A imprensa como partido. No mundo e no Brasil. Por Manoel Marcondes Neto.

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O fenômeno já fora detectado – aqui, neste O.C.I. – em 2016, pelo meu colega e diretor executivo, Marcelo Ficher.

Ele me dizia, quatro anos atrás, que ‘os grandes jornais’ haviam se tornado house organs dos posicionamentos políticos, econômicos e culturais de seus donos. Ou seja, panfletos.

O primeiro posicionamento, político, seria o de alinhamento com o poder – com todo e qualquer mandante, independente da cor ideológica – modo rápido de obter financiamento a partir de verbas estatais. Mas… e no caso de ‘torneiras fechadas’? Aí, pau puro!

O segundo eixo – econômico – seria o capitalista… até a página 2, bem entendido… A partir da 3, prevalece o mindset da Redação – de esquerda, dado que a formação de jornalistas pende – sem exceções, desde sempre – para este lado.

E, na cultura? Só celebridades… alinhadas, claro – que é para render threads com quem intere$$a nas artes. (Este fenômeno, no Brasil, estabelece-se já na virada dos anos 2000).

Com a explosão das redes sociais – que se seguiu à consolidação da internet – surgem iniciativas ‘digitais autóctones’. Para além da mídia comercial, toda digitalizada (web-jornais, web-revistas, webTVs e web-rádios), no caso brasileiro, portais como o Terra, o UOL. No mundo, AOL e Yahoo! são exemplos.

Em pouco tempo surgiram iniciativas ‘noticiosas’ nesses portais. Chupins. Como é caro manter uma Redação, troços como ‘Yahoo! News’ e ‘Google News’ viveram muito tempo de replicar notícias de outros veículos – que ensaiaram ações judiciais. A gratuidade ‘cultural’ dos internautas arrefeceu este impulso. Era preciso estar na web – a qualquer preço… ou até sem preço.

Como resultado do desenvolvimento do meio digital, os anunciantes começaram a migrar ao mesmo tempo em que as Redações começaram a encolher. E em 2016, aqui no Brasil, o número de estagiários superou o numero de jornalistas profissionais nos veículos. Deu no que deu: queda vertiginosa de assinantes concomitante ao despencar da credibilidade.

Apuração – termo técnico que significa dupla checagem de fatos antes da produção de notícias – ninguém mais faz. Press releases – que são emitidos por empresas de ‘assessoria de imprensa’ passaram a ser publicados (até na íntegra!) como se materiais editoriais fossem, dando origem – uma delas pelas menos – ao fenômeno das fake news.

Quem mais, além de Donald Trump – o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos em 2016, seria mais credenciado a formular o novo ‘conceito’? Ele que testemunhara – por décadas a fio – ver publicados releases de seus empreendimentos comerciais como se ‘notícias’ apuradas fossem… em toda a mídia… da ‘de entretenimento’ à especializada em Economia, da ‘de imprensa de fofocas’ à mídia ‘séria’.

O resto é a história passada.

Sem Redações competentes e sem anunciantes, o que restava às empresas jornalísticas? Adotar um lado e apostar em política e ideologia. Sem descuidar da cultura descartável de famosos e do baixo nível artístico. Já não valia mais a pena gastar com uma entrevista bem feita e bem reportada com uma personalidade do cinema ou da literatura (lembro, saudoso, do caderno ‘Mais’, da Folha de S. Paulo, nos idos da década de 1990, em que li uma entrevista com Umberto Eco). Valia mais fazer matéria de página inteira com a banda ‘É o Tchan’. Afinal, a marca de cerveja patrocinadora garantiria o faturamento com anúncios…

Paralelamente, a tal da ‘monetização’ da web veio para ficar. O modelo ‘é grátis e sempre será’ das redes sociais se desnudou: somos nós ‘os produtos à venda’ nas prateleiras do Instagram (Facebook) e do YouTube (Google). Surgiram inúmeros websites de notícias e comentários ‘autorais’ viabilizados pelos próprios internautas interessados neste ou naquele viés, neste ou naquele ‘jeito’ de ‘dar notícias’, neste ou naquele lado ideológico. Os primeiros, ‘de esquerda’, na década de 1990, surgiram na esteira dos mandatos presidenciais do PT. A segunda onda, ‘de direita’, acompanha o fenômeno Bolsonaro desde o mesmo fatídico ano de 2016.

O resto é a história presente.

Manoel Marcondes Neto é diretor-presidente do O.C.I. – Observatório da Comunicação Institucional.