VIÉS HUMANO NA ERA DIGITAL - A transformação digital na Educação.

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Engana-se quem pensa que, após a descoberta da vacina para acabar com essa pandemia, nossos alunos sairão de suas casas e voltarão para as salas de aula da mesma forma que antes. Os alunos jamais serão os mesmos, e os professores também não. Houve uma mudança, uma ruptura, uma evolução no modelo educacional. O ensino híbrido nunca ficou tão presente em nossa realidade e as aulas online, ou home schooling, tornaram-se a única saída para milhares de alunos e professores.

Recentemente tive o prazer de ministrar uma aula num curso intitulado ‘Transformação Digital nos Ambientes de Aprendizagem’, onde conheci diversos educadores que estão justamente nesse momento lidando com as mudanças em seus modelos de negócios. Por isso, conto nesse artigo um pouco dos insights que discutimos.

Antes de mais nada, por que tratar modelos educacionais como ‘negócios’? Simplesmente porque eles os são. E precisamos colocar luz sobre esse assunto para conseguir entender o quanto as mudanças podem (e irão) impactar esse tipo de modelo. Escolas precisam ser auto-sustentáveis. Tem água, luz, internet, folha de pagamento, materiais e tantos outros custos fixos e variáveis que precisam ser considerados.

E como lidar com um ambiente totalmente inesperado? Como lidar com a evasão escolar provocada pela pandemia?

O curso começou com a frase publicada num manual da UNESCO este ano sobre maneiras de lidar com a situação atual: ‘priorizar a colaboração e trabalhar em parcerias; estimular a colaboração multissetorial (educação, saúde, social e comunitária, entre outros); facilitar o aprendizado entre pares (que inclui o compartilhamento de experiências, informações, desafios, ideias, soluções e lições aprendidas); e fortalecer comunidades de prática para professores’.

É isso: facilitar o trabalho em rede, a colaboração, a cocriação e as novas práticas!

E o que a tecnologia e a transformação digital têm a ver com esse cenário? Muita coisa.

O autor David Rogers, em seu livro ‘Transformação Digital’ traz os 5 domínios necessários para essa mudança: Clientes, Competição, Valor, Inovação e Dados. Na figura abaixo, extraída do livro, é possível entender melhor cada um deles:

Durante o curso fizemos alusão a esses 5 domínios e como eles se relacionam com modelos de negócios educacionais. Listo abaixo algumas descobertas e reflexões:

Clientes

Se você é professor ou professora, quem são seus clientes hoje? Como essas pessoas (especialmente crianças e jovens) absorvem sua mensagem? Imagine a quantidade de estímulos que todos nós temos hoje, por meio da mídia e das redes sociais. A reflexão que fica é como adaptar seu conteúdo para que seja, de fato, absorvido e gere interesse e engajamento nos alunos.

Competição

Pensando em ensino online, sua escola não compete apenas com outras escolas, mas sim com diversos sites de cursos online que oferecem milhares de opções e temas. Só para citar alguns exemplos: Udemy, Coursera, Udacity e Alura são plataformas de ensino à distância que criam um ambiente lúdico e imersivo e podem ‘roubar’ a atenção de seus alunos e fazê-los se afastarem de ambientes de ensino mais tradicionais.

Dados

O mundo está em rede e a quantidade de dados gerados é absurda. A IDC (International Data Corporation) prevê que o Global Datasphere (quantidade de dados criados e consumidos no mundo a cada ano) deve chegar a 175 Zettabytes em 2025. Que tipo de dados estamos captando em nossas instituições de ensino? Como podemos usar o poder da rede para amplificar a educação?

Inovação

A inovação no sistema educacional no Brasil passa por prover a conectividade a todos. Alguns professores no curso, por exemplo, relataram que de turmas de 40 alunos, eles percebiam que cerca de apenas 12 participavam online regularmente. Esses faziam parte do grupo que tinha um poder aquisitivo mais elevado que os demais e, muito provavelmente, uma melhor conexão.

Uma pesquisa desse ano feita pela Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) e Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), descobriu que ‘79% dos alunos dizem ter acesso à internet, no entanto, 46% acessam apenas por celular, o que limita tanto o trabalho do professor como a experiência de aprendizagem dos alunos’.

Quando o professor passa algum vídeo mais ‘pesado’ ou algum material no YouTube, muitos alunos simplesmente não conseguem acessar, pois não tem banda larga suficiente ou mesmo não conseguem repor seus créditos no 4G.

Valor

O último domínio de Rogers fala sobre a Proposta de Valor, ou seja, o que sua instituição de ensino entrega para o mercado, para os alunos, para a sociedade. Qual é o papel do educador e como ele é importante na jornada do saber? Ter clareza sobre isso ajuda a lidar com a situação atual, onde todos estamos nos adaptando, e permite que haja uma maior conexão e empatia entre professores e alunos.

Por fim, as escolas do futuro serão sim potencializadas pela tecnologia. Mas a tecnologia deve ser um meio e não um fim em si mesma. Podemos usar os avanços tecnológicos (vídeo-aulas, grupos de trabalho por aplicativo, plataformas online, gamificação, realidade virtual) como ferramentas para prover um ensino de qualidade e que possa, de fato, causar uma transformação positiva no mundo.

E você? Como enxerga a educação do futuro? Comente se tiver alguma dica que possa ajudar educadores a criar novas formas de ensino à distância.

Fontes

https://www.eccnetwork.net/resources/covid-19-education-response-preparing-reopening-schools

https://undime.org.br/noticia/10-09-2020-09-48-pesquisa-revela-que-96-das-redes-municipais-de-educacao-estao-realizando-atividades-nao-presenciais-com-os-alunos-durante-a-pandemia

ROGERS, David L. Transformação digital: repensando o seu negócio para a era digital. Autêntica Business, 2019.

Juliana Burza atua no ecossistema de inovação e tecnologia brasileiro, apoiando empresas a estarem à frente da Transformação Digital. Mentora de negócios, ghostwriter e especialista em personal branding no LinkedIn. Escreve a coluna VIÉS HUMANO NA ERA DIGITAL no portal OCI e é membro do Grupo Mulheres do Brasil (Líder do Comitê Mundo Digital) e associada da I2AI (International Association of Artificial Intelligence).