O OUTRO LADO DAS MARCAS - Fazer ou não fazer desenhos técnicos?

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Eis a questão de muitas empresas que criam vestuário.

Nos textos dos dois últimos meses, tenho chamado atenção à importância do desenho como ferramenta de comunicação em várias fases do processo de criação de um produto: desde um esboço para apresentar as primeiras ideias, até um desenho técnico com dimensões precisas para orientar a produção. Desenhos, de modo geral, podem ser executados a lápis sobre um papel comum ou com um mouse ou caneta direto em algum software específico.

Trouxe este assunto à baila novamente por conta de uma conversa em um grupo de estudo que tenho com ex-alunos, hoje designers de moda atuantes no mercado carioca. Eles foram unânimes em dizer que as empresas em que trabalham (pequenas e médias empresas) não adotam a prática de realizar desenhos técnicos, reforçando a observação que já tinha feito anteriormente, em tom de nota, mas percebi que merece uma reflexão mais acurada.

Em geral, empresas com mais funcionários são aquelas que têm uma produção maior e, para atender às demandas, precisam definir as tarefas de cada profissional com precisão, levando a uma segmentação dos processos. Nesse sentido, os desenhos técnicos servem como ferramenta de comunicação. Devido à complexidade de realizá-los, é comum contratar pessoas – designers ou operadores de software gráfico – somente para realizá-los. No entanto, quanto menor a empresa, com menos funcionários, grande parte da comunicação é feita de modo verbal ou lançando mão de fotografias. Isso aclara um dos porquês de os desenhos técnicos não serem tão usados.

No lugar do desenho técnico, o investimento recai em uma boa base de modelagem. Uma dica para entender o que eu digo: você já deve ter reparado que algumas marcas ‘vestem bem’… e você se torna fiel a ela. Para você, uma nova roupa da mesma marca é muito diferente, pois tem outro tecido, um detalhe na gola, uma cava maior, outra cor etc. Porém, para a empresa, tudo isso nada mais é do que modificações sobre uma base de modelagem já testada e aprovada – e, voilà, temos uma grande novidade!

Para complicar um pouco mais a situação, no ramo de criação do vestuário nem todas as empresas que criam são as que fabricam seus produtos. Muitas vezes contratam não um, mas uma série de fornecedores. Por isso, ao comprarmos produtos semelhantes em uma mesma loja (por exemplo, a mesma camiseta nas cores azul e branca), muitas vezes eles têm tamanhos diferentes. O ideal seria que a própria empresa criadora possuísse sua base de modelagem, terceirizando apenas o fechamento das peças. Mas nem sempre isso acontece. Isso é mais comum com as grandes empresas (pelos motivos já expostos) ou quando várias se unem para conseguir melhores condições de produção. No entanto, grande parte das médias e pequenas acabam usando a modelagem de cada fornecedor e o resultado é que chegam às lojas produtos sem padrão, o que pode vir a acarretar a perda de confiança por parte do cliente, pois isso transmite, nas entrelinhas, um certo amadorismo.

Em um cenário utópico, todas as empresas de criação deveriam ter em sua equipe modelistas e costureiras pilotistas para terem maior controle de qualidade. Mas isso nem sempre é financeiramente possível, delegando ao designer a tarefa de uma transmissão mais precisa de sua ideia, para que ela seja bem produzida. Nesse sentido, o desenho técnico seria a maneira ideal, pois é uma representação vista de frente e de costas do produto (assim tem-se a noção do todo). Feito em escala reduzida a partir da tabela de medidas adotada pela empresa, é caracterizado por ser um desenho linear, geralmente em preto e branco, para evidenciar detalhes do produto que nem sempre são visíveis por fotografias. Embora tenha tantos predicados, o desenho técnico é considerado difícil e trabalhoso.

De fato, grande parte dessa dificuldade deriva das especificidades de um desenho técnico de moda por conta do caráter orgânico da roupa. Tenha em mente que existem duas possibilidades de realizar um desenho técnico: uma, considerando a roupa vestida em uma pessoa e, outra, com a peça fora do corpo, como se estivesse pendurada em um cabide imaginário. Na segunda, a roupa perde a ‘alma’, mas permite que o designer informe ao modelista dados de costura mais precisos. Some-se a isso a necessidade de mostrar visualmente o tipo de caimento do produto. Assim, linhas sinuosas deixam mais claro o que um designer quer, o que é chamado por muitos de ‘croquis técnico’, porque quanto mais sinuoso for, menos técnico o desenho é.

Isso posto, é preciso lembrar o objetivo primeiro do designer de moda que é comunicar sua ideia de modo preciso, não deixando que decisões importantes sejam tomadas por outros profissionais – porque vai ‘aparecer’ no ponto de venda e isso deve ser evitado.

Referência:

MONTEIRO, Gisela Costa Pinheiro. O designer como o responsável por preservar a identidade da marca ao longo da produção das coleções de moda. 2018. 445 p. Tese (Doutorado em Design) – Escola Superior de Desenho Industrial, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.

Gisela Pinheiro Monteiro é mestre e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Design da ESDI/UERJ, na linha de pesquisa ‘História do Design Brasileiro’. É também graduada pela mesma instituição com habilitação em ‘Projeto de Produto e Programação Visual’. Possui formação técnica em Design Gráfico pelo Senai Artes Gráficas do Rio de Janeiro e experiência na prática do Design, tendo sido responsável por diversos projetos para empresas. Atua como docente em diversas instituições do Rio de Janeiro.