Fantasmas da comunicação assombram a democracia

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O Observatório da Comunicação Institucional acompanha, desde sua inauguração, com especial atenção, os acontecimentos na área do jornalismo, basicamente por duas razões: não há democracia sem imprensa forte e não há relações públicas eficazes – do ponto de vista do público – sem uma imprensa forte. No Brasil e no resto do mundo temos visto se acentuar a tendência de migração dos jornalistas para outras áreas de atuação, como o marketing e as relações-públicas (veja no final de nossa análise trecho de um artigo publicado no OI).

Quando estudante, ouvi muitos colegas que cursavam o jornalismo dizerem que “trabalhava em assessoria de imprensa quem não tinha ‘bala na agulha’ para se manter nas redações de veículos”. Pouco mais de 20 anos depois, mostra-se uma perigosa tendência de inversão: os melhores jornalistas, seja por falta de emprego ou demissão, busca de melhores salários ou identificação com o trabalho de assessor, estão deixando as redações aos novatos – que aceitam qualquer salário pra ingressar no mercado e ganhar experiência – e aos que teriam dificuldade de se adaptar ao mundo corporativo. Seria como dizer que só os “otários” se sujeitam à miséria paga pelos jornais, por incompetência. E se isso for verdade um dia?

Aquele jornalista “autêntico”, que brigava pela qualidade editorial de cada matéria como se fosse a última, está em extinção. Não apenas o romantismo acabou, mas também a identificação com os propósitos mais nobres do jornalismo, substituída pelo pragmatismo de todo burocrata: fazem o que lhes mandam para não lhes mandem… embora. O importante é o salário, mixuruca, no fim do mês, que se complementa com alguns freelas e outros bicos. Na maioria das profissões é assim, afinal são poucos os privilegiados que podem exercer a opção preferida.

Porém, o jornalismo é uma atividade política por natureza. Os donos de veículos, com raras exceções, sempre estiveram mais preocupados com a manutenção de seus negócios, mas os jornalistas internamente brigavam pelo conteúdo de qualidade, pela verdade dos fatos, se insurgiam contra desmandos em prejuízo do público. Isso está acabando. Por dezenas de motivos, mas um deles é o foco de nossa análise: agora há uma “alternativa”: sempre se pode beliscar ou migrar para um trabalho de assessoria de imprensa, inclusive com vantagem financeira, quando não em dupla função, o que convém bastante aos senhores a que servem. A discussão que nos interessa é indagar se, no futuro, haverá algo parecido com o que chamamos de imprensa, sem o que não haveria para o que assessorar.

O trecho que transcrevemos é parte de um artigo – interessantíssimo – sobre o fim dos fotógrafos profissionais nas redações de jornais impressos. Conforme se lê, quase ninguém notou. O OCI tem sempre chamado atenção para o fato de que o público não sabe que muitos dos sites que oferecem notícias o fazem por meio de máquinas, que vasculham a rede e oferecem informações colhidas de terceiros, sem nenhum jornalista envolvido. E muita gente nem nota. Então, cabe a pergunta: o jornalista está se tornando irrelevante, como já acontece aos fotógrafos? A imprensa será uma atividade cidadã, sem especialistas? Qual é o resultado efetivo da migração de jornalistas para as redações empresariais? As corporações vão eliminar os intermediários e constituírem-se, elas mesmas, na própria imprensa? E, no Brasil, será diferente do resto do mundo?

Um dado relevante para a análise será a repercussão do fim da graduação em Comunicação Social. O MEC recentemente recomendou a constituição de escolas de graduação independentes para as (agora) antigas habilitações da Comunicação. O futuro da profissão será em boa parte determinado pelo grau de interesse em estudar jornalismo, nessa nova arquitetura dos cursos. E havendo um profissional especificamente formado para as assessorias de comunicação, os relações-públicas, em graduação independente, finalmente será observada a legislação em vigor, tão solenemente ignorada até hoje? Restará claro, então, que há profissionais especialistas para cada área e que elas não são nem idênticas nem complementares? Restará nítido o conflito de interesses? Que, por definição, o interesse do público por informação não pode ser uma usado como plataforma comercial, pura e simplesmente?

Essas e outras perguntas estarão no ar, por muitos anos ainda, até que se redefina o campo da comunicação como espaço de atuação profissional. Por enquanto, o que se vê é o crescimento exponencial da comunicação dos negócios e a crise dos negócios de comunicação, ao menos na área de jornalismo. A propaganda ainda tenta se entender com os meios digitais para recuperar sua relevância – e lidar com o ocaso de suas principais plataformas de lançamento no século passado – os jornais e as TVs abertas. E o patinho historicamente feio da trupe, as relações públicas, ganha destaque nesse cenário. Não é contraditório. Para o publicitário Al Ries, estamos entrando na Era das Relações Públicas, porque, para ele, a reputação nunca foi tão importante para as empresas se manterem no mercado e há mais credibilidade se as afirmações são proferidas por terceiros. A dúvida é se esse terceiro será a mídia, como ainda o é, ou se será um compilador eletrônico de informações disponíveis na rede, o que se mostra como tendência. Ou ainda se será o discurso direto, proferido pelas organizações em ambientes próprios, com ares de diálogo aberto, como se mídia fossem. E nem estamos chegando ao caso de empresas de outros setores são também donas de veículos de comunicação, em flagrante conflito de interesses.

O que não se duvida é que as corporações tomaram ainda mais as rédeas da distribuição de informações desde que as empresas jornalísticas abandonaram suas melhores peculiaridades para se tornar tão iguais e eficientes como todas as outras. E está faltando gente qualificada, dentro e fora das redações, disposta a resistir à pressão exercida pela caneta invisível do mercado. A história está sendo escrita por ghost writers. Eles sabem o que estão fazendo. Nós é que não.

“Tão preocupante quando a ameaça de extinção que pesa sobre os repórteres fotográficos é a intensificação da migração de jornalistas profissionais para o marketing. Segundo o escritório de estatísticas sobre empregos nos Estados Unidos, o BLS, o efetivo total de profissionais empregados no marketing cresceu 75% desde 2000, enquanto o de jornalistas caiu 25% e vai baixar ainda mais – chegando a 31%, até 2020. A área de oferta de empregos do site CraigList mostra que em junho passado, na região de Nova York, havia 1.022 vagas para especialistas em marketing, 887 para relações públicas e 198 para atividades relacionadas ao jornalismo.

Essa migração rumo ao marketing mostra que o tipo de informação que passa a ser oferecida ao público está cada vez mais influenciada por interesses comerciais, políticos, religiosos e corporativos. Mais do que nunca, passa a ser essencial separar a informação de interesse social da notícia associada a alguma iniciativa de marketing. Nada contra o marketing, que é uma atividade tão digna quanto o jornalismo, só que não dá para confundir as duas, porque há o risco de induzir os consumidores de informação a tomar decisões equivocadas.”

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/codigoaberto/post/jornais_demitem_fotografos_e_leitores_nao_acusam_queda_de_qualidade

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