O mercado é... racional ou irracional?

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Deu na Veja, edição de 23/10/2013, por Giuliano Guandalini (P. 90-92):

Quanto custará o dólar no fim do ano? Quanto valerá a ação da OGX no próximo mês?

Uma maneira de obter essas respostas é consultar uma cartomante. Outra é usar o papagaio de um realejo para tirar um valor aleatório, na sorte. Uma opção mais inteligente, quem sabe, é pedir a opinião de um analista financeiro dono de um histórico de previsões razoavelmente certeiras. O mais eficiente, entretanto, é simplesmente observar o que mostram as cotações no mercado futuro. Quando um consultor emite sua projeção sobre o valor de uma moeda ou de uma ação, tem-se a opinião de uma única pessoa. Nas cotações travadas no mercado, os valores refletem a opinião média de milhares de pessoas — empresários, especuladores, banqueiros, exportadores, investidores — que emitem o seu parecer incessantemente.

As cotações de mercado não são necessariamente corretas, ou justas. Elas exprimem tão somente a melhor avaliação possível diante das informações existentes naquele momento. Se aparece alguma notícia sobre a substituição de um executivo da OGX. a empresa de petróleo de Eike Batista, rapidamente o mercado reage, elevando ou derrubando o preço das ações. Se o governo anuncia uma medida de intervenção no câmbio, a cotação do dólar ajusta-se instantaneamente, para cima ou para baixo.

Os preços são assim determinados pela decisão racional, a partir das informações disponíveis. Esse é o conceito básico por trás da hipótese dos mercados eficientes, desenvolvida, a partir dos anos 60, pelo economista americano Eugene Fama, da Universidade de Chicago, um dos três agraciados com o Nobel de Economia deste ano.

Uma das conclusões do trabalho teórico e empírico de Fama é a imprevisibilidade dos preços das ações no curto prazo. As cotações oscilam conforme novas informações vão sendo incorporadas (ou precificadas), em uma trajetória aleatória (random walk), formada por sucessivos movimentos em diversas direções, de maneira similar à de uma mólecula viajando em um gás. Se os mercados são eficientes, refletindo decisões de agentes racionais, e as trajetórias futuras são impossíveis de prever com certeza absoluta, é muito difícil que um investidor consiga obter retornos superiores ao da média do mercado, ensinou Fama.

Os conceitos de mercados eficientes e expectativas racionais são as pedras angulares das finanças modernas. Uma corruptela dessas ideias, entretanto, é acreditar piamente que os mercados estão sempre certos. Não estão, e o crash de 2008 fez ruir a confiança cega na eficiência plena dos mercados e abalou toda a indústria financeira construí da ao redor desse princípio. Pode haver momentos de exuberância ou também de pânico irracional, ensinou o economista americano Robert Shiller, da Universidade Yale, outro dos premiados com o Nobel deste ano. Estudos de Shiller revelaram que as ações podem, eventualmente, ser negociadas a um valor em muito superior ao que seria correto diante da perspectiva de lucros esperados. Ainda que a racionalidade fria do homem econômico explique com certa exatidão OS movimentos de longo prazo, as oscilações de curto prazo são sujeitas aos humores e temo res do homem real. Shiller foi um dos primeiros a alertar para a valorização excessiva nas ações de empresas de tecnologia nos anos 90. Mais recente mente, alertou sobre o aumento exagerado no preço dos imóveis. anos antes do crash de 2008. Nas duas vezes foi certeiro ao antecipar que o mercado, ainda que movido pela racionalidade, vivia dias de irracionalidade.

O valor de ativos financeiros nem sempre segue a lei básica da oferta e da procura. Existem situações em que o aumento nos preços de uma ação ou de imóveis, por exemplo, pode desencadear uma onda de euforia, fazendo mais e mais pessoas . investir, sob a expectativa de uma valorização ininterrupta. (Se o meu vizinho está ficando rico investindo na bolsa, por que não eu?) Absorvendo lições da psicologia, a economia comportamental alertou para a impossibilidade de incorporar plenamente as atitudes humanas de euforia ou pânico, por exemplo, às equações matemáticas usadas pelos economistas por mais avançados e sofisticados que sejam esses modelos econométricos, área de estudo do americano Lars Peter Hansen, também de Chicago e o terceiro ganhador do Nobel de 2013. Hansen, que tem trabalhos em parceira com o brasileiro José Alexandre Scheinkman, é particularmente reconhecido por suas contribuições para o entendimento de como se relacionam as finanças e o setor real da economia.

Desde 1974, quando o austríaco defensor do capitalismo liberal Friedrich Hayek dividiu o Nobel com o socialista sueco Gunnar Myrdal, a distinção não era concedida, no mesmo ano, a economistas com pensamentos tão opostos. Dar o Nobel a Fama e a Shiller, no mesmo ano, é como premiar conjuntamente Ptolomeu por afirmar que a Terra é o centro do universo e Copérnico por ter provado que não, comparou o economista escocês John Kay, colunista do Financial Times. Mas, como diz Kay, tanto o trabalho de Fama como o de Shiller mostram que os mercados funcionam com boa dose de previsibilidade no longo prazo. O Nobel, selecionado pelo comitê do Banco Central da Suécia, ao premiar trabalhos acadêmicos aparentemente antagônicos, lembra que ambos contribuíram substancialmente para ampliar a compreensão dos mercados.