A terceira opção é o golpe.

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Trifurcação

No momento que este texto é escrito, o governo Dilma está na marca do pênalti, já em meio ao turbilhão institucional do processo de impeachment.

Como primeira contribuição ao Observatório da Comunicação Institucional, proponho pensar a crise política brasileira sob a perspectiva dos gestores da comunicação, vale dizer, sobre o que é possível observar dos seus elementos institucionais. Profissionais da área necessitam estar atentos à formação da opinião pública. E o foco da reflexão compartilha uma posição receosa ao identificar no radar uma possível terceira alternativa que venha a pipocar magicamente no ambiente político. Nada de PT-PMDB nem de PMDB-PSDB.

Trata-se da velha figura apaziguadora de outrora, a conciliar um país de opiniões políticas polarizadas. Ante um quadro iminente de levar a sociedade a agir muito mais pelas paixões do que pelo positivo uso público da razão. Via de regra, nossa história busca essa figura nos sujeitos de vestes pardas e posições conservadoras, de tom comedido e postura discreta…

Importante notar que os comentários a seguir são fruto de observações desengajadas tanto com o espectro à direita quanto com as tendências à esquerda dos debates. Comenta-se como quem valoriza a força das instituições em um país democrático, respeitadas as regras do seu jogo, sem ignorar, contudo, que o jogo do poder é pesado na experiência civilizatória humana e seus atores são capazes de tudo – vale frisar, tudo! – na sua conquista e manutenção. Que dirá em um país com a importância do Brasil, que é rico e péssimo distribuidor de seus recursos. Os interesses são variados e superlativos, não nos enganemos.

Sem democracia, valores como consentimento, transparência, mutualidade, respeito e diálogo – tão caros no nosso dicionário comunicador – são violados, ignorados, vilipendiados, em geral sob a justificativa de que é preciso fazê-lo para alcançar um bem maior. Nesses casos de exceção, ignoram-se as instituições, as regras, os direitos e impõe-se a vontade de poucos a (supostamente) representar o desejo da maioria.

Fatos e miopias à direita e à esquerda

É fato que a agenda de inclusão social é um dos legados dos governos petistas. Ignorar que uma agenda social ganhou proeminência no histórico recente do país é o tipo de miopia que à direita do espectro se assume, no mínimo sob o manto de um ideário de meritocracia maroto, que toma as exceções vencedoras como a regra. Ao se apoiar nessa perspectiva tola, assume-se a posição de que lutando muito, um sujeito abaixo da linha mínima de subsistência vai ter forças – até biológicas – para transformar sua própria realidade. Um país que quer protagonismo tem que oferecer uma base mínima – pelo maior denominador comum – para todos os seus habitantes. Daí para a frente, é possível falar de mérito. Isso vendando os olhos para nossos traços personalistas, clientelistas e patrimonialistas, entre outros, que ainda nos deixam em termos de mentalidade na casa grande do século XIX. Todos juntos, em diferentes graus e esferas, são fatores determinantes de sucesso de um indivíduo ainda nos tempos de hoje. Mas essa é uma pauta para reflexão futura.

É fato também que as escolhas macro de gestão da ‘coisa pública’ nos levaram a uma estagnação econômica. A miopia à esquerda está em reconhecer que há uma crise e imputá-la à ação golpista dos diversos atores distribuídos na rede política – mercado, mídia, políticos opositores, parcela do judiciário, entre outros – quando o fato é que boa parte da crise está na perda do controle das políticas públicas a partir de um quadro complexo que reúne os interesses do mercado financeiro global, das forças políticas tradicionais no país, do empresariado internacional e local, dos grupos de pressão sociais, econômicos e políticos, dos próprios trabalhadores como capitalistas em fundos de pensão ou sindicalizados, todos eles atores que gravitam o ambiente institucional brasileiro, cada qual representando seus interesses, cujas agendas raramente convergem de forma total. A colcha está sempre curta em alguma parte do sistema de relacionamentos institucionais. É inegável que faltou habilidade política ao governo atual no jogo de trocas dentro desse sistema.

Fatos e miopias acima nos levam a um empate nesse debate. Como negar os avanços sociais? Como ignorar as crises política e econômica? O Fla x Flu das opiniões se traduz nos defensores à esquerda desmerecerem a preocupação econômica dos seus oponentes, que é legítima; nos defensores à direita, por desacreditar a política de inclusão social acreditando que foi ela que provocou o desequilíbrio fiscal. Isso sem contar na perspectiva tosca, de ambos os lados, de que a marcha demográfica não fez a sua parte nas últimas décadas e que os méritos dos governos atuais não são colhidos, em parte, por um continuum dado pelo próprio amadurecimento da pirâmide populacional, que segue seu rumo em grandes linhas e pode sofrer ligeiras mudanças de curso de governos com tendências à direita ou à esquerda, tendo atravessado todos os governos, no mínimo desde os anos 1930.

Ainda assim, cabe apontar fatos que continuam despercebidos (ou habilmente sublimados) por ambos os grupos, esses sim, passíveis de se traduzir numa terceira alternativa de força, com eco na formação da opinião pública, algo nada incomum na cultura latino-americana, bastando olhar para o nosso entorno:

1 – Desencanto com a Política: segue a marcha na formação da opinião coletiva de que todos os políticos se assemelham na forma de pensar e agir. Uma vez conquistado o poder, o jogo muda, restando aos eleitores o jogo de cena da visibilidade midiática. Cujas práticas já estão para lá de manjadas. Isso coloca até mesmo os políticos sérios em um pernicioso ciclo de ceticismo público.

2 – Desencanto com o Estado: em um contexto cuja sensação é de que a vida foi privatizada, o acesso aos serviços públicos torna-se cada vez mais complicado. Nesse item, surpreende o grau de desconhecimento social das políticas públicas, muitas delas avançadas em termos institucionais, mas carentes de comunicação pública de qualidade.

3 – Desencanto com a Sociedade: as polarizações também revelam certo mal-estar com uma divisão de classes mal resolvida no país, movida a mágoas de parte a parte. Isso porque uma classe média tradicional se ressente da promoção da nova classe média com a sensação enviesada de que tal ascensão se deu às custas de maior oneração das classes tradicionais.

4 – Desencanto com a Economia: criou-se um clima de opinião negativo atualmente que saiu do hiperbólico ‘país-potência’ – cujas competições Copa do Mundo e Jogos Olímpicos seriam a cereja do bolo – à velha síndrome de vira-latas, também sob a enviesada perspectiva de que a corrupção é que corroeu o futuro do país, quando ainda há vida e as crises no capitalismo são cíclicas.

5 – Desencanto com a Petrobras: síntese do corolário ladeira abaixo atual, talvez a maior miopia do pacote, a ideia de que a Petrobras saudável faz o país bombar economicamente; e, em crise, afunda o país. Vale ressaltar que todo o segmento de petróleo e energia responde por 13% do PIB – número nada desprezível – mas relativo ante os demais segmentos. Existe vida além da Petrobras…

A leitura de conteúdos distribuídos aqui e ali nos leva a crer que uma terceira opção está no radar. Velhos utópicos à esquerda pedem a intervenção do Exército. Inconformados (ainda) governistas enxergam na convocação de novas eleições alternativa viável para resolver a crise. Uma oposição regozijada carrega um discreto sorriso de canto da boca já dividindo cargos antes mesmo do voto no Senado Federal, embora todos estejam na mesma mira da Operação Lava-Jato. Articulistas com acesso aos grandes meios de comunicação propõem que, junto a um Executivo cercado em escândalos, caminha um legislativo campeão em denúncias de corrupção e outros malfeitos. Enquanto um Judiciário com cada vez menos escrúpulos de preferências partidárias veste a capa de paladino e ascetismo moral. Trata-se da criação de clima de opinião de amplas controvérsias e pouco diálogo, com a amarga sensação de caos no ambiente político. De que forma nossas adolescentes instituições democráticas vão se comportar ante tudo isso?

Anderson Ortiz é coordenador do curso de Relações Públicas da FACHA. Professor da ESPM e pesquisador do PPGC/Uerj.

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