de responsabilidade. O bom humor por vezes ajuda, vejo na África o sorriso, a música e dança como elementos indissociáveis da prevenção de que ideias fixas avancem e monopolizem o espírito.

É muito difícil para uma mulher de consciência lavar as mãos diante de uma situação na qual enxerga, à frente, diante dos obstáculos e lacunas que existem na sociedade moderna, a possibilidade de desfechos ruins em confrontamentos. Sem dúvida existe a possibilidade de belos desfechos; aliás, é como disso resulta a vida. Mas não será mais conveniente que isso ocorra em ambientes sem abismos de diferenças?

Busco fazer o que está a meu alcance para evitar e desviar de acidentes que vemos hoje lamentavelmente dissolvidos nas estatísticas de violência contra mulheres e pessoas mais vulneráveis, e na minha experiência, ao menos até o momento, tem sido mais seguro caminhar e se mover nas sociedades tradicionais, nos quais a fêmea possui uma característica quase sagrada… Recordando que não apenas as mulheres são vulneráveis à brutalidade, mas todos aqueles que valorizam e alçam a um altar o aspecto feminino.

Há uma incoerência no pensamento de mulheres dominadas pelo juízo absoluto: denunciam uma realidade intolerável; mas não agem de maneira a evitá-la ou revertê-la. Afirmam que não poderiam agir de modo diferente e insultam coletivamente quem se oponha a uma vontade própria irascível, impostergável. Sem dúvida a vida é necessária; e o confronto com o lado masculino favorece que a mulher se sinta num segundo momento vencida e preenchida. Mas ao custo de retirar trechos da fala de uma autora de um contexto, amaldiçoar e retirar o lugar da fala de uma autora? Gostaríamos que fizessem isso conosco, que nos subtraíssem? Penso que isso não dignifica nem o homem, nem garante nenhum direito maior à mulher. As irmandades de mulheres que o façam serão consideradas falsas irmandades, porque simplesmente não terão alcançado o seu propósito de oferecer um espaço seguro e confortável propício à criação, o recurso indispensável dos poetas e dos escritores, sejam os grandes, sejam os perseverantes. Felizmente há homens e mulheres que se empenham por um ambiente mais salubre indistintamente, a busca por construir os lugares.

O que está ao meu alcance para impedir o que decorre das imposições impensadas, as descargas sobre pessoas mais vulneráveis? Eu não disponho de nada além da pluma, do diálogo, do chamado ao bom senso. Ver de ambos os lados e tentar compreender e registrar que não há apenas dois opostos, nem um único espectro, nem uma imperiosidade de agir em definitivo, nem modos de pensar inflexíveis. O Brasil, eu espero, continue sendo uma sociedade diversa e complexa, pois isso nos confere uma melhor capacidade de reagir e criar diante dos desafios que enxergamos.

Ana Paula Arendt é cientista política, poeta e diplomata brasileira – escreve mensalmente esta coluna ‘Terra à Vista’.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.

Uma resposta para “A falta de coerência do juízo absoluto. Por Ana Paula Arendt.”

  1. rosemary panossian disse:

    Se vc exerce sua independência não serve para o grupelho. O contraditório, que deveria enriquecer o debate, te exclui.

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