Um mapa para encontrar o Ocidente. Por Ana Paula Arendt.

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‘Poetanion autem est insula ad Sefum latus patulusque portus’. Avieno (‘Ora maritima’). Trad.: Mas Poetanion é uma ilha em Sefo ao lado de um vasto porto.

O meu Diretor à época de estudos de diplomacia às vezes insistia ele mesmo em dar aulas, além de nos dirigir a professores e alunos. Eu rezava um terço quando ele começava a lecionar exatamente a mesma aula pela décima vez, para não cometer o pecado de odiá-lo. Queria conseguir chegar em casa com alegria para os meus filhos e dormir em paz com a minha consciência. Sejamos honestos: os sentimentos ruins fazem mal sobretudo a quem os porta e eclodem no terreno fértil da presunção. Foi um hábito útil! Quando o Embaixador Seixas Corrêa foi nomeado para nossa Embaixada junto ao Vaticano foi convidado por aquele Diretor a palestrar à minha turma, e eu tinha o terço fácil na bolsa. Roguei a ele pudesse pedir que abençoasse o Papa Bento XVI aquele instrumento de trabalho, durante a apresentação de suas credenciais. Com muito gosto recebi o gesto inolvidável de atenção dele já em Montevidéu, pela mala diplomática: um terço abençoado pelo Papa.

Mas prossigo no que me fez recordar das aulas daquele saudoso Diretor. No meio de sua exposição ele desafiava, aleatoriamente, qualquer um dos alunos diplomatas a oferecer respostas a uma pergunta por vezes capciosa, por vezes retórica, por vezes irrespondível. Nunca sabíamos. Alguns torciam o nariz exaustos, suponho porque estávamos acostumados a uma ideia equivocada de que o aprendizado era absorver o mundo por meio de asserções e juízos, e não por meio de reações a ele e a seus imprevistos. Tínhamos de fazer uma transição do modo de pensar acadêmico para o modo de agir diplomático. O Diretor repetia pela décima, e duodécima, e vigésima vez que a diplomacia é uma prática, e não uma ciência. Recordava-nos ali da importância do erro. Um artesanato, uma engenhosidade, uma tech-ne; e na melhor das hipóteses, se exitosa, uma arte, poi-é-sis. Jamais uma teoria, e-pis-te-me. Ele falava pausadamente quando queria dar ênfase ao que transmitia ser uma verdade.

Mas a grã-verdade, é verdade, não precisa ser asseverada. O ouvido humano é muito sensível a verdades e dificilmente as esquece. É lógico que hoje sinto saudades. Enquanto revisito estas memórias, é com uma certa doçura que me recordo de um professor tão zeloso a ponto de criar arabescos e ênfases ao redor da verdade evidente que ele nos trazia, para que tal qual crianças, não nos olvidássemos da lição. Pois é como se tivesse acabado de ouvir, fresco na memória, que me recordo do Diretor e amigo ao ler um trecho muito agradável de Camille Paglia. Ela nos conta que ‘(…) a arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível’.

Estes testes de perturbação da paz foram para mim muito úteis, porque a meu ver foram aumentando a nossa resistência à aridez dos ambientes políticos, onde nos defrontamos muitas vezes com posturas e assertivas irracionais, predatórias, incoesas, incompreensíveis e temos de nos esquivar ou bem melhor dar uma direção a elas, em um mundo no qual as aparências têm um notável peso. Inevitável notar que na política há disputas de domínio: a defesa de um território hoje não é mais apenas cartográfica, mas temática. São muitos territórios temáticos em que ganhamos espaço e que pelo Brasil somos chamados a defender. Nada mais natural haver tanto empenho e debate contínuo sobre cada um deles nas mais diversas esferas que existem na realidade. Como lidar com isto? Sem dúvida a arte é necessária. Guardei com cuidado essa verdade que recebi e que partilho.

Eu vinha de um mundo científico, no qual o mérito de um trabalho não se media pela qualidade de reações ou instintos, mas por meio de uma pesquisa meticulosa, cuja autoridade adviria de uma conclusão ou raciocínio que se comprovasse válido e após muitas tentativas empíricas, mas espere: apenas temporariamente válido, porque a ciência é uma atividade de constante evolução do pensamento. Se eu estou sendo muito purista, os mais céticos corrigiriam: cuja autoridade viria de qual grande pesquisador endossa sua pesquisa e de qual grande instituição o reconhece… Mas fato é que uma descoberta é uma descoberta, e todo cientista é obcecado com descobertas como uma mãe é com seus filhos, havendo ou não mérito disso decorrente.

E foi mantendo um pouco desse espírito que sobreviveu às verdades marteladas, buscando respostas a problemas desde um resquício de ponto de vista científico, em que pudesse aplicar tentativas de resolução a um problema e verificar sua eficácia, que fui parar pelas bordas não só da poesia, mas do imenso continente que se oculta detrás das cortinas que se abrem para o violento Atlântico – sim, porque Portugal é um lugar que vai além do território que circunscreve, e a lusofonia não se restringe a uma cultura linguística: é uma ponta da borda da necessidade humana de descoberta. No avião, leio na revista institucional que uma diretora da Nasa pensa parecido, narrando Magalhães e Vasco da Gama como seus grandes ídolos.

E bom, lá estava eu, de volta a Lisboa, de passagem para o trabalho na África, buscando direções para a poesia. No Brasil não encontro? A verdade é que o Brasil já sou eu, e alimentar-se de mim mesma seria antropofagia, autocanibalismo, ser eu de mim mesma é algo que já sou obrigada a fazer normalmente. E vejamos em que período convulsionado estávamos, naquelas eleições brasileiras do mês passado: guerras de realidade por todos os lados. Nem poesia nem ciência sobrevivem muito tempo nesse solo árido da demência que acomete temporariamente as pessoas, lados empenhados em sabotar realidades políticas adversárias no calor do momento de uma eleição. Sim, eu fui buscar novos ares e aliás me meti a também chamar outros amigos, para propor um exercício mais ousado de exploração e desbravamento, de buscar direções e inspirações também na francofonia e na história dos povos que foram se acomodando sob a língua que nos une. Portugal sempre me traz lindas respostas.

Também faz parte do dever do poeta, se é que tem algum dever (certamente é dever do diplomata) ir atrás de alimento fora de si, caçar subsídios em parte outra para gloriosamente retornar com um imenso búfalo nas costas, ou pelo menos um apanhado de perdizes apetitosas para os meus conterrâneos, ainda que seja na forma de histórias e de experiências. O dever não é uma tarefa, como tantos parecem confundir hoje, face a ‘metas’ e ‘objetivos’ que precisam ser listados e obliterados nos relatórios em toda parte. Por dever me refiro ao múnus. Aliás, leio nestes dias aquecidos que há reclamações de um suposto vazio cultural, de falta de disposição em defender um sentimento ocidental no amplo e plural continente europeu.. Talvez essa fosse a palavra que se busque, ‘múnus’? Pois o sentimento que se busca e do qual, me parece, sente falta toda uma população brasileira, é o de que é preciso ir além, explorar e descobrir de novo. É dever vez ou outra cobrado nos monastérios, conventos e convenções, o múnus de defender os valores de dignidade humana, uma vez chamados os vocacionados para esse exercício. E como não buscar esse múnus no mais ocidental de todos os países da Europa, ponta da flecha que desponta ao Atlântico?

Tentando ser lusa e, portanto, partilhando de um certo múnus explorador, contagiada talvez do sentimento de que precisamos conferir valor a nossa herança ocidental de pluralidade, achei muita coisa. Tive a oportunidade de visitar o Presidente da ilustre Academia de Ciências e Classe de Letras de Lisboa e conhecer um projeto de tecnologia humana mais avançada que já vi: a mulher mais linda e doce, sua esposa, Maria. A delicadeza dela em apoiá-lo para cumprir com a sua intensa agenda intelectual, sem querer aparecer de modo algum, chamou-me a atenção para o fato de que talvez seja essa a maior tecnologia que logramos desenvolver no ocidente, o amor. Afinal era o tema que me havia trazido ao lançamento do meu livro e ao debate sobre os rumos da poesia lusófona, que aconteceu mês passado, o amor entre um homem e uma mulher. O epitalâmio se chama As veneráveis virtudes do homem, e é narrado por uma mulher. Envolvida pela ideia de enredar bodas, D. Maria descreve o amor a dois enquanto me serve um vinho do Porto: um esforço contínuo e diário, como o crochê. Mas que eu não me enganasse nem por um minuto de que essa conclusão sobre a importância do amor na vida teria sido obtida com menor rigor científico: Dra. Maria é uma geneticista que se mudou e se formou no Porto, a fim de que o namoro não interferisse nos estudos, em uma época em que raramente mulheres buscavam carreira científica. Hoje se tornou uma intelectual que dialoga com Marco Lucchesi. As suas opiniões e reações às de Dr. Anselmo me encantaram, porque a todo momento ela mediava a sua imensa capacidade intelectual para que ganhasse o propósito e intento necessário a fim de cumprir uma jornada de significado para quem o ouviria. E já demonstrando toda a verve lusa que os anima, tendo ouvido ser eu uma rondoniense, foi um gosto ouvir deles o teor mais valioso da política de Marechal Rondon, ao brandir bandeiras e desbravar as incógnitas terras indígenas: dialogar sempre, se morrer preciso, matar jamais…

Tive a felicidade de reencontrar um antigo professor de linguagem diplomática nesse debate sobre rumos da poesia lusófona, na Livraria Ferin, paraninfo em minha formatura, que foi posteriormente a meu ver dos melhores Diretores do Instituto Rio Branco, pois era academicamente ativo e publicava sobre o tema de política externa. Hoje é nosso Embaixador junto à CPLP. Esse encontro também me fez concluir que o amor é a tecnologia insuperável nos propala a dizer coisas novas e de modo vivo, a fonte inesgotável de regeneração cultural que nos confere a coesão necessária com a herança de conhecimento que recebemos das gerações anteriores. Afinal, foi com um exemplar de bolso dos Lusíadas, de um autor que inventou um amor que ainda não saiu de moda, e não com um guia de turismo, que adentrei não só fisicamente o território luso, mas uma parte de minha alma pela qual Portugal responde, para encontrar nesses amigos a razão de alimentar o sentimento poético.

E o poeta Fred Maia, brasileiro que também participou do debate, fazia chover sobre mim todo o conhecimento que ele absorveu de seu amor a Portugal, enquanto caminhávamos pela cidade de Lisboa. Levou-me pelas ruas estreitas do Rossio até o local onde Camões cedeu à provocação em uma briga e foi preso. Suponho mal sabe Fred Maia o quanto conheço dessa ventura. Fizemos foto. Afinal não era só o Presidente da Academia que guardava o tesouro dos detalhes de vida com que se produziu uma obra tão sensível como a de Camões. Então me conduziu a um pátio de piso espelhado, antigo palácio mouro rebuscado de infinitos detalhes, com chapelaria e museu gastronômico do Alentejo, aos restaurantes tradicionais movimentados em que vão os portugueses, levou-me para conhecer o legendário Príncipe de Calhariz. E que rumos poderiam tomar a poesia lusófona? Tendo perscrutado caminhos junto a esses dois grandes cientistas, a um valoroso poeta brasileiro e um saudoso professor, provado guloseimas, folheado alfarrábios, mapas e livros pelas bibliotecas, livrarias e antiquários… Notei que o papel é francês, o azulejo é mouro, a alheira é judia e o tempero é da Ásia… Busquei referências, sobretudo anteriores ao século X, sobre a formação dessa alma de Portugal que tanto inspira, e impossível não fazer tombar a impressão de que o ocidentalismo poderá algum dia se reduzir aos nacionalismos que rapidamente transitaram no século XX e deixaram enorme rastro de destruição.

É que ao abrir vagarosamente um livro, notar sua costura, o tamanho de seu papel, reaprender a experiência de ler devagar, com gente, acabei descobrindo outro escritor valioso, o da Ora Marítima, poema do século IV do autor latino Avieno. Pois vejam que o país mais ocidental da Europa resultou da colisão e da trama de pelo menos 17 povos, e Avieno já havia identificado os estrímnios, cempsos, sefes, draganos, lígures, cinetes… Pena não falar dos alanos, de quem descendo, pois muito buscava saber como se converteram ao catolicismo naquele século em que Avieno visitava a região. Não achei muitos detalhes sobre os alanos, nem da tradição de alterar o sobrenome de minha família, Alencar, em tempos de posicionamento político, que li certa vez ter acontecido na guerra anglo-espanhola, quando defenderam a decisão de Elizabeth I de não casar com o primo, Filipe II; e também em outros momentos, como quando da Confederação do Equador no Brasil, e ao sobrenome se agregou algum nativismo toponímico com o nome Araripe.  Mas é difícil deter-se apenas a uma curiosidade familiar vendo então o trânsito dos lusos, mouros, judeus, celtas, galegos, todos se penduraram ali naquela ponta a partir do qual se abre o oceano. E não é que, se abro minha edição de bolso dos Lusíadas, observo no prefácio do Dr. José Paulo Cavalcanti Filho ser Dinamene uma chinesa? A ela Camões teria dirigido o Soneto 48, após o naufrágio de 1558 no rio Mekong, na Tailândia, nos seus versos “Alma minha, gentil, que te partiste/Tão cedo desta vida descontente”… Pois então uma chinesa foi quem teria inspirado, na qualidade de nereida, na Tailândia, o sentimento que resultou no poema mais ocidental do país mais ao Ocidente que temos. Fato é que o sentimento não pertence exclusivamente ao poeta, mas também aos autores do sentimento de um poeta.

Ao pisar e ouvir os estalos no assoalho da Biblioteca Municipal Camões, cujo cheiro recorda a biblioteca que eu frequentava na infância, abro também um dos livros com que me presenteou o Presidente da Academia. O trabalho de Dr. Artur Anselmo sobre a história das mentalidades é notável, e me encontro lendo sua pesquisa da história seiscentista, sobre a qual se debruçou António Sérgio na década de 1920, em que disserta sobre o ‘espectáculo do estiolamento da mentalidade portuguesa’ que, segundo ele, teria resultado em ‘três séculos de um viver sem alma’. António Sergio reclamou que nesse tempo, a cultura autêntica, a cultura crítica, não imperaria ainda em Portugal, reclamando em ensaio constatar em seu país um ‘Reino Cadaveroso’, um ‘Reino da Estupidez’. Talvez o encontro com essa pesquisa não tenha sido fortuito: o clima presente no Brasil deste momento parece ressonar essas páginas inconformadas, uma sede de cidadãos que pudessem representar avanços na forma de grandes obras ou descobertas memoráveis.

Certas verdades para serem ditas precisam ser ditas apenas respeito de si mesmo: se bem que, em Rondônia, minha terra natal, se você precisar dizer que é inteligente, significa que você não é. Mas talvez para uma leitura dos aspectos negativos da realidade, para o oposto do que se degenera em vaidade, essa perspectiva seja válida. Sabemos que os paulistas falam muito mal de sua cidade, mas riem sarcasticamente daqueles paraibanos e baianos que ousem fazer o mesmo. Também a respeito de si aprendi – e constantemente me lembro, quando me equivoco – que a polidez reza se levar em conta apenas o que de si mesmo se encontre de defeito, ao invés do defeito que se encontra no outro, sobretudo para prevenir desafetos e sensibilidades. Estes sim, parecem-me, são verdadeiras travas na visão dos caminhos plausíveis que podemos encontrar pela frente. É com muita atenção que tenho lido sobre as pesquisas de Dr. Anselmo referente ao humanismo português e em próxima ocasião espero poder partilhar reflexões sobre o assunto.

Avieno estaria certamente abalado face a tudo isto que resulta em sentimento de ter chegado a lugar nenhum, parece-me. Ele fez mapa belíssimo do que era à época de Roma o ocidente do ocidente, e nada avançamos? Quando o acadêmico José Cardim Ribeiro se propõe a tentar identificar onde fica realmente a ilha Poetanion num estudo paleoetnográfico, a ilha descrita por Avieno em epígrafe, e cogita ser em frente a Setúbal, visita vários artigos e pesquisas, reclamando da natural subjetividade com que o poeta latino descreve as paisagens em versos. Penso portanto se não estaríamos buscando caminhos para chegar a soluções que não aliviarão nosso cansaço e a um destino em que não temos encontrado motivação. A arte tem o dever de juntar o ideal ao real. Afinal, um caminho se confunde com as nossas impressões pessoais e surge das imperfeições que o mundo impôs às curvas, depressões, promontórios e acidentes geográficos, que enriquecem o clima a nosso redor com névoas, memórias e vegetações espessas, que nos fazem imaginar e dar nomes novos às coisas…

Evidente, lendo as linhas do mapa do Ocidente que Avieno compôs em versos, que ele buscava registrar enquanto viajava e explorava não apenas localizações, mas impressões, lugares onde era possível contemplar vistas que lhe pareciam dignas de revisitar na memória e de registrar na sua experiência. Descreveu com isso algo que nos chegou desde o Século IV, a paisagem da estrimínia, do mais ocidental lugar em que acabava o que julgavam ser naquele tempo a Terra e onde se abria o vasto desconhecido. Talvez Avieno tivesse feito melhor se também houvesse fielmente registrado as distâncias com seu compasso em um mapa. Quem sabe não o fez, e perdeu-se encostado em alguma estante de posto militar romano? Contudo sobreviveu o mapa de seu verso. Fiel conclusão do debate sobre rumos da poesia lusófona que tivemos: um poema dificilmente terá o mesmo efeito em uma pessoa do que terá em outra, mas ainda assim será um poema. Matéria do sonho que nos orienta.

Encontraremos caminhos que nos despertem efeitos semelhantes, que nos levem a descobrir a identidade que nos reflete, um sentimento de pertencer a digna cultura, a glória de descoberta obtida da perseverança de um intuito sincero? Talvez a ilha Poetanion geograficamente já não mais exista, mas a ilha do Poeta meio ao marasmo nos deixe sempre muito próximos de um vasto porto.

Tendo a ser otimista, pois nossa língua portuguesa é vasta como o oceano, rica em palavras que encerram tesouros de conhecimento, histórias de várias partes, sentimentos convergidos e originados de povos diversos. A vida é difícil, muitas vezes cheia de lacunas, mas sim, um poema em nossa língua nos deixa perto desse porto digno de registro, a amizade, afeto e amor que nos permite encontrar sentido, ainda que seja para seguir cada qual seu rumo.

Soneto 166 (1598)

Luís Vaz de Camões

Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,
Têm do confuso mundo o regimento.

Effeitos mil revolve o pensamento,
E não sabe a que causa se reporte:
Mas sabe que o que é mais que vida, e norte,
Não se alcança de humano entendimento.

Doctos varões darão razões subidas;
Mas são as experiências mais provadas:
E portanto é melhor ter muito visto.

Cousas há aí que passam sem ser cridas:
E cousas cridas ha hi sem ser passadas.
Mas o melhor de tudo é crer em Christo.

N. B.: A numeração do soneto encontrado no volume em www.dominiopublico.gov.br destoa da numeração do volume de Sonetos Completos de 1843, CCXXXVI.

Ana Paula Arendt escreve na coluna ‘Terra à vista’ – mensalmente – sobre temas de interface com a cultura lusófona. Correio eletrônico: contato.anapaulaarendt@gmail.com

Uma resposta para “Um mapa para encontrar o Ocidente. Por Ana Paula Arendt.”

  1. Vânia L. A. de Barros Falcão disse:

    Texto elegante e instigante. Foi um prazer lê-lo.

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