Surrogates... ou videotas... Deu, hoje, no Carta Maior.

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Em seminário do Fórum 21, Laymert Garcia dos Santos, professor titular do Departamento de Sociologia da Unicamp e membro do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP denuncia que as versões da velha mídia reverberadas pelas redes sociais abalaram a relação entre verdade e ficção…

LINK – http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FMidia%2F-Ha-uma-operacao-de-enfeiticamento-em-curso-diz-sociologo%2F12%2F34994

COMENTÁRIO

A propósito, um filme que passou meio batido pela telas brasileiras, “Surrogates” (2009, Jonathan Mostow), baseado no livro de quadrinhos de mesmo título (2005-2006), que trazia androides “substitutos” de cada um dos humanos que, livres de seus cansaços e rugas, colocavam-se à luz do dia sob ciborgue-estampas impecáveis enquanto engordavam em seus quartos jogando o “videogame” de suas próprias vidas, “lá fora”. Qualquer semelhança com brasileiros dependurados em telenovelas é… muita coincidência. O filme é imperdível.

Videota – termo que serviu de versão para o português (de Portugal) para o título do filme (também imperdível) “Being There” (1979, Hal Ashby) – no Brasil “traduzido” como “Muito além do jardim”. Inspirado… Faltou apenas localizar o jardim… botânico (no Rio de Janeiro), bairro-sede da Rede Globo de Televisão.

A propósito desse ambiente viciado em que vivemos, publicou – hoje – o advogado especialista em mídia e direitos autorais, Nehemias Gueiros:

O domínio negativo de uma emissora

No ano passado, a prestigiosa revista inglesa The Economist publicou um artigo sobre a TV Globo, relatando que cerca de 91 milhões de pessoas (pouco menos da metade da população brasileira) sintoniza o canal todos os dias. Uma audiência que, nos Estados Unidos, só acontece poucas vezes no ano e somente para a emissora que conseguiu adquirir os direitos de transmissão do Super Bowl, por exemplo, a final do campeonato de futebol americano.

Os números podem parecer exagerados, mas basta dar um rolé pelo Brasil para constatar que de Norte a Sul há um televisor ligado, geralmente na telinha do plim-plim.

Estudo de 2011 feito pelo IBGE constatou que a porcentagem de lares com uma televisão (96,9%) é superior ao número de residências com uma geladeira (95,8%) e que 64% das casas possuem mais de um televisor. Os brasileiros assistem à TV 4,5 por dia durante a semana e 4,14 horas por dia nos finais de semana, 73% veem televisão todo dia e apenas 4% nunca assistem.

Entre os que assistem TV, a Globo é quase ubíqua e embora sua audiência venha caindo nas últimas décadas, a emissora ainda responde por 34%. Sua competidora mais próxima, a TV Record, aparece com 15%.

E o que significa então toda essa pervasiva presença? Num país em que a educação está ranqueada em 60° lugar entre 76 países isto deveria significar que um determinado conjunto de valores e perspectivas sociais é amplamente compartilhado, já que, sendo a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo exerce considerável influência política no Brasil.

Diante disso, um repórter do New York Times, o mais importante jornal do mundo, deu-se ao luxo de assistir um dia inteiro à programação da TV Globo para conhecer melhor os valores e as ideias que a emissora promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste todas as manhãs são os noticiários, locais e nacionais. Por eles, infere-se que não existe nada mais importante do que o trânsito e o tempo, temas que recebem substancialmente mais cobertura do que a ameaça de impeachment da presidente Dilma e a corrupção generalizada no país, por exemplo, muito mais sérios.

Dos talk-shows matinais, tipo Ana Maria Braga, pode-se inferir que o “grande segredo da vida” é ser rico, famoso, vagamente religioso e “do bem”. Todo mundo se ama e sorri a mais não poder. Notáveis estórias de paraplégicos que foram vitoriosos em suas carreiras são tema de intermináveis debates, com absoluta superficialidade.

A parte da tarde é tomada por reprises de novelas e velhos filmes de Hollywood e o início da noite tem como destaque o carro-chefe da empresa, o Jornal Nacional. Há uns dez (10) anos, o âncora William Bonner comparou o espectador médio do programa a Homer Simpson — incapaz de compreender notícias mais complexas. Aparentemente o padrão não se modificou.

Assistir à TV Globo hoje significa se acostumar ao achatamento e às fórmulas cansadas da programação, que já não são mais capazes de atrair ninguém fora da faixa etária deseducada que compõe a massa da audiência da emissora no Brasil.

O resto da noite é preenchido com novelas e minisséries, das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam pesada maquiagem, enormes brincos e unhas pintadas, saias curtas e apertadas, salto alto e cabelo alisado. Os personagens femininos podem ser bons ou maus, mas são invariavelmente magros e seus desejos mais íntimos são dar à luz a um filho branco e louro ou aparecer na televisão. Por esta mesma visão, pessoas comuns têm mordomos e amas em casa e bombeiros hidráulicos seduzem as entediadas madames em suas visitas caseiras.

Duas das três novelas atualmente no ar falam sobre favelas, com um pouco de semelhança com a realidade. Politicamente conservadoras como “A Regra do Jogo”, por exemplo, que possui um personagem que é ativista de direitos humanos trabalhando com a Anistia Internacional para contrabandear materiais para fabricar bombas para presidiários. A famosa organização divulgou uma reclamação formal contra a TV Globo, acusando-a de difamar os ativistas de direitos humanos brasileiros.

Apesar do alto nível técnico de produção, é difícil assistir às novelas, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogos pastosos e clichês.

Mas tudo isso tem lá seu efeito. No final do dia a gente se sente menos preocupado com a crise hídrica ou a possibilidade de mais um golpe militar — igual aos apáticos personagens das novelas.

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