Nosso trabalho pode ser mais gostoso. Por Varda Kendler.

Share Button

Estava trabalhando em minha casa-escritório e não consegui me concentrar nas tarefas diante do computador. Um barulho alto e irritante vinha de fora. Dei uma pausa, olhei pela janela e percebi que o som era de britadeira. Tratava-se de uma obra na calçada, bem em frente ao meu prédio, para instalar piso a pessoas com necessidades especiais.

Voltei ao meu trabalho ainda bem irritada. No dia seguinte a mesma situação se repetiu. Eu trabalhando no computador e o barulho da britadeira compartilhando o escritório comigo, entrando no meu lar-office.

Desculpe a redundância, mas isto se repetiu ao longo da semana. Começou na segunda-feira e se estendeu até sexta-feira. Me inclinei na janela tentando dimensionar o término da obra…

No sábado acordei e ouvi o mesmo som. Fui à janela e.… lá continuavam vários trabalhadores com as britadeiras. Já não fiquei tão incomodada. Em parte, porque não era mais uma surpresa para mim. Mas o meu sentimento também mudou um pouco. Provavelmente porque era sábado. Acho que a gente fica mais relax no fim de semana… será?

Se você ainda está lendo este texto e está pensando o que este artigo tem a ver com o contexto deste site, vou te contar a melhor parte desta história. Acordei no domingo e… ah! Nenhuma novidade! Lá estavam eles! Mas, gente, domingo?! Bem cedo! Foi aí que meu olhar mudou. Algo de verdade modificou-se dentro de mim ao ver e ouvir aquelas pessoas.

Virou uma chavinha e fiquei sensibilizada com aqueles rapazes que trabalharam o dia inteirinho, de segunda à sexta e também no fim de semana. Se o ruído das máquinas me perturbou do décimo andar, imagine o impacto para eles. O meu incômodo transformou-se em empatia, compreensão. Afinal, eles estavam executando uma obra relevante, realizando um trabalho digno e ralando demais!

O meu lado intensamente afetivo veio à tona, fui a uma drug store embaixo do meu edifício, comprei uma caixa de bombom bonitona e entreguei a um trio de operários do outro lado da rua sem dizer um “a”. O que recebeu a embalagem abriu um sorriso que jamais esqueci. Sorriso largo, lindo, branquinho e, principalmente, surpreso. Eles ficaram me olhando sem compreender nada.

Prossegui com meu carro lentamente e curti, pelo retrovisor, tentar captar a conversa entre eles buscando interpretar o porquê daquele presente. Ele representava, para mim, algo como “bom trabalho, está tudo bem”.

Este episódio aconteceu há alguns meses e, como até hoje me martela, resolvi compartilhar neste espaço para registrar como realmente é possível mudarmos nosso olhar, nosso pensamento e nossas atitudes diante de determinada situação. Isto depende apenas de nós mesmos. De exercitar nossas capacidades sensoriais e emocionais por outros ângulos.

Experimente rever a britadeira do seu trabalho, das suas tarefas, das suas relações. Isto não é clichê, é uma decisão pessoal. Garanto que é factível, saudável e ainda pode gerar frutos inesperados.

E espero que os trabalhadores tenham saboreado o meu gesto!

Varda Kendler é mestre em Administração com formação em Publicidade e especialização em Marketing, Comunicação Empresarial e Gestão Estratégica da Informação. Tem experiência, em empresas de grande porte, em gestão da comunicação integrada, cultura organizacional e marketing. Atua como educadora, consultora e empreendedora.