O coronavírus e a redenção do jornalismo brasileiro. Por Amanda Hamermüller.

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As crises que vivenciamos na vida em sociedade sempre causam transtornos, sejam elas políticas, econômicas e, muitas vezes, éticas. Mas, dessas situações, sempre há um aprendizado, que nos faz repensar opiniões. Na pandemia pela qual estamos passando no momento com o coronavírus, um dos aprendizados mais significativos é o da importância do jornalismo nesses tempos.

Entramos nesta tensão diante de um grave desequilíbrio – arrisco dizer unilateral – na relação entre o poder público e imprensa. Conforme o relatório ‘Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil’, realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o número de casos de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas em 2019 aumentou 54,07% em relação a 2018. Não é segredo para ninguém que este crescimento está diretamente relacionado à ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República, uma vez que o próprio presidente foi responsável por 121 das 208 ocorrências de ataques a jornalistas registrados pela Fenaj no ano passado.

O ódio direcionado aos jornalistas não é um fenômeno novo, mas tem um impacto maior na era digital. Profissionais são perseguidos por suas reportagens, ameaçados, ou têm sua moral injuriada. Obviamente, os resultados disso recaem na população. Se difunde entre quem compra a ideia de que o jornalismo é um mal no mundo. Aqueles que se empenham em disseminar ataques aos jornalistas que estão fazendo nada mais, nada menos que jornalismo: procurando informações e divulgando-as segundo o interesse público.

Lá na segunda quinzena de janeiro, as notícias sobre o coronavírus despertaram o fenômeno. Internautas e, inclusive, o presidente da República, insinuavam que a atuação da imprensa era de alarmismo e busca por audiência, subestimando o momento grave que estamos vivendo agora – ainda que naquele instante não tivéssemos nenhum caso em território nacional. Menos de 2 meses depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o caso como uma pandemia e, desde então, o Brasil assiste o número de casos confirmados – e mortes – subir diariamente.

O cenário poderia ser bem mais pavoroso se tivéssemos sido pegos de surpresa. Daí a importância do jornalismo profissional. Foi justamente na veiculação de informações devidamente apuradas, checadas e rechecadas, que pudemos ter acesso ao que estava acontecendo no mundo antes que a crise chegasse até aqui, bem como nos prepararmos para a prevenção. Afinal, por onde saberíamos o que é verdade e o que é boato? Onde as autoridades poderiam informar de maneira rápida e eficaz, se não através da mídia?

Assistimos os veículos de comunicação no Brasil dando um show de compromisso com o jornalismo, aproveitando o contexto para levar informação de qualidade e confiável para a população. A Rede Globo, por exemplo, tomou duas decisões acertadas: zelando pela segurança e a saúde das equipes, interrompeu gravações de novelas e programas e ampliou para 11 horas consecutivas o tempo dedicado ao jornalismo na grade da emissora – das 4h da manhã às 15h, são telejornais e programas nacionais e locais dando atualizações diárias sobre a pandemia.

Assim como o jornalismo se torna um grande aliado na publicidade de informações relevantes à sociedade, também contribui para que as gestões públicas, em seus diversos níveis, sintam-se pressionadas a adotar, efetivamente, ações que possam atenuar os efeitos desta pandemia.

Em quarentena, a população não tem outra opção, senão se informar. Neste momento, mais do que nunca, o jornalismo se fez urgente e necessário – como sempre foi.

Amanda Hamermüller é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com experiência em jornalismo impresso (revista), rádio, assessoria de imprensa, design gráfico e mídias digitais.