COLOCA NA RODA - Setembro acabou, mas o assunto, não. Entre o tabu e a informação responsável: por que falar sobre suicídio na mídia?

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O silenciamento da mídia em relação ao que se entende por ‘temas sensíveis’, tais como o suicídio, é algo cada vez mais questionado. Afinal, de que forma quebrar o tabu e trazer informações responsáveis sobre um problema de saúde pública que atinge pessoas de todas as faixas etárias no mundo inteiro? Não dá para negar que essa é uma questão importante, ainda mais quando ficamos sabendo que, a cada 40 segundos, uma pessoa tira a própria vida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ora, como um dos princípios da mídia é a responsabilidade social, invisibilizar o tema certamente não contribui com a prevenção do suicídio e com a quebra de preconceitos.

Neste contexto, a campanha ‘Setembro Amarelo’, organizada por iniciativas como o Centro de Valorização da Vida (CVV), desperta positivamente a mídia diante da necessidade de se falar sobre o assunto de forma responsável. A iniciativa surgiu em 2015 e, desde então, percebe-se um interesse maior dos veículos em tratar do tema. Esse agendamento e abertura estratégica de pautas, inclusive, está relacionado ao ‘agenda setting’ – quando os veículos ‘resolvem’ trazer à tona os assuntos ‘do momento’.

No entanto, como abordar questões de saúde pública em outras épocas que vão além do calendário temático do ‘Setembro Amarelo’, do ‘Outubro Rosa’ (mês de conscientização quanto ao câncer de mama) e ‘Julho Amarelo’ (da conscientização quanto às hepatites virais e câncer ósseo), por exemplo?

Não deixar que a temática caia no esquecimento é fundamental para desconstruir os tabus, estereótipos e preconceitos que rondam o suicídio. Afinal, não é interessante que esse assunto venha à tona somente quando uma pessoa famosa morre. Aliás, focar no ato em si é algo que pode tomar um caminho sensacionalista e desumano. Por isso, mostrar as alternativas de prevenção e as formas de ajudar uma pessoa nessa situação é o caminho. A própria Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) afirma que 90% dos casos poderiam ser evitados com o diálogo. Portanto, falar sobre suicídio é importante sim, desde que de forma adequada.

Mas por que falar sobre suicídio na imprensa virou um tabu? No século XVII, a publicação do livro ‘Os sofrimentos do jovem Werther’, de Johann Wolfgang von Goethe, trouxe uma problemática sobre como a mídia pode influenciar esse comportamento. No caso, o personagem central da obra tirou a própria vida após uma desilusão amorosa e, na época, houve um aumento expressivo de casos que foram atribuídos à essa obra. Depois disso, psicanalistas criaram a expressão ‘Efeito Werther’ para questionar o papel da mídia diante dessa situação.

Em 2014, a OMS fez uma campanha chamada ‘Prevenir suicídio — um imperativo global’ e uma das estratégias apontadas foi a informação de qualidade sobre o assunto. Ou seja, negligenciar que isso existe é não fornecer apoio e fechar os olhos para um problema real.

Pensando na importância de tocar no assunto, porém, de forma cuidadosa, organizações como a ONU possuem manuais direcionados a profissionais da imprensa que são de grande valor em uma cobertura sobre o tema. São destaques do que NÃO FAZER, segundo a publicação:

  • Realizar generalizações;
  • Usar expressões como ‘epidemia de suicídio’;
  • Usar teorias para justificar o comportamento suicida ou associá-lo às mudanças culturais e problemas sociais;
  • Trazer estatísticas fora de contexto;
  • Noticiar o ato em si, com detalhes e fotos;
  • Glorificar os casos ou ‘glamourizar’ de alguma forma a situação;
  • Atribuir os casos à religiosidade ou falta dela;
  • Não respeitar os familiares das pessoas envolvidas nessa condição;
  • Simplificar o suicídio e associá-lo a uma causa (quando o ato é reflexo de um conjunto de fatores).

Ter empatia, no sentido real da palavra, é algo que deve estar mais do que nunca na veia do profissional que trata deste tema. Focar na prevenção, trazer os serviços de saúde mental disponíveis para auxiliar as pessoas, fornecer informações sobre grupos de apoio, destacar as alternativas que podem evitar o suicídio, são todas estratégias interessantes. É importante também que os jornalistas trabalhem em conjunto com profissionais de saúde, a fim de evitar termos pejorativos, divulgação de informações vagas ou suposições que reforçam algum tipo de preconceito.

No fim, não existe uma receita de bolo de como tratar-se sobre suicídio. Mas é certo que a comunicação tem um papel essencial: trazer informações de prevenção e mostrar que há uma saída. Além do suicídio em si, olhar para a temática da saúde mental com mais cuidado, menos estigma e evitar a exploração sensacionalista das pessoas que sofrem com os transtornos mentais, evitando a banalização dos casos ou tratar de modo equivocado o assunto já é um grande avanço.

Quando a mídia se posiciona diante de uma causa e de um grupo, isso é muito significativo, já que uma das formas de construir o imaginário social em situações de preconceito, desinformação ou banalização é o olhar midiático. A representatividade importa e quanto menos esse tema é negligenciado, maiores as chances das pessoas buscarem ajuda especializada e do preconceito diminuir.

E você, o que acha desse assunto? É de fato um tabu ou deve ser tratado com responsabilidade? Coloca na roda!

Veja também:

– Manual completo da ONU para profissionais de mídia. (https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/67604/WHO_MNH_MBD_00.2_por.pdf;jsessionid=F10A9EF6F736CC6C8FC0D5783A78C71B?sequence=7)

– Cartilha ‘Suicídio’ – informando para prevenir, do Conselho Federal de Medicina (CFM).
(http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14#page/1)

Bruna Martins Oliveira é jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. É autora da monografia ‘O Transtorno Bipolar na perspectiva da mídia: uma análise do Paraná no Ar’. Tem experiência no jornalismo de rádio (Grupo Lumen de Comunicação), além de ter trabalhado como repórter freelancer na Secretaria do Esporte e do Turismo do Paraná e no jornal Gazeta do Povo.

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