Os bons humores do Mediterrâneo. Por Ana Paula Arendt.

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Os franceses denominam ‘villégiature’ e os italianos, ‘villeggiare’, a prática de visitar o campo durante a estação amena para uma estadia de férias. Retornando à labuta no continente africano, reservei alguns últimos dias do recesso para flanar pelo Mediterrâneo, numa rota pinga-pinga de Paris ao interior da Espanha, para visitar minha sobrinha. Avignon, para minha surpresa, sedia o Festival de Teatro mais conhecido do mundo, que leva o nome da cidade. Sendo uma escritora incipiente em visita ao refúgio dos Papas, foi assim por coincidência que fiquei sabendo. São milhares de turistas para assistir a cerca de 1.400 espetáculos de atores e companhias, vindas de todo o mundo francófono! Folhetos distribuídos pelos próprios protagonistas nas ruas, cartazes dos jornais de circulação nacional apreciando este ou aquele enredo. Atores fantasiados apressados pelas calçadas, cantores de ópera, gueixas em fila indiana; e até mesmo um espetáculo sobre o vinho, no qual era servido em suas três variações, branco, rosé e tinto, para degustação à plateia. Tive a sorte de ser convidada pelo protagonista do monólogo, o ator Julien Barret. Para ele preparo um texto inspirado em meu livro mais recente, sobre as vinhas na Nova Roma, como nós, candangos, gostamos de chamar orgulhosamente Brasília.

A poesia e o teatro transcendem fronteiras, línguas. Nada mais agradável que tentar encontrar correspondentes para sentimentos universais, ou mesmo típicos de uma localidade, e que por essa mesma razão se tornam um fenômeno curioso a quem vem de outra parte. Passando por aquela região notei que se dão dois ou três beijos, ou um leve abraço para se cumprimentar ou agradecer a alguém. Aquela brasileira encrustada em solo nacional, dificilmente afeita a saudar algo estrangeiro como superior, estava acostumada a passar em trânsito para a África apenas por capitais, onde ser ‘blasé’ é sinônimo de elegância e ignorar, uma declaração de amor. Pois ali, naquela região provençal, tão estereotipada nos itens decorativos das lojas de departamentos brasileiras, descobri esses modos dos provençais muito parecidos com os brasileiros e com os romanos. Nem há tantos arabescos, nem tudo cheira a lavanda, nem todas as paredes são ocre e nem todo móvel é branco e ornado com flor-de-lis, como nos vendem os arquitetos.

Fui conduzida pelo Sr. Pascal, um parisiense estabelecido há algumas décadas entre os muros medievais de Avignon, especialista em música francesa e da Provença, até uma livraria que guarda os grandes nomes, meio a um labirinto deliciosamente calçado com seixos. As casas e as ruas são todas feitas com pedras encontradas nas montanhas e às margens do Rhône. E ali estavam, bem fáceis, as referências a André du Pré, Marie Gasquet, Alphonse Daudet, Théodore Aubanel… Encantou-me a língua provençal, ao abrir o Poème du Rhône. Essa obra de Frédéric Mistral o fez merecer, junto com Mireille, o prêmio Nobel de Literatura em 1904. Dizem que ele escreveu com a mão esquerda em provençal, e com a mão direita em francês corrente. No poema o rio parece falar ele mesmo de sua vida com os habitantes, e suspeito que também o Monte Ventoux tenha lhe soprado palavras. Nada como ler o clássico de frente para o próprio rio, desfrutando da mesma vista esplendorosa do autor, desde o jardim do Palais des Papes, é o que penso. No prefácio, um crítico tenta classificar sua obra como pertencente a um período de literário de transição. Transição entre o quê? E entre quem? Tenho temor dos intelectuais que constróem discursos sobre a obra de uma pessoa reduzindo sua importância a pertencer ou não a um movimento. Parece desnecessário, sobretudo quando o autor cria um mundo próprio, cheio de nuances e de particularidades.

Desfrutei do ânimo alegre de seus versos, e descobri que, conforme os historiadores, a Provença, apesar de parte do Reino da França desde 1482, deu as costas para Paris, onde eram os gascões e os occitanos criticados pelo suposto exagero e afetação; preferiram dar de ombros e se abrir a um horizonte mágico, o Mediterrâneo. O Sr. Pierre Porché, dono de um antiquário em Marselha que iniciou suas atividades em 1810, muito bem humorado me perguntou o que fazia uma brasileira ali, procurando uma esfera armilar, mapas antigos da África francófona e da América do Sul. Uma boa biblioteca não merece uma esfera armilar? Ora essas, se Marselha escolheu então dar as costas para o Reino da França e olhar para o Mediterrâneo, Sr. Porché, como não estará mirando no mistério que repousa imediatamente após as duas colunas de Hércules (Gibraltar): o mistério do Atlântico, a zona de soldadura entre a colonial Europa, a étnica África e a exótica América do Sul… Eis que estava ali pronta para ser cativada por aquela cidade esta brasileira; e eis que ele e outros cidadãos pareceram muito dados sob o clima estival de Marselha no verão, onde mesmo para uma cética como eu, ainda é possível dançar com bérberes, conversar com marinheiros e fugir de piratas perambulando e procurando conversa pelo velho porto. Tive a alegria de navegar uma fragata que transportava cerâmicas no início do século XX, de quatro velas, e também de experimentar as correntes de água quente que se misturam às frias nesta época naquele mar de cor entre o azul petróleo e o verde esmeralda. Crianças pulavam dos flancos das Calanques. Felizmente não apenas obtive material suficiente para compor uma seção especial de poesia e de literatura dedicada àquela região, para o próximo número da Revista Itapuan, como quase tive uma overdose de cultura, durante poucos dias circulando por aquelas paragens.

Aquela província romana de memória gloriosa, Massalia, fundada 600 anos antes de Cristo por Tarquínio, uma urbe de alma própria e de rotina emancipada, teve suas disputas com os catalães, por dispor de muitos recursos advindos do comércio, hoje parte de um passado que gostam de contar. Por essa razão receberam, ainda que não tivessem pedido, proteção da França, da qual muito duvidaram, conforme dizem os pescadores, ao explicar as origens do Château d’If. O historiador do Mediterrâneo Bouyala d’Arnaud conta que suas margens marmorizadas e suas paisagens espirituosas suscitariam um temperamento de bom senso e até mesmo de audácia. As casas de uma velha cidade revelariam a alma de seus construtores, e inscreveriam sob o sol da ‘mátria’ a pequena história que se insere, por sua vez, na grande história da ‘pátria’. E assim, assimilando essa audácia marselhesa ao viajar sozinha, fiz amizade com essas antigas construções, enviei postais a meus filhos e caminhei manuseando o Guia Misterioso da Provença, que traz em suas páginas registros de todo tipo de causo. Praças nas quais os provençais julgam haver morado dragões, santos desconhecidos do rol da Igreja, fontes e sortilégios de cura… Em Châteuneuf-du-Pape, havia cartazes do Festival Medieval de agosto, e as vinhas crescem sem irrigação: é a falta de água que faz com que a uva grenache ganhe o seu aspecto luminoso e sabor único. Quem diria que tao fabuloso vinho vem de um arbusto tão baixinho, de suas uvas pequeninas e de temperamento forte? Transcorrendo por Avignon, Marselha, Montpellier, Nîmes e Barcelona, alcancei a imagem rarefeita do Festival da Lavanda de Guadalajara e de Zaragoza, onde todo ano se realizam concertos ao pôr-do-sol nas plantações perfumadas de lavanda e lavandinha, local lilás de acomodação da plateia. Nas proximidades um tarragonês me convidou sem muitas palavras a experimentar no quintal de seu filho os tipos de pêssego e ameixa que não poderia imaginar, e a contemplar as nogueiras, amendoeiras e os olivais com seu aroma fresco… E ainda resistia ao calor insuportável dos dias quentes uma velha e imensa parreira, que sozinha produziria 50 litros de vinho por ano, cujo mosto o mesmo espanhol prepara. Suas palavras sábias: a idade de uma terra é a idade da história que se transcorreu ali. É um bom lugar para constatar desde um tempo arcano, anterior aos primeiros séculos, que o Mediterrâneo sopra e rutila nas folhas daquelas árvores.

As lojas de material para escritores se encontram no coração da praça do relógio, em Avignon, no passeio de Marselha e, em Barcelona, nas ruas onde as pessoas transitam. Ali não faltam praças com livreiros, cartões especiais, tinteiro nem cera para escrever e selar cartas a um amor não correspondido. Boa parte das igrejas católicas foi secularizada, ostenta dizeres republicanos e hoje tem finalidade turística: isso me chocou. As pessoas não sabem quais são os endereços e locais de missa, ainda que ouçam os sinos chamando, no templo vizinho; havia raros peregrinos, e os mesmos moradores locais iam à missa em horários e paróquias diferentes todo mesmo santo dia…

Mas o velho Beauvau ofereceu-me um drinque de imenso frescor inspirado em Chopin, seu residente há dois séculos para esquecer disso. Se faltava inspiração a um título: a Gallimard oferecia nas papelarias cadernetas em branco, sugerindo vários. Em Nîmes, no antigo Hotel du Midi, se ostentava a placa comemorativa aos 80 anos de um clássico autor francês: ‘aqui Apollinaire amou durante uma semana Madame Lou, quem lhe inspirou a produzir sua obra imortal…’. Na descida de Notre Dame de la Garde, em Marselha, registros da passagem do Nobel Mistral, devoto da santa, e preservada impecável a casa de Paul Valéry, ao lado de monumento de homenagem a uma heroína nacional feminista, Berthie Albrecht. Em Gigondas, todas as semanas contos e canções locais regados a vinho na praça, onde se estendem as longas mesas perfiladas, nas quais os turistas são convidados a puxar conversa uns com os outros. E em cada cidade há uma ‘Maison de Poésie’ onde se reúnem em matinais e em programações os poetas, ao lado de uma imensa e memorável figueira, de teatros com citações eternas de Malraux nas paredes…
E não se pode reclamar de experimentar a transição do foie gras, do confit de canard nem da bouilabaisse para o jamón serrano com olivas frescas, nem da diversidade de vinhos, de queijos e de azeites… No Brasil, esses pratos criados no coração da provença são infelizmente caros e servidos apenas sofisticadamente em restaurantes impeditivos, o que contrasta com a agradável sensação de prová-los em uma calçada, tendo como opção de acompanhamento pão, tomate e batatas-fritas. Já nas capitais brasileiras, as papelarias se escondem no subsolo de serviços de um shopping, e os sebos também são relegados a espaços deteriorados, com livros em terrível estado. Para visitar o paradeiro que inspirou grandes nomes que ainda têm suas residências preservadas, como Thomaz Antonio Gonzaga, Guimarães Rosa ou Cândido Portinari, é preciso planejar uma viagem, assistir a longas e enfadonhas apresentações de suas vidas, e com isso se perde o elemento fortuito do qual é feito a inspiração. Talvez sejam os excessos de uma visão governamental sobre o que deve ser imaginado, transformando a cultura em um serviço, em um produto?

Mas ali na Provença a alma desses escritores paira sobre a cidade, nas suas ruas, caminhos e edifícios. Para quem vem d’além-mar, do ultramar, essa cultura romana elegante da descoberta contrasta. Ela parece subsistir oblíqua naquelas bordas do Mediterrâneo, sob os escombros preservados dos templos antigos e nos festivais de colheita, na celebração dos versos e das canções típicas, na visão de pequeninas cidades ornando os montes, na persistência da arte que faz distintos vinhos e azeites, na farandoula em que se dão as mãos os cidadãos dos pequenos povoados para dançar, nos livreiros de rua exigentes, que encapam os livros usados, e nas celebrações de escritores que ali viveram. É uma experiência fustigante e formidável. Na Provença se caminha entre autores fáceis nas estantes e se desfruta de perfumes e livros para carregar consigo… Fosse eu uma bonne vivant, ou corajosa como Vinicius de Moraes, teria encaminhado telegrama ao Itamaraty sobre premência de imersão cultural e chegado em setembro até Óbidos, onde sei agora que se realiza um Festival Literário Internacional. Mas hoje não seria possível fazer isso sem sofrer um processo administrativo. Conformada em meu retorno, contentei-me ao trem, quando surgem os versos, quando os amantes que se impõem pelos olhares anunciam ocasiões… Nesses trajetos se pode devanear sobre a musa que levou Roland Barthes a escrever tão decididamente os Fragmentos de um discurso amoroso… Em qual beira de cidade poderiam ter se beijado o francês Albert Camus e a espanhola Maria Casarès, diante de um por-do-sol após longa ausência. Nos festivais de rua, nos vinhedos e campos de lavanda, vislumbram-se na realidade os cenários que bem poderiam ter inspirado Shakespeare a escrever sobre os sonhos de uma noite de verão, ou que simplesmente nos abrem o apetite para reler seu livro.

Essas sequências de paisagens urbanas e campestres sem fim ou início são raras ou inexistentes no continente americano, onde as distâncias são mais consideráveis e a produção dos cereais deve-se aos imensos latifundiários, ao redor dos quais há poucas aglomerações urbanas de médio porte. Talvez percorrendo o estado de Minas Gerais e São Paulo, o que apenas se pode fazer normalmente de carro ou ônibus, se leve o mesmo tempo que se toma em uma rota Paris-Marselha-Barcelona-Óbidos… Mas certamente não se encontrará em rotas temáticas pré-moldadas, nas quais se isolam os turistas, uma tão grande diversidade de romances, elementos, cozinhas, aromas, livros, nem tantas casas de escritores e artistas, nem um ímpeto de auto-preservação cultural em espaços que sejam acessíveis ao cidadão comum, parte de seu quotidiano. A inspiração que fornece o Mediterrâneo é de sensações nas quais o corpo necessariamente é imerso. Já nas estradas brasileiras, a memória e a abstração parecem ser necessárias.

No Brasil, tampouco se tem o hábito de almoçar ou jantar fora todos os dias em uma mesa na calçada, em um bistrô ou em um café, como referência de prazer de viver e maneira de encontro, nem mesmo para meramente observar o movimento, captar momentos; aliás, em se tratando de meu gênero, basta que uma mulher fique na janela para ganhar status de namoradeira… Como chamam os brasileiros as mulheres que ficam à toa, então, nos bares? Prefiro não dizer. Não há placas sinalizando o prato especial do dia nem o vinho da casa para desfrutar, mas buffets nos quais os funcionários administrativos se enfileiram e se amontoam, condenados somos a ingerir mecanicamente o mesmo alimento de ontem. Os cafés e espaços literários sem dúvida existem e subsistem em Brasília: mas eles pertencem infelizmente ainda a um nicho, têm preferências políticas muito definidas e, suponho, têm medo de se popularizar, pois acham que com isso perderão seu charme. E há clima para escrever e se inspirar no modelo de debates entre palestrante e plateia das livrarias, que substituiu os salões e bares nos quais os poetas escreviam há séculos?

A verdade é que a cultura lusa envelheceu no Brasil e seus aspectos burocráticos recrudesceram: cada pessoa parece ter deixado de ocupar e desfrutar o espaço urbano do qual é titular e se retraiu numa fórmula universal utilitarista das grandes metrópoles. Problema semelhante vivi em Paris: tendo chegado em um domingo ao tradicional Chien qui fume, para beliscar antes de me hospedar em um hotel boutique na região do fórum, notei no cardápio que o horário de fechamento do restaurante era uma da manhã. No cardápio, curiosamente constava o dono como ‘um notívago’. Era meia noite e tive de comer às pressas, antes de ser expulsa. Chegando ao hotel, a surpresa: não havia vagas e o mâitre não fez questão de acomodar-me em algum canto, ou com algum colega; pois já estavam todos dormindo e as reservas devem ser feitas por meio dos sistemas ‘.com’. Ora essas, então por que estaria ali, se deveria buscar um hotel que tivesse uma bandeira? Como pode um poeta iniciante, porém digno, escrever em ambientes esterilizados? Talvez eu tivesse feito melhor em perambular por Montevidéu, onde raramente se dorme no verão, fosse aquele meu destino em dias de trânsito. Mas eu não poderia jamais reclamar da Cidade Luz, pois de frente à pseudo-estalagem, convencida de que é um hotel boutique, agonizava ébrio na calçada nitidamente o homem mais bonito de Paris, resposta do universo a meu infortúnio. Tive o privilégio de reconduzi-lo à sua casa, como uma benfeitoria, após constatar em sua identidade que não se tratava de Richard Madden, e ir pernoitar no aeroporto.

Em Brasília, a vida noturna parece estar igualmente prescindindo de movimento. Pois é preciso obter autorização da administração para colocar mesas e cadeiras nas calçadas; não se pode ficar à toa sem ser incomodado. E para haver música, é preciso haver um palco e autorização, igualmente, o que geralmente fazem as churrascarias, dos quais fogem as pessoas que gostam de cultura, dada a qualidade inferior desses espetáculos de som excessivo. Até mesmo os moradores da super-quadra 213 Sul, notadamente demandantes de uma vida cultural mais intensa, por ser uma quadra onde residem os diplomatas, orgulham-se de ter contribuído para encerrar as atividades de um estabelecimento que não respeitava o limite de 22h para as apresentações musicais. Nos bares brasilienses os garçons raramente se mostram atraentes, não deixam bilhetes de amor, nem urgem ser convidados após o expediente, que em geral termina antes de se encerrar um jantar na casa dos avós. Tudo isso um grande contraste com essas cidades do Mediterrâneo, onde a vida é informal, intensa e exuberante. Ironicamente a classe média de Brasília recorre a essas cidades, nas quais floresce a completa liberdade que tanto criticam, para considerar ter vivido férias memoráveis.

Faz-me pensar se faltam ao Brasil os excelentes espíritos e notáveis perturbadores do rebanho que andavam pelas ruas de Marselha e de Aix-en-Provence, alguém como Mirabeau, franco-maçons, duques, baronesas e comerciantes extravagantes de sua época, aos quais os pequenos comércios e restaurantes buscavam agradar para merecer os ares de sua presença. Com isso atraíam um volume de negócios suficiente, decorrente da entourage de que se serviam essas figuras. Mesmo da prisão, no forte Saint-Jean, há até hoje registro de que os Bourbon causavam um certo frisson. Em Marselha, as grandes discussões das autoridades públicas do passado giravam em torno de como propiciar melhoras aos passeios, esforço cujo resultado colhem hoje. Ali as ruas mostram que as dinastias dos homens e mulheres públicas se renovavam, e a eles continuou recorrendo o povo menos instruído em suas pequenas disputas, por seus juízos equilibrados e frases de efeito. O Rio de Janeiro preconizava essa lógica urbana pulsante.

Se bem é verdade que, em Brasília, ainda se podem encontrar grandes figuras políticas, indo até o famoso Piantella, ou ao Francisco. Há Embaixadores cariocas mais tradicionalistas quanto a seu papel no Boteco, no antigo Bar Brasília… Mas sendo raros aqueles que demandam presença ao se verem reconhecidos, são ainda mais raros os literatos, mecenas de artistas ou benfeitores de poetas, e poucos aqueles que são afeitos a romances e a uma vida amorosa aberta. Com isso raramente propiciam a urbanidade e o burburinho de que tanto necessitam uma cidade política e seus escritores. Hoje escorrem os atores políticos da cena social, da qual parecem ter pavor a ocupar com iniciativas que tenham algum desdobramento concreto sobre o ritmo de vida das pessoas, pressupondo que a vida social pertence à alta sociedade. Contudo o que vemos na Europa é o contrário: cidadãos comuns frequentando a ópera e o teatro, comparecendo ao museu e aos restaurantes de charme, pois os preços não são proibitivos e são um panorama simples, sem penduricalhos, que constitui parte da civilização que construíram. E não será parte da atividade política dos representantes construir uma personalidade própria que paire em cena, atender a lançamentos e a espetáculos, promover as novidades e a coesão que as cidades extraem da boemia? A política deveria envolver o sonho de participar de uma memória histórica, transitar na pólis, oferecer assunto a ela.

Talvez o puritanismo das organizações não governamentais tenha estabelecido padrões cada vez mais estranhos a nossa cultura brasileira: a ideia de que a cidadania se exerce lendo relatórios de números. Ora essas! Não caberá esse papel ao quœstor responsável pela auditoria, remunerado pelos cidadãos, e ao jornalista destilar as proporções e imaginar as analogias? Haverá menor transparência da figura pública ao ventilar novidades em vida pública e configurar a transparência do seu trabalho na esfera do convívio? As autoridades vivazes afeitas a um clima informal, no qual desenvolvem sua presença de espírito, padecem hoje, contudo, do risco de serem acusados de assédio. No próprio Itamaraty, uma colega parece não conseguir se esquecer de um galanteio que teria feito seu Chefe há 7 anos, ao elogiá-la. Apesar de não mais ter tido contato com ele desde então, vem o acusando pelo suposto e único episódio, do qual teria se retraído o cavalheiro, após uma reação de desagrado. O que ganhará com que todos saibam e se convençam de qual é o elogio que tanto a ofendeu? Acusa-o ainda de uma salva de palmas para comemorar um êxito supostamente seu, mas assim o Chefe procedia com todos os demais funcionários, homens e mulheres que tinham bom desempenho profissional… As instituições parecem se esquecer que vivemos no Brasil. É sobretudo prejudicial para as mulheres um espaço em que se reduza a liberdade de expressar sentimentos, gentileza, e em que se reduza a margem de resolver mal-entendidos por meio do diálogo. Torna-se triste um espaço profissional em que se venha a valorizar a mediocridade do poder de acusar, ao invés do mérito da presença de espírito.

Parece-me uma preocupação plausível para este ano eleitoral a de que os cidadãos tenham consigo em mente figuras dedicadas à urbanidade e à construção de um sentido de civilização brasileira. Pessoas cujos espíritos reflitam a liberdade, pessoas agradáveis com quem se possa ter convivido, que sejam capazes de produzir movimento pela cidade, nas quais se possam depositar expectativas, predileções e até mesmo suas fantasias sobre o que fazem quando não estão na tribuna. Oxalá o clima cheio de vida e audácia do Mediterrâneo possa fazer chegar seus bons humores até esse lado do Atlântico.

Ana Paula Arendt escreve mensalmente nesta coluna ‘Terra à vista’. E-mail: contato.anapaulaarendt@gmail.com

Uma resposta para “Os bons humores do Mediterrâneo. Por Ana Paula Arendt.”

  1. Antonio Edson Souza de Jesus disse:

    Boa Noite Ana !
    Agradeço a ilustração e quando tiver oportunidade vou visitar o Mediterrâneo.
    Gratidão imensa.

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