Pensamento de dono. Mas sem ser. Por Gustavo Costa.

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Eu lido com muitos clientes e tenho a possibilidade de conversar com todos os tipos de pessoas, dos mais diferentes cargos, de CEO a faxineiro, e é muito bom ter essa variação, porque você vai construindo um repertório incrível. Cada um tem uma percepção sobre o mesmo tema, o ‘pensamento de dono’. O CEO acredita que está fazendo algo disruptivo e inovador pois, na cabeça dele, tem à disposição todos os funcionários pensando da mesma forma que ele, o que de fato seria muito bom. Já nas funções mais operacionais, mesmo em escritórios, fica uma certa dicotomia, gerando uma confusão entre liberdade e autonomia, com um mal-estar generalizado. Isso porque o pensamento de dono deve vir junto do controle do próprio trabalho, o que nem sempre acontece.

É uma meia-liberdade, pois eu quero que você pense como dono, aja como dono, mas saiba se comportar como funcionário quando necessário. Pode ser que você tenha a possibilidade de escolher qual trabalho fazer, mas não no seu tempo, ou o contrário, você pode escolher quando fazer, mas não o que fazer. Confuso, não?

O interessante é ver alguns confrontos que vão acontecendo, principalmente quando a empresa tem esse conceito muito forte. Tive a oportunidade de lidar com um cliente que se propôs a implantar o pensamento de dono como premissa básica da cultura da empresa. Previ algumas situações de conflito e deixei as soluções reservadas para a hora certa, o que não demorou muito a acontecer.

Em uma reunião, o assistente discordou de um dos gerentes, que soltou a seguinte frase: ‘você não entende disso’. Nem preciso dizer que o caos estava instalado, metade das pessoas que estavam na reunião ficaram com ‘tela azul’ na mente. É claro que o conflito de gerações teve uma forte influência; o assistente tinha 19 anos e o gerente mais de 60. Faltou compreensão de ambas as partes, um por não ter conhecimento suficiente para ‘saber falar’, e o outro por não ter a capacidade de entender. O pior é que o assunto era justamente o ambiente digital e as transformações que estão surgindo.

Alguém de 19 anos é um ‘nativo digital’. Qualquer um com mais de 35 anos teve que se adaptar às novas tecnologias mas, veja bem, não estou julgando a capacidade de uma pessoa mais velha em acessar o universo digital, muito pelo contrário, mas as relações e formas de uso são completamente diferentes, fora o grau de dependência (não vou nem entrar nesse mérito).

Como já tinha previsto que isso poderia acontecer, deixei tudo muito bem preparado para essas emergências. Interrompi o ‘diálogo’ e fiz um exercício que já tinha instruído ao grupo quando começamos a implantar a nova cultura. Trouxe de volta os conceitos que estávamos trabalhando, a forma como esperávamos que cada um recebesse esse impacto e o que faríamos quando houvesse algum estresse desnecessário. O rumo que tomamos foi o de terminar a reunião e tocar o assunto em outro dia, pois o mais importante era não dar razão para ninguém, porque tomar partido só iria piorar a situação; um lado iria se sentir ofendido, desrespeitado e ignorado, e já o outro ficaria com o ‘rei na barriga’ achando que pode tudo… E assim foi feito.

Percebem o quanto um conceito pode interferir na dinâmica do trabalho de uma empresa inteira? Como havia uma preparação, o desfecho resultou em algo bom para ambos e melhor ainda para a empresa, que conseguiu aplicar o pensamento de dono de forma brilhante, mas que exigiu meses de planejamento e preparação.

As empresas estão sempre mudando sua cultura organizacional de acordo com as necessidades de cada época e isso interfere diretamente nas habilidades que elas exigem de seus profissionais.

Conceitualmente é super bacana colocar os colaboradores como protagonistas do seu próprio trabalho, afinal, quem não quer ter a autonomia de poder decidir sobre o que, como e quando fazer algo, né? Obviamente que não são todas as pessoas que se identificam com esse perfil, algumas preferem ter uma linha mais clara do fluxo da operação, mas de forma geral, esse é o conceito perfeito que todo trabalhador gostaria.

Porém, é preciso ter cuidado ao difundir essa cultura em uma empresa. Principalmente se as funções mais gerenciais não estiverem preparadas para ter alguém dando o famoso ‘pitaco’ no seu trabalho a todo instante. Porque ser dono é isso: trazer sempre um olhar diferenciado sobre qualquer aspecto que tenha impacto direto com o trabalho, pensando no lucro, no bem-estar dos funcionários e nas oportunidades que podem surgir, certo? Bom, pelo menos é assim que eu acredito que deveria ser.

Tentar mudar a cultura de qualquer organização é sempre muito trabalhoso, cada pessoa tem uma forma de receber as mudanças, e também resiste de maneira diferente. Agora, o que não pode ser feito, de forma alguma, é difundir esse conceito e não aplicá-lo, porque você vai criar uma legião de inimigos, prontos para te atacar, seja na rádio-peão, nas mídias sociais ou na ‘glassdoor’, porque, como diz o professor Mário Sérgio Cortella, ‘qualquer descompasso entre discurso e prática atingirá a reputação da companhia, dado o grau de informação e a velocidade de difusão que se tem atualmente’ (do livro ‘Por que fazemos o que fazemos?’, de 2016).

Portanto, lembre-se de que reputação vale ouro. E é mais barato mantê-la do que pagar para revertê-la.

Gustavo Costa é relações-públicas e desenvolve trabalhos de comunicação com empresas em São Paulo. Em 2018 ganhou o Prêmio Universitário Aberje com planejamento estratégico para a Sabesp, além de produção científica sobre Ética, Reputação e Posicionamento no Supremo Tribunal Federal sobre a ótica das Relações Públicas, que, em breve, será publicada.

Uma resposta para “Pensamento de dono. Mas sem ser. Por Gustavo Costa.”

  1. Deborah do Carmo Sousa disse:

    Excelente reflexão, as empresas querem senso de dono para trabalhar, apenas, não para fazer escolhas!

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