Vem aí a TV 3.0, a televisão do futuro. Por Luiz André Ferreira.

Share Button

Muitos profetizam o fim da televisão, assim como garantiram a extinção do rádio desde os anos 1950 com várias “ameaças”, inclusive o surgimento da própria televisão. O sonho de Assis Chateaubriand já se mostrou praticamente imune à era dos vídeo-cassetes/locadoras e às TVs pagas. Estas, mesmo somadas, conquistam menos audiência do que a obtida unicamente pela líder Rede Globo e encontram-se em queda livre no número de assinantes. O fantasma da vez é o streaming liderado pela Netflix ou agregadores de produtos audiovisuais, como o YouTube e o TikTok, acessados de vários dispositivos, inclusive também dos televisores mais modernos.

Streaming

Para enfrentar esse inimigo alavancado pela banda larga, nada melhor do que usar de seu próprio recurso: a tecnologia avançada. Vem aí uma nova geração: a TV 3.0, que já vem sendo chamada de Televisão do Futuro. Não tão futurista assim, pois já se encontra em funcionamento no Japão e na Coreia do Sul.

Porém, por aqui, a banda toca em outro ritmo, bem mais lento. Temos uma burocrática série de etapas legais e administrativas. É que, pela legislação brasileira, a exploração do serviço de TV aberta ocorre por meio de concessão pública. Isso contribui para que seja definida, aprovada e regulamentada num complicado passo a passo. Mesmo assim, as discussões e os testes para definir os padrões para a TV 3.0 brasileira estão sendo promovidos e a primeira transmissão já tem estimativa de ser feita em 2024. Um facilitador é que a nova geração vai utilizar as mesmas frequências atuais da TV digital aberta.

Há interesse nesse investimento?

Abrindo um parêntese: nem sempre a disponibilidade de novas possibilidades tecnológicas desperta interesse para que sejam implementadas. Basta considerarmos a migração tecnológica do analógico para o meio digital. Vale ressaltar que há cerca de duas décadas patinamos nesta lenta transição, a qual ainda não está 100% implantada. Além disso, muitos dos recursos possibilitados foram ignorados pelo mercado brasileiro por questões políticas, econômicas, estratégicas e empresariais.

Como será necessário trocar os atuais aparelhos, entra também nesse tabuleiro o interesse da indústria em preparar uma cadeia produtiva de componentes aqui. Acrescenta-se a isso, a intenção ou possibilidade da população em investir na troca pelo novo modelo.

Diga-se, de passagem, quem impulsionou a substituição dos velhos modelos analógicos para os televisores smart não foi necessariamente o pacote de recursos da TV Digital, mas a explosão da Netflix, levando a opção de uma locadora inteira para a casa das pessoas. É que essa força-motriz para a mudança só acontece quando se desperta ao mesmo tempo o senso de vantagem e a necessidade de urgência nas partes envolvidas.

Se depender da morosa velocidade e da falta de interesse dos donos de emissoras em investirem em tecnologia, essa adaptação também deve ser lenta, como a da digitalização. Os investimentos são altos e assim como as últimas modificações só deslancharam devido a muitos incentivos e liberações de vantajosas linhas de financiamento governamentais via BNDES, bancos estatais e Ministério das Comunicações.

Essa nova tecnologia não abrange diretamente, em um primeiro momento, as pagas mas, mercadologicamente, é óbvio que deve impactar os processos de produção. Temos que levar em consideração que os principais canais pagos aqui no Brasil são braços de emissoras abertas tradicionais como Globo, Bandeirantes e Record.

Para entendermos, listo abaixo as principais possibilidades tecnológicas que podem ser trazidas com a TV 3.0 e algumas observações sobre elas:

Aumento da resolução

Ela pode chegar até a 8K com a nova tecnologia através de imagens com maior nitidez, cores mais vivas e brilhantes. Esse recurso aumenta os efeitos de realismo para o telespectador, mas ao mesmo tempo, exige um investimento além dos equipamentos. Ou seja, isto pode demandar uma atualização no trabalho em geral, tal como forma de utilização de maquiagem, figurinos, cenários, edição e pós-produção.

E será que esse benefício despertaria tanto nos telespectadores como nos empresários o interesse no investimento para a troca do sistema? Destacamos que os principais conteúdos consumidos hoje são perecíveis, produzidos em larga escala e sem grande exigência estética, tais como jornalismo, programas de auditório e telenovelas em que mesmo as mais elaboradas são produzidas em escala de inúmeros capítulos.

Áudio imersivo

Poderão ser oferecidas ao telespectador sensações sonoras mais realistas. A hipótese é que o som fique mais imersivo, dando a sensação de levar o público para dentro do evento, seja ele em estúdio ou não. Se esse recurso for habilitado, possibilitará que em uma partida de futebol, o púbico escolha aumentar o som do locutor ou de uma das torcidas.

No entanto, o empresariado televisivo historicamente sempre negligenciou o investimento em áudio, ao contrário da imagem. Mesmo na Era de Ouro dos Festivais e dos Musicais. Imagine agora que a música entrou em baixa com a diminuição de programas desse gênero nas TVs abertas. São constantes as reclamações dos músicos quanto à falta de qualidade sonora. Até hoje, os produtos em áudio ainda deixam a desejar diante das possibilidades tecnológicas existentes.

Transmissão simultânea

Não coincidentemente o novo sistema terá um modo de operação muito parecido com o dos aplicativos com os quais o público já está acostumado. Por isso, o design e a dinâmica de navegabilidade serão muito parecidos com os dos smartphones.

Com a TV 3.0 poderá ficar mais eficiente essa chave de transição entre o broadcast da transmissão tradicional para o suporte a streaming via internet banda larga. Assim evitaria aquele tempinho de demora quando você passa da TV aberta para a Netflix ou vice-versa. Esse sistema também vai permitir que as emissoras enviem links para quem estiver assistindo, com dicas de conteúdos semelhantes, resumos de capítulos ou programa anteriores ou making of. Poderá também incentivar a criação de lojas de vendas pelas emissoras ou de parceiras de produtos usados pelos apresentadores e atores em cena. Mas será que essa maior agilidade faria relevante diferença para o público, a ponto de obter investimentos?

Maior customização da programação

De antemão, já sabemos que mesmo com a facilidade da internet, a TV é um dos meios que menos utiliza os recursos de interação já disponíveis. Isso porque ela sempre fez questão de controlar com mão de ferro e impor sua grade horizontal. Seus programas buscam atingir a todas as faixas etárias, regiões e níveis socioculturais. Por isso, a segmentação nunca encontrou ressonância nas TVs abertas.

O novo sistema possui uma taxa de ruído próxima a zero, com mínima interferência na estação vizinha. Com isso, promete ser mais fácil fragmentar multiprogramação por um canal, permitindo uma maior opção de escolha ao telespectador quanto conteúdo de sua preferência. Vale lembrar que, com o processo anterior de digitalização, já era possível desmembrar uma única estação em quatro canais com programações diferentes. Ou seja, usando a líder como exemplo, a Globo poderia ter a grade 1, 2, 3 e 4, com programas, horários e segmentos diferenciados.

No entanto, aqui no Brasil, essa possibilidade tecnológica trazida pelo meio digital foi praticamente desabilitada pelo lobbying dos 5 detentores do oligopólio da TV aberta. Afinal, ficaria muito mais caro produzir grades diferenciadas, isto pulverizaria a publicidade e também se perderia o controle de impor sua programação única.

Segmentação geográfica – percurso histórico 

Esse recurso que a TV 3.0 traz esbarra em uma anulação histórica do modelo televisivo do regionalismo. Assim como o rádio, a televisão surgiu local, não só pela impossibilidade tecnológica inicial de transmitir um sinal a longa distância, mas também pelas grandes diferenças culturais desse país de dimensão continental.

Apesar de algumas experiências iniciais feitas pela TV Excelsior (de transmissão de parte de grade), foi a chegada da TV Globo que praticamente aniquilou o local na TV brasileira, impondo um modelo de gestão em rede. Só para situar, a primeira foi sufocada pela ditadura militar, logo após o Golpe de 1964, e a segunda recebeu benesses desse regime para se consolidar como líder absoluta neste mercado.

Na área tecnológica, a Globo teve acesso franqueado aos primeiros satélites implantados pela então estatal Embratel, impondo a transmissão simultânea de uma programação gerada e produzida do Rio de Janeiro para todo o Brasil. Para o regime totalitário era excelente essa padronização não só por manter uma unificação nacional, mas também pelo controle, censura e fiscalização de uma geração de conteúdos centralizada.

Para o empresário Roberto Marinho foi muito mais econômica uma programação única em vez de descentralizada e regional – como era feito até então. Assim, atraiu grandes patrocinadores de empresas de âmbito nacional (incluindo o Governo Federal e estatais). Também arregimentou inúmeras afiliadas que economizavam com produção, repetindo a programação da sede elaborada pelos craques Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira – o Boni. Por conta da grande economia que faziam com um único produto para todo o país, podiam investir parte desses recursos em material humano e técnico. Assim, implantaram uma plasticidade e operacionalidade cunhadas no mercado como “padrão globo de qualidade”, o qual acabou se impondo às concorrentes como única forma de sobrevivência neste segmento.

Isso fica nítido no desaparecimento ou estagnação das emissoras locais que não se juntaram ou não seguiram o modelo Globo, sufocando dezenas de empresas pelo país afora. Só no Rio de Janeiro, desapareceram as históricas TVs Rio e Continental ainda na década de 1970. Em São Paulo, a Record foi sendo asfixiada e só foi salva do mesmo destino da coirmã, a TV Rio, pela compra de parte das ações da família Machado de Carvalho por Sílvio Santos. Estes, depois repassaram a concessão para o líder da Igreja Universal. A TV Gazeta mingua entre uma série de tentativas de sobrevivência e, apesar de pertencer a uma fundação sem fins lucrativos, hoje amarga a mais baixa audiência e sobrevive de locação de grande parte de sua programação para terceirizados religiosos e de televendas.

Também a TV Cultura esteve em situação difícil. Ela era uma segunda estação dos Diários Associados na capital paulista. Só escapou por ter sido vendida para a Fundação Padre Anchieta, mantida pelo governo do estado de São Paulo. Tratando do conglomerado fundado por Assis Chateaubriand, fica nítido o efeito desastroso implantado pela Globo como modelo de TV brasileira. É só acompanhar a linha do tempo da Rede Tupi de Televisão, que apesar de ter esse nome, mantinha o mínimo de programação nacional em rede. Assim, dava às 18 emissoras próprias uma autonomia administrativa e maioria do tempo dedicado à programação local. Ao garantir a presença de culturas, sotaques e características regionais, pagava-se um preço muito alto por isso, o que contribuiu para a sua extinção. Gastava-se muito mais produzindo os inúmeros programas locais (sem os mesmos recursos tecnológicos, materiais e humanos concentrados que quem produzia uma grade só para todo o país. Isso foi gerando custos mais altos, desníveis na qualidade dos produtos em comparação com a Rede Globo e, consequentemente, a queda da audiência, bem como a falta de interesse dos grandes anunciantes. Ou seja, o efeito cascata foi se agravando entre os anos 1960 e 70, o sucateamento, o endividamento, a perda de talentos foi acentuando a já existente desorganização administrativa das emissoras associadas.

A pá de cal veio com uma só canetada no início dos anos 1980. O mesmo regime militar que favoreceu o surgimento da Globo e fez vista grossa para a ilegal associação de Roberto Marinho com o grupo norte-americano Time Life, cassou 7 TVs próprias da Tupi. Isso deixou as poucas que restaram no grupo Diários Associados totalmente desconectadas, já que entre as extintas estavam as geradoras do Rio de Janeiro e São Paulo, as quais produziam a pequena base nacional para sustentar a rede.

Já as afiliadas foram se abrigar na Bandeirantes (ainda em formação nacional) e no grupo do empresário Sílvio Santos, que possuía 50% da paulista Record e já tinha a carioca TVS, embrião da rede SBT, que só veio a se formar em uma nova concessão pública que deu ao apresentador e a Adolfo Bloch os canais que tinha sido cassados da Tupi.

Diante desse preâmbulo histórico, fica nítida a falta de interesse do empresariado televisivo na produção regional. Praticamente inexistia nas décadas de 1960, 70 e 80, na Globo, com exceção de poucos minutos para o jornalismo local. Antes do Praça TV (RJTV, SPTV…), a emissora chegou ao ponto de exibir desenhos animados em sua sede no Rio de Janeiro entre as novelas das 18 e das 19 horas, enquanto dava parcos 10 minutos exigidos pelas afiliadas para escoar toda o conteúdo regional.

A líder aumentou nos anos 2000 esse espaço, por conta da exigência do público pelo conteúdo mais próximo e por agregar anunciantes que não atuam em todo o país. A Record, do Bispo Macedo, também investe neste segmento. Diga-se de passagem, dedica muito mais tempo para a regionalidade que a Globo.

O mesmo não se pode dizer do SBT, Bandeirantes, Rede TV e nem da estatal TV Brasil. O conteúdo local praticamente não existe, com pouquíssimo ou nenhum espaço, além de parcos investimentos. E, para piorar, muitas vezes essa brecha limitada ainda é locada para terceiros.

Vale lembrar que o pouco que ainda existe em termos de programação regional está restrito ao jornalismo. Isso, por ser mais simples de produzir, mais barato e também por atender à programação nacional, quando o conteúdo local interessar, passando pelo filtro centralizador da sede para ser transmitido nos telejornais de âmbito nacional. Não existe produção local em outros gêneros, como dramaturgia, humorísticos, documentais, musicais e programas de auditórios.

Luiz André Ferreira é jornalista e professor universitário. Mestre em Bens Culturais e em Projetos Socioambientais. Pioneiro, em 2002, com o lançamento da coluna “Responsabilidade.com” sobre ética e sustentabilidade no jornal Le Monde. Tem passagens pela Reuters e grupos Folha, Estadão, Globo, Bandeirantes e Jornal do Brasil.